Mercado Imobiliário

Uber e Wise abocanham 30 mil metros quadrados de escritórios em SP

Queda da vacância para 11,3% e grandes contratos de Uber e Wise mostram retomada e competição no setor da capital paulista

A JK liderou a absorção líquida, com 19.276 metros quadrados, impulsionada pela entrada da Uber. (Germano Lüders/Exame)

A JK liderou a absorção líquida, com 19.276 metros quadrados, impulsionada pela entrada da Uber. (Germano Lüders/Exame)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 15 de abril de 2026 às 05h00.

Última atualização em 15 de abril de 2026 às 07h28.

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O mercado de escritórios de alto padrão em São Paulo começou 2026 com um sinal claro de retomada — e com protagonistas bem definidos. As maiores transações do trimestre foram lideradas por empresas de tecnologia e finanças, com destaque para Uber e Wise, segundo o relatório MarketBeat da Cushman & Wakefield, divulgado com exclusividade pela EXAME.

A Uber alugou 15.982 metros quadrados no edifício JK Square, na região da JK, enquanto a Wise Corretora de Câmbio ocupou 14.184 metros quadrados no River South, na Marginal Pinheiros. Juntas, as duas operações ficaram muito acima da média do mercado e concentraram boa parte da absorção do período.

“São dois grandes destaques. O resto das locações ficou abaixo de 6 mil metros quadrados”, afirma Matheus Cardoso, presidente da Cushman para a América do Sul.

Procurada, a Wise confirmou a locação como uma consequência do crescimento acelerado na região. No ano fiscal encerrado em 31 de março de 2025, a base de clientes da Wise no Brasil cresceu 45%, com 3 milhões de cartões emitidos no país. "E em julho do ano passado expandimos nosso escritório de São Paulo para servir de full-stack hub para a América Latina. Desde lá, mais que dobramos nosso quadro de funcionários", disseram em nota.

Já a Uber diz que o novo espaço, exclusivo para o Tech Center, complementará o atual escritório da companhia, em Pinheiros, que seguirá como a sede da Uber no Brasil e que continuará a abrigar os times de operações e funções corporativas.

Esse movimento ajuda a explicar o desempenho do trimestre. A absorção líquida — indicador que mede o saldo entre áreas ocupadas e devolvidas — foi positiva em 62.555 metros quadrados, enquanto o volume total de locações somou 88.452 metros quadrados.

Ao mesmo tempo, a taxa de vacância recuou para 11,38%, se aproximando do que o mercado considera equilíbrio. A queda do indicador, no entanto, não é uniforme — e revela uma mudança estrutural no mercado.

“A vacância tem caído não pelo mercado inteiro de São Paulo. O que tem puxado a vacância média para baixo são os mercados premiums. Ativos obsoletos vão continuar sofrendo, infelizmente, porque o mercado está seletivo", diz Cardoso.

O protagonismo de Uber e Wise reforça essa leitura. Ambas escolheram edifícios novos, eficientes e bem localizados — um movimento conhecido como flight to quality, que tem direcionado a demanda desde o pós-pandemia.

Na prática, isso significa concentração em regiões específicas. A JK liderou a absorção líquida, com 19.276 metros quadrados, impulsionada pela entrada da Uber. Já a Marginal Pinheiros teve sua vacância reduzida para 27,22%, após a ocupação relevante da Wise.

O efeito Faria Lima

Por trás da dinâmica das regiões está um eixo já conhecido do mercado paulistano. “A Faria Lima é [essencial para o mercado imobiliário corporativo] e ainda vai continuar por muito tempo. Tudo que acontece é reflexo dela”, afirma Cardoso.

Segundo o executivo, o movimento de expansão segue uma lógica de transbordo.

“A Rebouças é um transbordo da Faria Lima, inevitavelmente. Você vê empresas que precisam de grandes áreas indo para a Chucri Zaidan e tentando encontrar equilíbrio no preço... sem perder a qualidade.”

Essa dinâmica ajuda a explicar as diferenças de preço e ocupação entre regiões. Enquanto a Faria Lima registra valores de R$ 290,19/m² e baixa disponibilidade, eixos como Chucri Zaidan e Marginal Pinheiros absorvem empresas em busca de escala e custo mais competitivo.

Apesar de um ajuste pontual no preço médio — que fechou o trimestre em R$ 138,35/m² — os ativos mais disputados seguem valorizados.

Pinheiros e Paulista também registraram alta, impulsionadas por novos empreendimentos e reposicionamento de ativos. Ao mesmo tempo, novas entregas — 17.745 metros quadrados no trimestre — trouxeram oscilações pontuais na vacância.

Para os próximos meses, o cenário deve ficar mais competitivo. Há 352.912 metros quadrados em construção, com entregas previstas em regiões como Chucri Zaidan, Pinheiros e Itaim.

Brasil como referência regional

O desempenho de São Paulo também reforça o papel do Brasil no contexto latino-americano. "Brasil é o nosso grande eixo, é o grande mercado de real estate na América do Sul, é o que puxa, o mais desafiador e o que mais tem campo para crescimento”, afirma o presidente da Cushman para a América do Sul.

Segundo ele, tendências como a migração para ativos de qualidade ainda estão em estágios anteriores em outros países da região. A diferença aparece especialmente quando comparada a mercados mais instáveis. “A Argentina ainda briga muito por vacância e preço... pela consequência macroeconômica que a gente já passou, que levou o Brasil para a qualidade”, diz.

O pano de fundo econômico contribui para o cenário. O PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025, enquanto a taxa Selic recuou para 14,75% ao ano em março de 2026.

Ainda assim, o mercado mudou de perfil. “Não vemos mais a euforia de antes. É um mercado de execução, mais disciplinado e criterioso”, afirma.

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