Rússia reitera ameaça nuclear no último dia de referendos de anexação

Votação para decidir se quatro territórios ucranianos farão parte da Rússia termina nesta terça, 27; G7 e aliados de Kiev dizem que não reconhecerão os resultados
Votação no referendo de anexação na cidade ucraniana de Mariupol (AFP/AFP Photo)
Votação no referendo de anexação na cidade ucraniana de Mariupol (AFP/AFP Photo)
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AFPPublicado em 27/09/2022 às 13:30.

A Rússia reiterou nesta terça-feira, 27, a ameaça de utilizar armas nucleares, no último dia dos referendos de anexação de quatro territórios sob seu controle, total ou parcial na Ucrânia, votações consideradas "farsas" por Kiev e seus aliados.

O ex-presidente russo e atual número dois do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitri Medvedev, afirmou que Moscou defenderá os novos territórios que pretende incorporar após as votações com o uso de "todas as armas russas, incluindo as armas estratégicas".

"Eu vou repetir mais uma vez para os ouvidos surdos (...) A Rússia tem o direito de usar a arma atômica, caso seja necessário", disse.

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Ao ser questionado sobre as declarações de Medvedev, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, destacou que as mesmas coincidem com a "doutrina militar" da Rússia.

"A situação legal mudará radicalmente do ponto de vista do direito internacional e também terá consequências sobre a segurança dos territórios", disse Peskov.

A ameaça nuclear que preocupa o Ocidente coincide com o último dia dos referendos nas regiões separatistas pró-Rússia de Donetsk e Lugansk (leste), assim como nas regiões de Kherson e Zaporizhzhia (sul), sob ocupação russa.

As votações foram organizadas como resposta à contraofensiva de Kiev, que com o apoio das armas fornecidas pelas potências ocidentais recuperou milhares de quilômetros quadrados dos russos desde o início de setembro, e recordam a estratégia utilizada para a anexação da Crimeia em 2014.

As cinco regiões representam pouco mais de 20% da superfície da Ucrânia.

Nesta terça-feira, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que os referendos pretendem "salvar as populações" que moram nestes territórios.

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Êxodo de russos

Os países do G7 prometeram nunca reconhecer os resultados. O governo dos Estados Unidos citou uma resposta "rápida e severa" por meio de sanções econômicas adicionais.

A UE destacou que considera os referendos de anexação "ilegais" e "ilegítimos". Também advertiu que as pessoas que colaboraram em sua organização serão alvos de sanções.

A China, aliado importante da Rússia, não criticou abertamente os referendos, mas pediu o respeito à "integridade territorial de todos os países".

Nenhuma crítica ou ameaça parece abalar Moscou, que organizou os referendos às pressas, em um momento de vitórias militares ucranianas, com a abertura de centenas de locais de votação nos quatro territórios e na Rússia - para permitir o voto dos deslocados pelo conflito.

As autoridades pró-Rússia informaram que na terça-feira à noite ou nos próximos dias serão anunciados "resultados provisórios". Em seguida, o Parlamento russo deve aprovar um texto para formalizar a integração das quatro regiões

No plano diplomático, a ministra das Relações Exteriores da França, Catherine Colonna, viajou a Kiev nesta terça-feira para expressar apoio à Ucrânia e para uma reunião com o presidente Volodymyr Zelensky.

Na atual fase do conflito, a Rússia anunciou uma mobilização de reservistas que pretende recrutar 300.000 soldados, o que provocou um êxodo de russos para países vizinhos.

Nesta terça-feira, a tendência foi confirmada por Geórgia e Cazaquistão. Os deslocamentos também são observados para países como Finlândia e Mongólia.

"Eu não sou bucha de canhão, não sou um assassino", disse à AFP Nikita, um russo de 23 anos que cruzou a fronteira com a Geórgia.

O ministério da Defesa da Rússia informou que não solicitará a extradição dos milhares de homens que fugiram para países vizinhos para escapar do recrutamento.

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