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O que diz a denúncia da Justiça dos EUA contra Maduro

Acusação do procurador americano Jay Clayton cita fatos desde o período em que presidente deposto ainda era parlamentar

Nicolás Maduro: líder venezuelano está detido em Nova York (XNY/Star Max /Getty Images)

Nicolás Maduro: líder venezuelano está detido em Nova York (XNY/Star Max /Getty Images)

Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 10h16.

A denúncia apresentada pelo procurador americano Jay Clayton à Corte do Sul de Nova York neste fim de semana detalha uma série de acusações contra o líder venezuelano Nicolás Maduro, envolvendo suposta ligação direta com o narcotráfico internacional.

O documento de 25 páginas também cita familiares do líder chavista e integrantes centrais do regime, com base em investigações conduzidas ao longo de anos e em informações fornecidas por um ex-aliado que firmou acordo de delação premiada com os Estados Unidos.

Segundo a acusação, os fatos se estendem do início dos anos 2000, quando Maduro ainda era parlamentar, até seu período à frente da Presidência. Em juízo, Maduro declarou-se inocente.

Acusação de narcoterrorismo

A denúncia acusa Maduro, sua esposa Cilia Flores, o filho Nicolás Ernesto Maduro Guerra (o “Nicolasito”) e autoridades do alto escalão do regime, como o ministro do Interior Diosdado Cabello, de conspiração para o narcoterrorismo.

O texto afirma que o grupo teria usado armas e estruturas do Estado para proteger operações de tráfico de cocaína destinadas, sobretudo, aos Estados Unidos.

Entre os acusados também está o ex-ministro do Interior Ramón Rodríguez Chacín. O documento sustenta que o núcleo chavista manteve, ao longo dos anos, alianças com organizações criminosas internacionais para viabilizar a produção, o transporte e a distribuição da droga.

Aliança com guerrilhas e cartéis

De acordo com a denúncia, desde o início do regime chavista, Maduro, Cabello e Rodríguez Chacín teriam se associado às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e ao Exército de Libertação Nacional (ELN) para apoiar o tráfico de cocaína.

No México, o esquema envolveria o cartel de Sinaloa e o grupo Los Zetas; na Venezuela, envolveria o líder da facção Tren de Aragua, Hector Guerrero Flores.

De acordo com o procurador, o esquema funcionava da seguinte maneira: as Farc e o ELN controlam a produção de cocaína em regiões montanhosas da Colômbia. O cartel de Sinaloa e o grupo Los Zetas, no México, controlam rotas de transporte ilegal de drogas pela América Central e são responsáveis por atravessar a droga para os Estados Unidos através da fronteira com o México.

A facção venezuelana Tren de Aragua “controla uma rede criminosa que colaborava com o transporte de cocaína dentro da Venezuela e na costa venezuelana” e oficiais do regime chavista protegem os carregamentos em sua passagem pelo território venezuelano.

Uso da diplomacia e de aviões oficiais

Um dos pontos centrais da denúncia diz respeito ao período em que Maduro foi chanceler, entre 2006 e 2008.

Segundo o procurador, ele teria facilitado a emissão de passaportes diplomáticos para narcotraficantes e garantido cobertura diplomática a aviões usados para transportar dinheiro do tráfico do México para a Venezuela.

O documento descreve que aeronaves particulares eram anunciadas como missões diplomáticas, evitando fiscalização. Enquanto os traficantes se reuniam com representantes da embaixada venezuelana no México, os aviões seriam carregados com recursos ilícitos e retornariam ao país sob proteção oficial.

Rotas, volumes e propinas

A acusação estima que a organização criminosa teria enviado entre 200 e 250 toneladas de cocaína por ano aos Estados Unidos. As rotas incluíam pontos de transbordo em Honduras, Guatemala e México, além de envios marítimos e aéreos a partir da Venezuela.

Segundo a denúncia, políticos em países da rota receberiam propinas para facilitar o transporte, embora os beneficiários não sejam identificados.

Os carregamentos sairiam da costa venezuelana em lanchas rápidas, barcos de pesca e navios porta-contêineres, além de voos partindo de pistas clandestinas ou aeroportos controlados por autoridades corruptas.

Participação da esposa de Maduro

O documento afirma que Cilia Flores participou diretamente do esquema. Em 2007, ela teria estado presente em um encontro no qual Maduro aceitou centenas de milhares de dólares em propinas para intermediar o contato entre um grande traficante e o então diretor do Escritório Antidrogas da Venezuela, general Néstor Reverol Torres.

Após o encontro, o traficante teria iniciado pagamentos mensais de cerca de US$ 100 mil por avião carregado de cocaína que atravessasse o país, com parte do dinheiro destinada à esposa de Maduro. Reverol é considerado fugitivo da Justiça americana desde 2015.

De acordo com a denúncia, ao menos de 2004 a 2015, Maduro e sua esposa teriam atuado em conjunto para traficar, “com a ajuda de escoltas armadas de militares”, cocaína que havia sido previamente apreendida pelas autoridades da Venezuela.

Delação de ex-chefe da inteligência

A parte mais detalhada da denúncia baseia-se em informações fornecidas por Hugo Armando Carvajal Barrios, ex-diretor da inteligência militar venezuelana e antigo aliado de Maduro e Cabello.

Conhecido como “El Pollo”, Carvajal rompeu com o regime, foi preso na Espanha em 2019, extraditado aos EUA e, em junho de 2025, declarou-se culpado e firmou acordo de delação premiada.

Entre os episódios narrados, está o envio de mais de 5,5 toneladas de cocaína da Venezuela para o México em 2006, coordenado por Cabello e Carvajal, e uma carga de 1,3 tonelada despachada para Paris em 2013, apreendida pelas autoridades francesas.

Neste último caso, a denúncia afirma que Maduro teria repreendido os aliados por usarem o aeroporto de Maiquetía após apreensões anteriores.

Envolvimento do filho e de sobrinhos

A denúncia também aponta o envolvimento direto de Nicolás Ernesto Maduro Guerra. Entre 2014 e 2015, segundo um capitão da Guarda Nacional citado no documento, o filho do ex-presidente teria usado um avião da petroleira estatal PDVSA para transportar pacotes que seriam drogas, afirmando que a aeronave poderia ir “aonde quisesse”.

O texto ainda cita os sobrinhos de Maduro, Efraín Campos Flores e Franqui Francisco Flores de Freitas, presos em 2015 após operação da DEA, a agência americana de combate ao narcotráfico, em Porto Príncipe.

Eles teriam negociado o envio de grandes carregamentos de cocaína a partir do “hangar presidencial” e discutido o uso dos recursos do tráfico para financiar campanhas políticas do regime.

Ainda segundo a denúncia, Nicolasito “trabalhou para enviar centenas de quilos de cocaína da Venezuela para Miami” em 2017.

*Com informações do Globo

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