Criar filhos em um mundo ansioso: conforto e conveniência oferecidos pelos avanços tecnológicos têm que ser regrados, principalmente na infância, dizem especialistas (Getty Images/Getty Images)
Repórter
Publicado em 25 de janeiro de 2026 às 06h01.
Em meio às discussões sobre a economia, a nova ordem global emergente e o futuro da inteligência artificial (IA), um debate mais, digamos, mundano também marcou o Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta semana. Todas as tendências que abalam as estruturas do mundo como o conhecemos seguem postas. Mas outro assunto preocupa bilhões de pessoas mundo afora: como criar seus filhos em um mundo novo, ansioso e permeado de tecnologias disponíveis e ambientes virtuais tão perigosos quanto estimulantes?
Intitulado Como criar filhos em um mundo ansioso, o debate levou ao palco os psicólogos Jonathan Haidt, professor da New York University (NYU), e Becky Kennedy, CEO da Good Inside, juntamente com a autora e especialista em confiança Rachel Botsman compartilham a mesma opinião central. E eles foram uníssonos: o conforto e conveniência oferecidos pelos avanços tecnológicos têm que ser regrados, principalmente na infância.
Em uma narrativa já bem conhecida por pais e filhos, muito conforto e conveniência, ou “mimo”, privam o desenvolvimento de respostas emocionais e julgamentos. Em outras palavras, resolver tudo para as crianças faz com que elas sejam incapazes de lidar com seus próprios problemas, uma característica que continua durante a vida - e que contribui para ansiedades.
A tecnologia chega para exacerbar essa dinâmica, apontaram Presente nas infâncias de cada vez mais crianças, e na criação dessas crianças por cada vez mais famílias,
os especialistas alertam que soluções práticas e fáceis providenciadas pela tecnologia prejudicam o desenvolvimento emocional e o amadurecimento, a formação de laços e o aprendizado, criando um mundo mais ansioso não necessariamente por ser um lugar pior, mas porque as pessoas não estão desenvolvendo mecanismos para lidar com as dificuldades da vida.
Com a tecnologia pressionando a demanda por produtividade a níveis nunca vistos, em um mundo conectado onde as coisas acontecem cada vez mais rápido, adultos parecem estar cada vez mais ocupados e estressados, com menos tempo e capacidade emocional para lidar com os problemas de seus filhos. Em uma tendência de cada vez menos tolerância para os problemas das crianças – considerados triviais em comparação – pais confiam mais e mais na tecnologia para os ajudar com isso.
“Um iPhone é uma babá incrivelmente eficaz”, disse Haidt durante a conversa. Uma criança com acesso ao microcosmo virtual de um smartphone não reclama aos pais, ou chora, tomando seu tempo de descanso com problemas, apontou.
Ao criar um “ambiente sem fricção”, a tecnologia pode ajudar a consertar todo tipo de problemas com soluções rápidas e práticas em vez de guiar crianças e ensiná-las a lidar com situações negativas. "Dessa maneira, roubamos as crianças de oportunidades para aprenderem a lidar com a vida”, diz Kennedy.
A psicóloga descreveu nesse ponto a importância do que chama de "alegria doentia": perceber o valor em algo que crianças recebem como uma experiência negativa. Esse tipo de situação, como ser separado de um querido amigo na sala de aula, ajuda crianças a aprenderem a lidar com frustrações, no que Kennedy diz ser a "base para comportamentos futuros".
Ao invés de tentar resolver o "problema" para a criança, ou de dispensá-lo como algo infantil, a especialista sugere balancear validação com um 'mal necessário': validar os sentimentos dos filhos, e encorajá-los a seguir em frente em uma situação desconfortável.
Dispositivos como smartphones e computadores, apontou Botsman, são uma alternativa mais confortável ao mundo real, pois não só resolvem problemas como também reduzem o nível de risco no mundo físico, dando uma certa ilusão de segurança.
Atualmente, a maioria dos pais busca evitar, por exemplo, que suas crianças brinquem livremente nas ruas como fizeram gerações prévias, citando uma miríade de preocupações novas e antigas. Mas, ao mesmo tempo, um ambiente real protegido aumenta drasticamente a exposição aos perigos virtuais.
Botsman trouxe uma dicotomia: viver em um ambiente fisicamente seguro, especialmente um onde qualquer problema é resolvido, dá às crianças uma ingênua e forte confiança quando estão no mundo virtual, onde, através do julgamento de uma mente protegida, se expõem a diversos riscos e abusos com os quais não são capazes de lidar pois nunca desenvolveram essas ferramentas cognitivas.
Rapidamente se tornando mais e mais prevalente no nosso cotidiano, a inteligência artificial agora faz parte intrínseca de muitas tecnologias disponíveis para crianças, seus educadores, e seus pais. O avanço da IA é percebido por muitos como uma maneira de deixar o dia a dia mais eficiente ao se livrar de problemas triviais que consomem nosso tempo.
Com isso, poderíamos focar mais em atividades e conexões humanas. Mas, ao mesmo tempo, avaliou Kennedy, ao criar um ambiente livre de fricções e problemas “reduzimos a capacidade dessas pessoas de serem humanos”, por não dar chances para características como criatividade e cooperação mútua florescerem.
Confiar cada vez mais a criação de crianças na tecnologia, além de privá-los de valiosas experiências de vida, também afeta a formação de laços, pois os afasta de interações intrapessoais. Pouco a pouco, em um processo acelerado pelos avanços em tecnologias de inteligência artificial, agora presente em brinquedos, crianças podem criar seus importantes primeiros laços emocionais com máquinas e sistemas, alertam os especialistas.
“Não precisamos de estudos científicos para saber que se crianças estão crescendo com seus primeiros laços sendo com robôs de conversação, isso será um desastre”, disse Haidt, citando desenvolvimento cognitivo na infância.
Enquanto o psicólogo reconhece a importância dessas ferramentas no mercado de trabalho, e o impacto positivo que elas podem ter no ensino secundário e superior, Haidt defende ferrenhamente que seu uso seja limitado durante os primeiros anos de aprendizado. “Crianças precisam estar profundamente envolvidas em relações com pessoas de verdade, que ainda estarão presentes em dois ou três anos”, afirmou.
Para pais e mães, o desafio está posto — e, ao que tudo indica, será crescente enquanto seus filhos crescem.