Eleição de Istambul é teste para poderio de Erdogan

Após vitória da oposição, eleições na cidade mais importante da Turquia foram canceladas por acusação de fraude e acontecerão novamente neste domingo
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Redação Exame

Publicado em 21/06/2019 às 06:18.

Última atualização em 21/06/2019 às 06:36.

A Turquia, comandada desde 2003 pelo presidente  Recep Tayyip Erdogan, é uma espécie de precursora dentre os governos democráticos com tendências autoritárias mundo afora. E uma nova mostra das ambiguidades de Erdogan poderá ser vista neste domingo, 23, quando a cidade de Istambul realiza uma segunda edição das eleições para prefeito, após a primeira ter sido contestada por Erdogan (cujo candidato perdeu).

As primeiras eleições para a prefeitura da cidade, a mais importante da Turquia, ocorreram em 31 de março, com vitória de Ekrem Imamoglu, do partido de oposição CHP (Partido Republicano do Povo) com 48,77% dos votos. O candidato de Erdogan, Binali Yıldırım, do partido AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), teve apenas cerca de 13.000 votos a menos, em um universo de quase 8,5 milhões de pessoas que votaram.

Além disso, quase no fim da votação, a cidade teve uma queda de energia. O candidato do AKP liderava até então, mas, depois do blackout, a oposição o ultrapassou. Os dois candidatos chegaram a declarar vitórias, mas a Suprema Corte Eleitoral, após pedidos de recontagem, confirmou a vitória da oposição. O presidente Erdogan usa esse episódio para dizer que houve fraude nas eleições até que a Justiça, por fim, concordou em refazer o pleito.

Vencer em Istambul é crucial para o poderio de Erdogan, que vem sendo alvo de protestos na cidade, uma das mais cosmopolitas do país. Embora não seja a capital (que é Ancara), Istambul tem 18% da população turca e um terço do Produto Interno Bruto do país. O próprio Erdogan venceu a prefeitura de Istambul em 1994, e a cidade está sob o controle de seu partido desde então.

Assim, Istambul tornou-se o maior palco no embate entre o partido opositor CHP, que vem liderando a oposição turca, e o governista AKP de Erdogan. O CHP, um dos partidos mais antigos da Turquia, sempre foi anti-islâmico e com tendências militares (a Turquia já teve dezenas de golpes), mas vem se tornando mais social-democrata para se mostrar como alternativa ao governo.

Erdogan está no poder desde 2003, primeiro como primeiro-ministro e, depois de 2014, como presidente. Uma criticada reforma em 2017 fez com que o chefe de Estado acumulasse os cargos de primeiro-ministro e presidente. Erdogan foi reeleito para o atual mandato em junho de 2018, já sob as novas regras e com poderes ampliados.

Uma delegação do Conselho Europeu viajou à Turquia para acompanhar as eleições deste domingo, quando população de Istambul decidirá os caminhos da cidade — e, talvez, do país.