Biden dobra meta e promete 200 milhões de doses de vacina em 100 dias

Em sua primeira entrevista coletiva desde que assumiu a presidência, Biden dobrou a meta de vacinação e disse que os outros países não estão "chegando nem perto" do que é feito pelos EUA
Biden em pronunciamento nesta quinta-feira: "expectativa" de concorrer à reeleição em 2024 (Leah Millis/Reuters)
Biden em pronunciamento nesta quinta-feira: "expectativa" de concorrer à reeleição em 2024 (Leah Millis/Reuters)
Por Carolina RiveiraPublicado em 25/03/2021 15:01 | Última atualização em 25/03/2021 16:29Tempo de Leitura: 8 min de leitura

Faltando pouco mais de um mês para completar seus primeiros 100 dias de governo, o presidente americano, Joe Biden, falou pela primeira vez aos jornalistas. Biden concedeu nesta quinta-feira, 25, sua primeira entrevista coletiva desde que assumiu o cargo, em 20 de janeiro.

Em breve pronunciamento antes de responder a perguntas — apenas uma minoria de repórteres pode comparecer ao evento presencialmente devido a restrições da Casa Branca com a pandemia —, Biden exaltou a vacinação nos EUA e o pacote econômico de 1,9 trilhão de dólares aprovado no Congresso.

"Em 8 de dezembro eu disse que esperava conseguir ter 100 milhões de doses nos braços do povo americano em meus primeiros 100 dias. Nós atingimos esse objetivo na semana passada", disse, afirmando que a marca foi alcançada no dia 58 do mandato.

Com a vacinação americana acelerada, o presidente ampliou a meta: disse que, agora, o objetivo será chegar a 200 milhões de doses ao fim dos 100 dias de governo, prazo que acaba no fim de abril.

"Sei que é ambicioso, duas vezes nosso objetivo original, mas nenhum outro país no mundo chegou perto, nem mesmo perto, do que estamos fazendo", disse.

Os EUA aplicaram até agora mais de 130 milhões de doses da vacina da covid-19, chegando a 2,5 milhões de doses aplicadas diariamente. Ao todo, cerca de 26% da população de 330 milhões de habitantes recebeu a primeira dose, e 13%, a segunda.

O Brasil tem cerca de 6% da população vacinada com a primeira dose e pouco mais de 400.000 doses aplicadas diariamente.

Biden também celebrou o fato de quase metade das escolas de ensino básico ter reaberto em meio à queda de casos e mortes pela pandemia. A média móvel de novas mortes diárias nos EUA passou de quase 3.000 em janeiro para menos de 1.000 neste mês, uma queda na casa dos 70%.

Mortes por covid-19, por milhão de habitantes: EUA têm tido queda no número de vítimas (Our World In Data/Adaptado/Reprodução)

Reeleição

Em uma das declarações com maior repercussão da entrevista, Biden disse que pretende concorrer à reeleição e que espera ter sua atual vice, Kamala Harris, "na chapa".

"A resposta é sim, meu plano é concorrer à reeleição, esta é minha expectativa", disse, quando questionado diretamente sobre o tema pelos jornalistas presentes, que afirmaram que o ex-presidente Donald Trump, a esta altura no mandato, já tinha confirmado que tentaria a reeleição.

Quando pressionado novamente sobre o assunto, no entanto, Biden foi mais evasivo: disse que esta é sua "expectativa", mas que não pode planejar o que irá acontecer em quatro anos.

Aos 78 anos, Biden já é o presidente mais velho a tomar posse. O democrata chegaria à eleição de 2024 com 82 anos, e, até agora, era amplamente esperado que Kamala Harris o substituiria na próxima campanha.

Embate com os republicanos

O presidente americano também usou a entrevista para comemorar a aprovação do pacote econômico de 1,9 trilhão de dólares, que passou no Congresso mesmo sem apoio republicano.

Até agora, 100 milhões de pagamentos de 1.400 dólares foram pagos aos americanos, em parcela única, segundo o presidente. "É dinheiro de verdade, nos bolsos das pessoas, trazendo alívio", disse. "Estamos começando a ver novos sinais de esperança em nossa economia."

Biden citou projeções de economistas que apontam o crescimento do PIB americano em mais de 6% para este ano (após recessão no ano passado) e a queda no número de pessoas pedindo seguro desemprego, em dados divulgados na manhã desta quinta-feira.

O presidente, no entanto, usou o espaço para criticar a oposição republicana no Congresso. Disse que ninguém esperava que o pacote de auxílio pudesse passar mesmo sem apoio do partido de oposição e afirmou esperar que os republicanos negociem com o governo em prol do povo americano.

"Acreditamos que meus colegas republicanos terão de determinar se vamos ou não trabalhar juntos, ou se o jeito que eles querem prosseguir é dividindo o país. Eu não vou fazer isso", disse. "Fui contratado para resolver problemas, não criar divisão."

Biden repetiu diversas vezes que tem apoio "dos eleitores republicanos". O tom foi um pouco mais duro com o partido rival do que o presidente vinha usando até então. Em seu discurso de posse, uma das palavras mais citadas foi "união", incluindo com membros do partido rival. No discurso de hoje, Biden tentou acenar aos eleitores diversos, mas criticou mais abertamente os políticos de oposição.

"Eu gostaria de ter o apoio dos republicanos eleitos, mas o que eu sei que tenho agora é o apoio dos eleitores republicanos", disse.

Biden terá forte oposição no Congresso para passar mudanças que não sejam unanimidade. O pacote econômico, por exemplo, só foi aprovado porque os democratas conseguiram usar um dispositivo que permitiu que o texto fosse votado precisando somente de maioria simples, e não de dois terços dos parlamentares. Se o contrário acontecesse, o projeto não teria apoio suficiente.

Os democratas têm maioria na Câmara e maioria por somente um voto no Senado (onde há 50 senadores para cada lado e o voto de minerva da vice Kamala Harris).

Questionado sobre outras frentes do mandato, como combate às mudanças climáticas e imigração, Biden disse que a prioridade máxima é o combate à pandemia. "O problema fundamental é dar às pessoas alguma paz de espírito", disse, sobre medidas de apoio econômico e de contenção do coronavírus para que a economia possa ser retomada, mas disse que tentará fazer avanços "simultâneos em diversas áreas".

"Ainda temos muito trabalho a fazer. Mas eu posso dizer para o povo americano que a ajuda está aqui e a esperança está a caminho", disse.

Biden tem sido especialmente criticado pela temática da imigração nesta semana, em meio as prisões de imigrantes na fronteira e crianças sem os pais mantidas na fronteira pelo governo, medida que não foi alterada ante aos procedimentos do governo Donald Trump. Nesta semana, Biden indicou a vice Kamala Harris, que é filha de imigrantes, para liderar as medidas sobre o assunto em meio às críticas.

Questionado sobre os casos, o presidente se defendeu das críticas e disse que houve 20% de aumento de crianças desacompanhadas na fronteira em seu governo até agora, mesma taxa de aumento no governo Trump, dizendo, portanto, que não houve aumento da imigração devido a seu governo parecer mais favorável à imigração. Biden argumentou que "a vasta maioria dos imigrantes está sendo deportada".

Investimento para competir com a China

Biden também falou sobre a relação com a China. Neste mês, diplomatas de ambos os países se reuniram no Alasca no que foi o primeiro encontro entre as partes no governo Biden.

As tensões seguem tão altas quanto eram no governo Trump: os EUA e a União Europeia aplicaram novas sanções contra a China sobre as restrições de liberdade em Hong Kong, e os chineses criticaram até mesmo a injustiça racial nos EUA. Sobre o presidente chinês Xi Jinping, com quem conversou por telefone após ser eleito, Biden disse que ele não tem parte alguma de democracia em si, nem com "um d minúsculo", disse.

O presidente disse que a competição com a China será "dura", e que, para que os chineses não tenham predominância tecnológica, o governo americano fará "investimentos reais".

Biden prometeu ampliar os investimentos em ciência e tecnologia, para perto de 2% do PIB, e "reestabelecer alianças". Disse também que os EUA seguirão pressionando a China na frente de direitos humanos.

A China foi a única grande economia a não encolher no ano passado em meio à pandemia, e o PIB cresceu 2,3%, acima das expectativas. Projeções já apontam que a China pode ultrapassar os EUA como maior economia do mundo ainda nesta década.

 

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