Mundo

A greve dos caminhoneiros que durou 26 dias e derrubou um governo no Chile

Paralisação de 26 dias levou a desabastecimento, inflação acima de 200% e antecedeu o golpe militar de 1973

Chile: greve dos caminhoneiros durou quase um mês no país na década de 70 (Stefano Barzellotti/Getty Images)

Chile: greve dos caminhoneiros durou quase um mês no país na década de 70 (Stefano Barzellotti/Getty Images)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 18 de março de 2026 às 08h01.

A disparada do diesel voltou a tensionar o setor de transporte no Brasil e elevou o risco de uma nova paralisação nacional.

Na semana passada, o governo zerou tributos e prometeu uma redução de até R$ 0,64 por litro, mas, no dia seguinte, a Petrobras anunciou um aumento de R$ 0,38 por litro, acompanhando a alta do petróleo no mercado internacional.

O efeito prático foi limitado, segundo caminhoneiros, mantendo o custo operacional elevado e ampliando a insatisfação da categoria.

Como o transporte rodoviário concentra a maior parte da distribuição no país, qualquer interrupção rapidamente afeta abastecimento, preços e atividade econômica.

Em 2018, a greve dos caminhoneiros reduziu o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
Em outros países, paralisações do tipo tiveram efeitos ainda mais intensos.

O caso mais extremo ocorreu no Chile, em 1972, quando uma paralisação de caminhoneiros evoluiu de crise setorial para um fator central de desestabilização política.

O que aconteceu no Chile?

Conhecida como “Paro de Octubre”, a paralisação começou em 9 de outubro de 1972 e durou cerca de 26 dias, tornando-se um dos episódios mais críticos da história econômica e política do Chile.

O movimento foi liderado por empresários do setor de transporte, caracterizando um locaute, e teve como estopim a proposta do governo de Salvador Allende de ampliar a presença estatal no setor, a partir da criação de uma empresa pública na região de Aysén.

A medida foi interpretada como um sinal de nacionalização mais ampla, gerando reação imediata.

Vai ter greve nacional dos caminhoneiros? O que se sabe até agora

O impacto foi direto em um país altamente dependente das rodovias para integração territorial e distribuição de bens.

Com os caminhões parados, o abastecimento de alimentos, combustíveis e insumos industriais foi rapidamente comprometido.

A paralisação interrompeu cadeias produtivas, reduziu a atividade econômica e ampliou a sensação de desorganização.

A crise logística agravou um cenário já pressionado, com inflação superior a 200% no período e distorções provocadas por controles de preços.

A escassez levou à formação de filas, crescimento do mercado paralelo e à perda de confiança na capacidade de gestão do governo.

O custo estimado da paralisação pelo governo foi de cerca de US$ 200 milhões, equivalente a aproximadamente US$ 1,6 bilhão em valores atuais.

Nos meses seguintes, a instabilidade não foi revertida.

A economia seguiu pressionada, e o ambiente político se deteriorou com a ampliação de protestos e paralisações em outros setores.

Em agosto de 1973, uma nova greve foi deflagrada, desta vez com participação de cerca de 40 mil caminhoneiros e mais de 200 mil empresários e pequenos comerciantes. O movimento aprofundou o colapso do abastecimento e ampliou a desorganização econômica.

Relatórios oficiais do período indicavam deterioração generalizada.

A agricultura enfrentava risco de paralisação, a indústria operava com restrições severas e o fornecimento de bens essenciais havia atingido níveis críticos após semanas de interrupção logística.

A escalada de crises econômicas e institucionais culminou em 11 de setembro de 1973, quando forças militares lideradas por Augusto Pinochet bombardearam o Palácio de La Moneda e depuseram o governo Allende.

Acompanhe tudo sobre:Greves

Mais de Mundo

Pivô de crise diplomática, Perez é aprovado pelo Senado dos EUA para embaixada no Brasil

Trump anuncia tarifa de 15% sobre insumo essencial para painéis solares

Entenda o acordo sobre o Estreito de Ormuz discutido por Irã, Omã e EUA

O que diz a lei de Milei que levou milhares às ruas na Argentina