Complexo Rochaverá Corporate Towers, desenvolvido e associado ao histórico de projetos imobiliários da Arch Capital, fica na Avenida das Nações Unidas (Arch Capital/Divulgação)
Repórter de Mercados
Publicado em 23 de agosto de 2026 às 10h00.
Enchentes, vendavais e períodos prolongados de seca deixaram de ser apenas uma preocupação ambiental para o mercado imobiliário. Para gestores de imóveis, eventos climáticos extremos podem significar danos físicos, interrupções operacionais, perda de receita e aumento dos custos de seguro.
Foi para antecipar esse tipo de risco que a Arch Capital, gestora com quase duas décadas de atuação e mais de R$ 6 bilhões em ativos sob gestão, passou a usar inteligência artificial para monitorar o impacto do clima sobre seus empreendimentos.
A tecnologia combina modelos climáticos globais com inteligência artificial para gerar previsões específicas de cada imóvel com até 36 meses de antecedência. Segundo a companhia, a análise permitiu identificar riscos antes que eles afetassem a operação e contribuiu para evitar mais de R$ 1,6 milhão em perdas potenciais ao longo de 2025.
O monitoramento considera atualmente 14 ativos, incluindo dois edifícios corporativos da Arch em São Paulo — o Rochaverá e o Standard Building — e 12 empreendimentos logísticos da plataforma Golgi, distribuídos em sete estados brasileiros. Entre os ativos analisados estão imóveis em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal, Paraná, Rio Grande do Sul e Pernambuco.
A lógica da ferramenta não é apenas prever se uma determinada região terá chuva ou calor acima da média. O objetivo é entender como um evento climático pode afetar cada empreendimento específico, considerando localização, infraestrutura, operação e exposição ao risco.
“Além de ampliar a previsibilidade, a tecnologia nos permite direcionar investimentos em adaptação, otimizar planos de contingência e apoiar a tomada de decisão antes que eventos extremos comprometam a operação dos ativos”, afirma Rodrigo Calovini, diretor de Engenharia da Arch.
A inteligência climática da Arch combina modelos físicos de previsão meteorológica com algoritmos de machine learning e redes neurais. A solução integra dados de modelos internacionais, como o ECMWF, com informações históricas de estações meteorológicas próximas aos empreendimentos.
A partir desses dados, a empresa transforma as previsões em planos de ação para cada imóvel. As recomendações podem envolver desde medidas operacionais imediatas até investimentos estruturais de longo prazo.
Entre as ações estão alertas preventivos para eventos severos, fechamento antecipado de docas em caso de vendavais, reforços em coberturas, sistemas de proteção contra descargas atmosféricas e adequações em infraestrutura.
A ferramenta também passou a ser considerada em decisões de aquisição de terrenos e desenvolvimento de novos projetos. Segundo a empresa, nenhum investimento foi descartado até agora por conta das projeções climáticas, mas a análise passou a incorporar potenciais custos de adaptação antes da compra de um ativo.
“Quando identificamos um risco relevante, passamos a incorporar potenciais custos adicionais relacionados ao desenvolvimento ou à construção, permitindo uma análise mais completa do retorno esperado”, afirma Calovini.
Em Gravataí, no Rio Grande do Sul, a Arch Capital possui o Golgi Gravataí, um condomínio logístico que integra a Golgi, plataforma da gestora especializada em ativos logísticos. Por lá, a análise preditiva identificou risco elevado de vendavais e chuvas intensas.
O modelo considerou fatores como o impacto do El Niño, o histórico recente de eventos extremos no estado, a intensidade prevista das chuvas, a velocidade dos ventos e a proximidade do evento em relação ao empreendimento.
Com a antecipação, a equipe ativou planos de contingência antes que os impactos acontecessem. Entre as medidas adotadas estiveram a ampliação dos contratos de fornecimento de água e diesel, a inclusão de novos fornecedores e a definição prévia de acordos de atendimento.
“Entre as decisões que tomamos estão o aluguel de uma cisterna com sistema de cloração e a ampliação dos contratos de fornecimento de água e diesel, com novos fornecedores e SLAs de atendimento previamente definidos”, afirma Calovini.
Segundo ele, o principal ganho foi o tempo de reação. A empresa conseguiu agir antes que um eventual desabastecimento comprometesse a operação do empreendimento.
Além de reduzir riscos operacionais, a inteligência climática passou a influenciar a estratégia de proteção financeira dos ativos.
A Arch afirma que apresentou a ferramenta como parte do processo de renovação de sua apólice de seguros patrimoniais. Segundo a companhia, a combinação entre monitoramento climático, protocolos de contingência e medidas de adaptação contribuiu para uma redução superior a 16% na taxa da apólice.
A empresa ressalta, porém, que a redução não pode ser atribuída exclusivamente à inteligência artificial, já que seguradoras consideram diversos fatores na precificação.
Atualmente, a plataforma monitora cerca de R$ 1,59 bilhão em valor em risco e mais de 744 mil metros quadrados de área construída. Entre 2020 e 2025, foram identificados 868 eventos climáticos nos ativos acompanhados.
Para Calovini, a tecnologia ajuda a mudar a forma como o mercado imobiliário enxerga o risco climático. “Investir em prevenção não é apenas proteger o ativo, mas preservar a continuidade das operações dos nossos inquilinos e a resiliência da cadeia logística como um todo”, afirma.