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Escassez de vacinas contra o cólera força a OMS a passar para esquema de uma dose

Esta mudança de estratégia permitirá fornecer doses a mais países num momento de aumento sem precedentes no número de surtos no mundo", escreveu a OMS

Uma criança que sofre de cólera recebe tratamento no hospital Al-Kasrah, na província oriental de Deir Ezzor, na Síria (AFP/Divulgação)

Uma criança que sofre de cólera recebe tratamento no hospital Al-Kasrah, na província oriental de Deir Ezzor, na Síria (AFP/Divulgação)

A
AFP

Publicado em 19 de outubro de 2022, 13h47.

A escassez de vacinas contra o cólera está forçando a OMS a mudar o esquema recomendado de duas doses para uma, devido ao aumento da demanda por numerosos surtos da doença em todo o mundo, informou a Organização nesta quarta-feira (19).

"Esta mudança de estratégia permitirá fornecer doses a mais países num momento de aumento sem precedentes no número de surtos no mundo", escreveu a OMS, que participa do Grupo de Coordenação Internacional (ICG) responsável pela distribuições de emergência de vacinas.

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Desde janeiro, 29 países relataram casos de cólera, incluindo Haiti, Malawi e Síria, que enfrentam grandes surtos.

Uma situação excepcional, recordou a OMS, que apontou que "nos últimos 5 anos, menos de 20 países em média notificaram surtos".

A organização estima que as epidemias de cólera são cada vez mais "numerosas, mais difundidas e mais graves" devido a inundações, secas, mas também conflitos de movimentos populacionais ou outros fatores que limitam o acesso à água potável e aumentam o risco de epidemias de cólera.

O cólera geralmente é contraído por alimentos ou água contaminados e causa diarreia e vômito.

O abastecimento de água potável e o saneamento básico são essenciais para prevenir e controlar a sua transmissão.

A OMS considera que "a estratégia de dose única provou ser eficaz", reconhecendo que faltam evidências para medir a duração exata da proteção com um regime de dose única e também que a proteção parece ser muito menor em crianças.

"Com um regime de duas doses, quando a segunda dose é administrada dentro de 6 meses da primeira, a imunidade à infecção dura 3 anos", ressalta a OMS.

Mas, na situação atual, "fornecer uma dose sempre supera a ausência de dose".

"Embora a interrupção temporária da estratégia de duas doses resulte em imunidade reduzida e encurtada, esta decisão permitirá que mais pessoas sejam vacinadas, caso a situação global do cólera continue a se deteriorar", insistiu a Organização.

A oferta atual de vacinas contra o cólera é extremamente limitada. Do total de 36 milhões de doses previstas para serem produzidas em 2022, 24 milhões já foram expedidas para campanhas preventivas (17%) e reativas (83%) e mais 8 milhões de doses foram aprovadas pelo ICG para o segundo ciclo de emergência  em 4 países, segundo a OMS.

"Como os fabricantes de vacinas estão produzindo em sua capacidade máxima atual, não há solução de curto prazo para aumentar a produção", explicou.

Uma das razões para da falta de vacinas é a decisão de uma fabricante indiana, filial da francesa Sanofi, de interromper sua produção até o final do ano, mas não é a única.

As razões são múltiplas, explica a organização Médicos Sem Fronteiras, que participa do ICG.

"Esta decisão de último recurso é a maneira de evitar a escolha impossível de enviar doses para um país em vez de outro", comentou a Dra. Daniela Garone, coordenadora médica internacional da ONG em um comunicado.

"A vacinação de dose única fornecerá proteção mais curta, mas é a maneira justa e equitativa de tentar proteger o maior número possível de pessoas, pois enfrentamos surtos simultâneos de cólera", enfatizou.

Mas, insistiu, "esta solução é apenas temporária e a atual escassez de oferta é uma séria preocupação para qualquer resposta de curto e médio prazo necessária para novos surtos de cólera este ano".

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