Mundo
Acompanhe:

Kamala Harris, a vice que faz história na política americana

A senadora negra é a primeira mulher a ocupar o segundo mais alto cargo dos EUA. Por causa da idade de Biden, ela é uma aposta à presidência em 2024

Kamala Harris: Senadora da Califórnia é a primeira mulher a ser vice-presidente dos Estados Unidos (Elijah Nouvelage/File Photo/Reuters)

Kamala Harris: Senadora da Califórnia é a primeira mulher a ser vice-presidente dos Estados Unidos (Elijah Nouvelage/File Photo/Reuters)

F
Fabiane Stefano

7 de novembro de 2020, 15h07

A vitória do democrata Joe Biden significa também uma vitória para as mulheres nos Estados Unidos. Ao lado do novo presidente, chegará à Casa Branca no dia 20 de janeiro a vice-presidente Kamala Harris, a senadora negra de ascendência indiana. Harris é a primeira mulher a assumir o segundo mais alto posto da democracia americana.

Quais são os riscos da eleição americana para os investimentos? Acesse o relatório semanal da EXAME Research

Ao ser anunciada a vitória de Biden, no início da tarde do sábado, 7, Harris publicou em sua conta do Twitter: "Esta eleição é muito mais sobre Joe Biden e eu. É sobre a alma dos Estados Unidos e nossa disposição de lutar por ele. Temos muito trabalho pela frente. Vamos começar. "

Não é a primeira vez que Harris derruba barreiras: ela foi eleita a primeira afro-americana a ser eleita procuradora-geral da Califórnia em 2010 e reeleita em 2014.

A escolha de Harris, de 55 anos, como nome a vice de Biden levou meses e foi cercada de muita pressão. Isso porque, como Biden terá 82 anos ao terminar o mandato, Kamala Harris deve ser a provável candidata à presidência pelo partido em 2024 e se consolidar como uma das principais lideranças do partido para o futuro.

"Além de representar um simbolismo histórico e a renovação do partido Democrata, vale ressaltar que diante da idade de Joe Biden, é bem provável que a senadora Harris seja uma opção real para ser candidata a Casa Branca em 2024", diz Maurício Moura, fundador do IDEIA,  instituto de pesquisa especializado em opinião pública.

Harris foi vista como uma boa opção por ter um perfil que congrega posições moderadas mas que, ao mesmo tempo, agrada aos apoiadores democratas por ser a primeira vice negra da história americana. No espectro político do Partido Democrata, ela se encontra mais ao centro, se comparada a outros outros nomes populares na legenda.

"Harris representa o fortalecimento da ala moderada do partido em detrimento ao mais liberais como a senadora Elizabeth Warren ou a deputada Alexandria Ocasio-Cortez", diz Moura, do IDEIA.

Filha de imigrantes

A democrata da Califórnia nasceu em Oakland e é filha de dois pais imigrantes: uma mãe indiana e um pai jamaicano. Ela foi criada principalmente pela mãe, uma pesquisadora sobre câncer de mama e ativista dos direitos civis.

“Minha mãe sabia muito bem que estava criando duas filhas negras”, escreveu ela em sua autobiografia, The Truths We Hold. “Ela sabia que sua pátria adotiva veria Maya [irmã de Kamala] e eu como meninas negras e estava determinada a garantir que nos tornássemos mulheres negras confiantes e orgulhosas.”

Em seu perfil oficial no Senado, ela declara que passou a vida lutando contra a injustiça. “Crescendo em Oakland, Kamala tinha uma visão panorâmica do movimento dos Direitos Civis”, diz o texto.

Ela se formou na Howard University, uma histórica universidade para pessoas negras em Washington. Depois, estudou direito na Universidade da Califórnia e começou uma carreira bem-sucedida como promotora.

Em 2003, ela se tornou a primeira mulher a ser promotora pública na cidade de San Francisco, na Califórnia. Depois, foi a primeira mulher e também a primeira negra a assumir o cargo de procuradora-geral da Califórnia.

Sua missão, resume seu perfil oficial, é lutar pelos direitos de todos, com foco em reformular direitos trabalhistas, o sistema de justiça criminal americano, além de fazer da saúde um direito para todos e apoiar a luta contra o uso abusivo de substâncias ilicitas, os opioides principalmente.

Movimento negro

Diferentemente do Brasil, nos EUA o voto não é obrigatório e, com uma chapa composta por uma vice-presidente mulher e negra, os democratas calculavam que conquistariam importantes votos da comunidade progressista americana.

Durante a campanha, Harris citou em diversas ocasiões o movimento Black Lives Matter e o impacto da violência policial sobre a comunidade negra. "Maus policiais são ruins para bons policiais. Precisamos de reforma no nosso policiamento e no nosso sistema de justiça criminal", disse Harris no debate entre os candidatos a vice, que reuniu a democrata e o atual vice Mike Pence no dia 7 de outubro.

Ao longo da campanha, doadores ligados ao movimento negro abasteceram em mais de 30 milhões de dólares a campanha de Biden e Harris. Associadas à organização estudantil de mulheres negras, a Alpha Kappa Alpha Sorority, fundada em 1908, conseguiram levantar centenas de milhares de dólares para a campanha democrata com doações de 19,08 dólares, em alusão à data de fundação da agremiação.

Harris é casada com o advogado judeu americano Douglas Emhoff desde 2013 e é madrasta dos dois filhos de Emhoff de seu primeiro casamento, os quais a chamam de "Momala" (junção de mother e Kamala). A chegada de Harris à Casa Branca também trará outra novidade: pela primeira vez, haverá um second-gentleman - o que numa tradução livre seria o segundo cavalheiro.