Esquerda conquista avanço histórico no Congresso colombiano

O senador e ex-guerrilheiro Gustavo Petro de 61 anos venceu as primárias ou consultas partidárias que aconteceram simultaneamente com as eleições para renovar as duas câmaras do Congresso de quase 300 cadeiras
Colômbia: a coalizão liderada por Petro aparece como a principal força do Senado, ao lado dos conservadores, com 16 cadeiras cada, uma a mais que os liberais (AFP/AFP)
Colômbia: a coalizão liderada por Petro aparece como a principal força do Senado, ao lado dos conservadores, com 16 cadeiras cada, uma a mais que os liberais (AFP/AFP)
Por AFPPublicado em 14/03/2022 10:37 | Última atualização em 14/03/2022 10:37Tempo de Leitura: 5 min de leitura

O senador e ex-guerrilheiro Gustavo Petro foi o grande vencedor das eleições de domingo na Colômbia: não apenas conquistou a indicação da esquerda para as eleições presidenciais de 29 de maio, como também liderou o avanço inédito do grupo no Congresso.

Como era esperado, o candidato de 61 anos venceu as primárias ou consultas partidárias que aconteceram simultaneamente com as eleições para renovar as duas câmaras do Congresso de quase 300 cadeiras.

Petro recebeu 4,4 milhões de votos, contra 778.000 da ambientalista Francia Márquez, e conquistou a indicação para a candidatura presidencial do Pacto Histórico, a aliança de esquerda, com uma vantagem de 66 pontos percentuais, após a apuração de 98% das urnas.

Ao mesmo tempo, a coalizão liderada por Petro aparece como a principal força do Senado, ao lado dos conservadores, com 16 cadeiras cada, uma a mais que os liberais (15). Na Câmara dos Deputados, a aliança Pacto Histórico conquistou 25 das 165 cadeiras, atrás dos liberais (32) e empatada com os conservadores.

Petro foi o candidato presidencial mais votado e celebrou com seus simpatizantes em um hotel de Bogotá. Emocionado, ao lado dos rivais da esquerda nas primárias, ele declarou: "Pacto Histórico conquistou o melhor resultado do progressismo na história da República da Colômbia". As forças de esquerda conquistaram pelo menos 41 cadeiras nas duas câmaras, mais do que o triplo em comparação com as legislativas passadas e superior às 17 obtidas em 2006, até então seu melhor resultado.

O Pacto Histórico quase com certeza vai receber o apoio dos Comuns, o partido de esquerda surgido do acordo de paz com a extinta guerrilha das Farc e que, por conta do pacto, tem 10 cadeiras reservadas. O centro se perfila como a terceira força.

Na liderança de todas as pesquisas de intenção de voto para as presidenciais, Petro enfrentará o ex-prefeito Federico Gutiérrez (47), vencedor das primárias da coalizão de direita, e o matemático e ex-governador Sergio Fajardo (65), que representará as forças de centro.

O quadro de candidatos à presidência é completado por Óscar Iván Zuluaga, do Centro Democrático, partido governista; o independente Rodolfo Hernández e Íngrid Betancourt, que já foi candidata à presidência e ex-refém das Farc. Os três não participaram nas primárias e disputarão as eleições com o aval de seus partidos ou de assinaturas de eleitores.

Promessa de ruptura

Quase 39 milhões de pessoas estavam habilitadas a votar no domingo. A autoridade eleitoral ainda não informou o nível de abstenção, que historicamente fica próximo de 50%. Agora Petro ambiciona conquistar a presidência no primeiro turno. "Estamos às portas de ganhar a presidência da Colômbia no primeiro turno", declarou aos simpatizantes. Se conquistar metade dos votos mais um, ele evitaria o segundo turno previsto para 19 de junho.

O triunfo de Petro representa um castigo para o Centro Democrático, partido fundado pelo ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010) e que levou ao poder o conservador Iván Duque, que encerra em agosto o mandato de quatro anos com elevado índice de impopularidade.

Deslocado pela esquerda, o partido de direita caiu de 51 parlamentares para 30. "O Centro Democrático também é um grande perdedor nas eleições, não só porque o grande eleitor Álvaro Uribe não está lá (...), mas também porque carrega o enorme descrédito do governo", disse Jorge Restrepo, analista do Universidade Javeriana. Uribe renunciou ao Senado depois de conquistar a maior votação em 2018, forçado por uma investigação judicial por suposta manipulação de testemunhas.

Petro, que em 2018 perdeu o segundo turno para o atual presidente, Iván Duque, emerge como o fenômeno eleitoral de um país empobrecido pela pandemia, com desemprego de quase 15% e assolado pelo repique da violência, que se seguiu ao acordo de paz com as extintas Farc e a insegurança nas cidades.

Este ex-prefeito de Bogotá, que depôs as armas em 1990 para iniciar uma brilhante carreira no Congresso, encaminha-se para capitalizar o descontentamento social patente nos protestos maciços dos últimos anos contra o governo, duramente reprimidos. Petro promete distanciamento das elites tradicionais e liderar um governo de ruptura e de reformas com destaque para a questão do meio ambiente.

Diante do provável declínio do uribismo, Federico Gutiérrez parece ser o que tem mais chances de aglutinar as forças mais conservadoras. "Queremos "derrotar qualquer tipo de projeto populista, autoritário e corrupto que esteja no caminho", disse Gutiérrez, um dos adversários mais inflamados de Petro.

As complexas votações de domingo transcorreram sob uma mobilização policial e militar de 240.000 agentes. Os únicos atos violentos registrados foram dois ataques que deixaram dois militares mortos no sul do país.

No entanto, a Missão de Observação Eleitoral (MOE), independente, assegurou ter recebido centenas de denúncias sobre supostas irregularidades, como compras de votos.