Centro-esquerda planeja ter governo já em dezembro na Alemanha

Primeiras conversas oficiais para uma coalizão aconteceram nesta quinta-feira, lideradas pelos social-democratas. Governo formado substituirá o da chanceler Angela Merkel, que governa desde 2005
Olaf Scholz chega para primeiro dia de negociações oficias em Berlim: se acordo funcionar, ministro será o próximo chanceler alemão (Omer Messinger/Getty Images)
Olaf Scholz chega para primeiro dia de negociações oficias em Berlim: se acordo funcionar, ministro será o próximo chanceler alemão (Omer Messinger/Getty Images)
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Carolina Riveira

Publicado em 21/10/2021 às 18:11.

Última atualização em 21/10/2021 às 18:19.

Um mês após as eleições na Alemanha, as negociações para formar uma coalizão liderada pela centro-esquerda começaram oficialmente nesta quinta-feira, 21.

O plano é ter um governo pronto para ser levado a votação no Parlamento no começo de dezembro, ao contrário do que ocorreu nas eleições de 2017, quando as negociações levaram seis meses.

O grupo que tenta chegar a um acordo é liderado pelo Partido Social Democrata (SPD), de centro-esquerda, e vencedor das eleições de setembro.

O SPD negocia com os Verdes, também de esquerda e ambientalistas e terceiro partido mais votado, e os liberais econômicos do FDP, mais à direita e quarto mais votado. A coalizão é batizada de "Semáforo" pelas cores dos partidos.

Líderes se reuniram em Berlim ao longo desta quinta-feira, no que foi o primeiro dia de negociação oficial. Até então, somente ocorreram conversas e entrevistas informais para construir uma base de acordo mínima.

A partir de agora, os partidos anunciaram que formaram 22 grupos de trabalho de modo a elaborar um possível plano de governo e equacionar as diferenças.

O próximo chanceler, caso a coalizão seja bem-sucedida, deve ser o líder do SPD Olaf Scholz, o que faria a esquerda voltar ao poder pela primeira vez desde 2005.

A expectativa é ter um acordo pronto para apresentar à população alemã já no fim de novembro, e assim, o nome de Scholz seria votado no Parlamento em 6 de dezembro. 

(O chanceler, no limite, pode ser o líder de qualquer um dos partidos da coalizão, embora seja comum que o mais votado fique com a chancelaria.)

O governo formado substituirá a atual líder Angela Merkel, da aliança conservadora-cristã CDU/CSU e que foi chanceler por quatro mandatos seguidos. Merkel não concorreu a nova reeleição.

Na possível coalizão discutida, SPD e Verdes estão mais alinhados ideologicamente, enquanto o liberal FDP puxa o pêndulo político para a direita.

Um dos principais embates será na definição da pauta econômica e da transição energética.

A imprensa alemã reportou que o FDP tenta conseguir o importante Ministério das Finanças para seu líder, Christian Lindner, em troca de apoio ao governo de esquerda. O plano enfrenta ampla resistência entre alas mais progressistas dos partidos.

Se a coalizão SPD-Verdes-FDP der certo, a Alemanha pode ter uma ligeira "guinada à esquerda" após quase 16 anos do governo Merkel.

Os pontos que trazem discordância

Os partidos já concordaram de forma preliminar em pontos como o aumento do salário mínimo, uma proposta de campanha dos social-democratas (de 9,60 euros por hora para 12 euros, ou pouco mais de 1.900 euros por mês em uma jornada de 40 horas semanais).

Já os Verdes desejam acelerar o fim da produção de carvão e criar uma força tarefa direcionada para políticas de combate às mudanças climáticas.

A discussão ficou mais complexa em meio à crise energética que assola a Europa, o que pode frear os planos dos políticos de fazer uma transição estrutural.

Outras divergências devem surgir até que a coalizão se torne realidade.

Os liberais do FDP, por exemplo, são contra a redução do limite de velocidade nas rodovias alemãs, medida defendida pelos Verdes porque, segundo estudos, reduziria a emissão de poluentes.

Na última eleição, o FDP não quis participar de uma coalizão com os Verdes devido a essas mesmas discordâncias econômicas.

O líder do FDP, Christian Lindner, disse depois da eleição de setembro que preferiria uma coalizão com a CDU à direita, mas aceitou conversar com SPD e Verdes.

A ideia de ter o FDP no Ministério das Finanças (hoje ocupado pelo próprio Olaf Scholz no governo Merkel) também tem gerado preocupação também em lideranças de outros países europeus.

Sobretudo os mais endividados, ao sul, temem um amplo ajuste fiscal vindo da Alemanha, país mais rico da União Europeia.

Como funciona a eleição na Alemanha

No sistema parlamentarista alemão, não basta vencer a eleição para chegar ao cargo de chanceler.

Os eleitores votam nos partidos e o novo governo precisa obter uma coalizão capaz de garantir a maioria das cadeiras no Bundestag, o Parlamento do país.

É comum que o vencedor nas urnas consiga formar um governo: em todos os governos Merkel, por exemplo, a CDU venceu a eleição e conseguiu também liderar as coalizões que se seguiram.

Mas isso nem sempre é fácil. Merkel, em três de seus quatro mandatos, teve de se aliar aos rivais social-democratas do SPD para governar, o que trouxe alguns de seus governos mais ao centro do que a média de seu partido.

Nas eleições de 2017, as negociações foram tão complexas para Merkel que levaram seis meses.

No pleito deste ano, a aliança CDU/CSU, de Merkel, teve seu pior resultado na história.

Embora Merkel seja bem avaliada, o partido perdeu força devido a uma combinação de fatores como o desejo de mudança por parte da população e a má campanha de seu candidato, Armin Laschet

Apesar disso, no limite, ainda há chance de CDU/CSU tentarem uma coalizão caso as negociações da coalizão "semáforo" fracassem.

As coalizões possíveis após os resultados na Alemanha são:

  • SPD, Verdes e FDP ("Semáforo", com centro-esquerda, esquerda e liberais)
  • CDU/CSU, FDP e Verdes ("Jamaica", com centro-direita, liberais e esquerda)
  • CDU/CSU e SPD (como no atual governo Merkel, exigindo mais uma aliança entre os dois rivais).

Não há uma data oficial para a posse do novo governo. As negociações ainda podem levar meses e chegar a 2022.

Se um governo não for formado, em um caso extremo, outras eleições podem ser convocadas.

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