EUA e Canadá, importanets aliados, passam por período difícil nas relações diplomáticas (Joe Raedle/AFP)
Repórter
Publicado em 26 de julho de 2026 às 10h00.
A inauguração da Ponte Internacional Gordie Howe, que liga Detroit, nos Estados Unidos, a Windsor, no Canadá, ocorreu em meio a uma forte tensão política entre os dois países. O evento, inicialmente planejado como uma celebração conjunta, acabou sendo realizado apenas pelo governo canadense. A ponte abrirá ao público na segunda, dia 27 de julho.
Autoridades estadunidenses foram retiradas da lista de convidados do evento de abertura nesta sexta, 24, após novas ameaças tarifárias do presidente Donald Trump contra o Canadá. A decisão evidenciou o desgaste das relações bilaterais e transformou uma obra que seria um símbolo de integração — nomeada em homenagem a um importante jogador de hóquei canadense, que passou a maior parte de sua carreira em times americanos — em um reflexo das incertezas diplomáticas entre os aliados.
Com investimento de aproximadamente 6,4 bilhões de dólares canadenses, a ponte foi construída ao longo de oito anos e enfrentou sucessivos atrasos. A estrutura é considerada importante para o comércio entre os dois países, conectando polos da indústria automotiva da América do Norte.
A expectativa é que a nova travessia facilite o transporte de mercadorias avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares canadenses por dia, segundo a BBC. O projeto busca reduzir gargalos logísticos na fronteira, uma das mais movimentadas do continente.
Donald Trump: apesar de cláusulas no acordo com o Canadá, presidente defende a coadministração imediata da ponte. (Kent NISHIMURA/AFP)
Há quase 15 anos, o governo canadense assumiu integralmente os custos da construção, em uma medida que pretendia superar a resistência política e a burocracia nos Estados Unidos para acelerar a execução da obra. Pelo acordo original, a ponte seria coadministrada pelos países, mas o Canadá recuperaria primeiro os investimentos por meio da cobrança de pedágios, antes de compartilhar as receitas com o Estado de Michigan.
Entretanto, no início deste ano, Donald Trump afirmou que impediria a abertura da ponte caso o Canadá não aceitasse dividir a autoridade e a propriedade do empreendimento. O presidente defendeu que os Estados Unidos deveriam controlar ao menos metade do ativo imediatamente.
A obra também enfrentou oposição da família Moroun, proprietária da vizinha Ambassador Bridge, considerada a mais movimentada passagem comercial terrestre da América do Norte. Segundo reportagem do The New York Times, o empresário Matthew Moroun, apoiador de Trump, reuniu-se com o secretário de Comércio dos EUA pouco antes das declarações do presidente.
Em junho, o primeiro-ministro canadense Mark Carney anunciou um adiamento da inauguração para permitir novas negociações com Washington. Como parte do entendimento, Ottawa concordou em dividir metade das receitas da ponte, ao longo dos próximos 15 anos, com um fundo de desenvolvimento econômico administrado exclusivamente pelo governo norte-americano.
Por sua vez, Trump comemorou o novo acordo nas redes sociais, classificando-o como "muito melhor" para os Estados Unidos. A decisão, no entanto, provocou críticas no Canadá, onde setores políticos acusam o governo de fazer concessões excessivas sob as pressões da Casa Branca.
Durante a campanha eleitoral, Carney prometeu adotar uma postura firme nas negociações comerciais com os Estados Unidos, inspirada na expressão "elbows up" (cotovelos para cima), tradicional no hóquei canadense, que se tornou o slogan político do premiê. Agora, todavia, enfrenta questionamentos quanto à sua estratégia e à falta de transparência nos detalhes do novo acordo sobre as receitas da ponte.
Enquanto o dirigente de Ontário, Doug Ford, elogiou a condução das negociações, líderes mais conservadores afirmam que o governo demonstrou fragilidade diante das exigências norte-americanas. Há também divergências entre as províncias sobre a melhor resposta ao endurecimento da política comercial dos Estados Unidos.
Especialistas consultados pela BBC avaliam que, apesar das concessões, a abertura da Ponte Internacional Gordie Howe é essencial para preservar as cadeias de suprimentos e fortalecer o comércio entre os dois países. Ainda assim, alertam que o Canadá já fez concessões suficientes e que mais complacência por parte dele pode ter consequências perigosas, com base na administração republicana atual.