Mercado Imobiliário

Japão vive explosão de casas abandonadas — esta empresa quer ocupá-las de novo

Ject One, de Tóquio, criou o serviço conhecido como Akisapo em 2016 para facilitar a reforma e conversão desses imóveis em ativos para investimento

Tóquio: A Ject One foi fundada em 2009 e tem sua sede na capital japonesa (Keith Tsuji/Getty Images)

Tóquio: A Ject One foi fundada em 2009 e tem sua sede na capital japonesa (Keith Tsuji/Getty Images)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 08h00.

O Japão vive uma crise no mercado imobiliário, com quase 9 milhões de casas vazias no país. O número representa 14% do total de residências — ou uma a cada sete casas —, segundo o censo de 2023. É a maior taxa já registrada, resultado direto da combinação entre envelhecimento da população, baixa natalidade e êxodo rural.

O que para o Japão é crise, para algumas empresas pode ser oportunidade. Startups especializadas em renovação e revenda das akiya, como são chamadas as casas abandonadas no Japão, também cresceram nos últimos anos. É o caso da Ject One, que criou o serviço conhecido como Akisapo em 2016, para facilitar a reforma e conversão desses imóveis em pousadas ou espaços comerciais para empreendedores locais.

"Estamos expandindo nossas atividades comerciais para abordar a questão dos imóveis desocupados, que se tornou um problema nos últimos anos. Cada casa desocupada possui características e desafios diferentes. Percorremos a área circundante, realizamos entrevistas detalhadas, planejamos e propomos a melhor conversão para o terreno e o edifício", afirma a companhia japonesa.

Em carta de fim de ano, a empresa disse que a criação do serviço resultou em um aumento significativo no número de compras, não apenas na região metropolitana de Tóquio, mas também em áreas remotas por todo o Japão, isso mesmo apesar de um 2025 desafiador.

"O ano passado foi marcado pelo aumento da incerteza no mercado, com a transição para um mundo com taxas de juros e a persistência dos altos preços dos materiais de construção, exigindo respostas flexíveis às mudanças. Ao mesmo tempo, o Japão entra em uma sociedade superenvelhecida", diz a carta.

Uma sorveteria no bairro de Nishinari, em Osaka, por exemplo, reabriu as portas em um prédio que estava desocupado há sete anos. O imóvel, antigo e com problemas estruturais, foi revitalizado no outono passado com apoio da Ject One.

A empresa reformou o espaço sem custo para a proprietária, que havia herdado o prédio do pai e o mantinha fechado. O modelo da Ject One permite reformar e sublocar o imóvel, repassando parte do aluguel ao dono e assumindo os custos iniciais. De acordo com publicação do JapanNews, em 2022 o local abrigava uma sorveteria de fachada iluminada, popular nas redes sociais, aberta por um empresário da região atraído pelo aluguel acessível de 70 mil ienes mensais (o equivalente a R$ 2,3 mil).

Parte do desafio está justamente no modelo de herança e posse. No Japão, muitos imóveis permanecem em disputa por herdeiros, o que trava legalmente sua venda ou ocupação.

Algumas cidades têm reagido com legislações mais duras: propriedades vazias e em ruínas passaram a ser taxadas com alíquotas mais altas ou demolidas compulsoriamente. A cidade de Yokosuka, por exemplo, cobra taxas adicionais sobre imóveis que permaneçam desocupados por mais de cinco anos, e já demoliu mais de 500 deles desde 2015.

A legislação nacional também foi alterada para facilitar a regularização de propriedades com herança indefinida. Agora, é possível registrar imóveis abandonados em nome do governo após certo período de inatividade.

Crise das 'akiya' no Japão

Segundo informações da Cable News Channel, canal de notícias da Mediacorp, em Singapura, na cidade japonesa de Uda, quase uma em cada cinco casas está vazia — conhecidas como akiya, em japonês. À publicação, Yoshiji Misaki, líder comunitário da região, disse que a população da cidade foi reduzida à metade nos últimos 60 anos. Os dados mais recentes mostram que Uda tem cerca de mil casas abandonadas, 300 a mais do que há cinco anos.

O governo local tem analisado como essas casas abandonadas podem atrair novos moradores como parte de sua estratégia de revitalização. A cidade distribui até 2 milhões de ienes (o equivalente a US$ 14 mil) em subsídios para a renovação de akiyas.

Alguns especialistas, ainda de acordo com a mídia asiática, preveem que o número de casas abandonadas em todo o Japão mais do que dobre, chegando a 23 milhões — ou uma em cada três casas — até 2038.

Algumas cidades, como Uda, estão comprando imóveis abandonados e reformando essas propriedades para acomodar moradores em estadias de curta duração ou criando as chamadas akiya banks, plataformas públicas para cadastro e redistribuição desses imóveis. Por meio delas, interessados conseguem acessar casas com preços muito abaixo da média nacional.

As estratégias, porém, têm eficácia limitada: a maioria das akiyas precisa de reformas estruturais custosas e está localizada em regiões sem acesso fácil a serviços, emprego ou transporte.

O pano de fundo do problema é demográfico. Em 2024, 29% da população japonesa tinha mais de 65 anos, segundo dados oficiais. Com menos nascimentos e jovens migrando para grandes centros como Tóquio, a pirâmide populacional se inverte.

Sem demanda interna suficiente, casas perdem valor. Em regiões como Wakayama e Kochi, imóveis com valor de mercado abaixo de US$ 10 mil se tornaram comuns — e, mesmo assim, seguem sem compradores.

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