Líbano: megaexplosão deixou mais de 100 mortos nesta semana (Karim Sokhn/Instagram/Ksokhn/Reuters)
Reuters
Publicado em 7 de agosto de 2020 às 07h35.
Última atualização em 10 de agosto de 2020 às 07h36.
"Eles estavam sendo gananciosos", afirmou Boris Prokoshev, que era o capitão do navio Rhosus em 2013, quando, segundo ele, o proprietário da embarcação lhe disse para fazer uma parada não programada no Líbano para pegar carga extra.
Prokoshev contou que o navio transportava 2,75 mil toneladas do produto químico, altamente inflamável, nitrato de amônia da Geórgia para Moçambique, quando veio a ordem para desviar até Beirute no caminho pelo Mediterrâneo.
Foi solicitado à tripulação que embarcasse um equipamento rodoviário pesado e o levasse ao porto de Aqaba, na Jordânia, antes de retomar sua jornada para a África, onde o nitrato de amônia deveria ser entregue a um fabricante de explosivos.
Mas o navio nunca deixaria Beirute. Não houve sucesso em carregar com segurança a carga adicional, e depois se desenrolaria uma longa disputa legal sobre taxas portuárias.
"Era impossível", disse Prokoshev, de 70 anos, à Reuters sobre a operação para tentar carregar a carga extra. "Poderia ter arruinado todo o navio e eu disse que não", afirmou ele por telefone, de sua casa na cidade russa de Sochi, na costa do Mar Negro.
O capitão e os advogados de alguns credores acusaram o proprietário do navio de abandonar a embarcação e conseguiram que ele fosse detido. Meses depois, por razões de segurança, o nitrato de amônia foi descarregado do navio e colocado em um depósito portuário.
Na última terça-feira (4), o estoque pegou fogo e explodiu não muito longe de uma área residencial de Beirute. A enorme explosão matou pelo menos 145 pessoas, feriu 5 mil, arrasou prédios e deixou mais de 250 mil pessoas desabrigadas.
O navio, que apresentava vazamentos, poderia ter deixado Beirute se tivesse conseguido carregar a carga adicional.
O capitão e três tripulantes passaram 11 meses na embarcação enquanto a disputa judicial se arrastava, sem salários e com suprimentos limitados de comida. Depois queeles saíram, o nitrato de amônia foi descarregado.
"A carga era altamente explosiva. É por isso que foi mantida a bordo quando estávamos lá. O nitrato de amônia tinha uma concentração muito alta", disse Prokoshev.
Ele identificou o proprietário do navio como o empresário russo Igor Grechushkin. Tentativas de contato com Grechushkin não tiveram resultado.
A polícia do Chipre interrogou Grechushkin em sua casa no país, nessa quinta-feira (6). Um porta-voz da polícia cipriota informou que um indivíduo, de quem não citou o nome, foi interrogado a pedido da Interpol em relação à carga de Beirute.
O governo do Líbano concordou, na quarta-feira, em colocar todos os funcionários portuários de Beirute, que supervisionam armazenamento e segurança desde 2014, em prisão domiciliar.
O chefe do porto de Beirute e o chefe da alfândega disseram que várias cartas foram enviadas ao Judiciário, pedindo que o material fosse removido, mas nenhuma ação foi tomada.
Neste sábado, o presidente do Líbano, Michel Aoun, afirmou que vai investigar se houve ação externa na explosão que aconteceu no porto.
A Reuters não pôde entrar em contato imediatamente com o ministro da Justiça do Líbano para comentar. O Ministério da Justiça está fechado por três dias de luto nacional.
O navio Rhosus naufragou no local onde estava ancorado no porto de Beirute, de acordo com e-mail de maio de 2018, de um advogado para Prokoshev, dizendo que a embarcação havia submergido "recentemente".