Cyrela Corporate Pininfarina Pinheiros: localizado na Avenida Doutor Arnaldo, próximo à Rua Oscar Freire, em São Paulo. (Reprodução/Divulgação)
Repórter de Mercados
Publicado em 20 de março de 2026 às 05h00.
Última atualização em 20 de março de 2026 às 08h08.
A Cyrela não pretende avançar no mercado de escritórios, mesmo após o sucesso na locação de seu novo edifício em Pinheiros, onde o Nubank ocupa 17 das 23 lajes. A leitura da companhia é que o corporativo deve seguir como uma aposta pontual, restrita a projetos de uso misto e sem intenção de manter ativos no balanço no longo prazo.
"Nós encontramos demanda muito rápido. Tinham outros três interessados, eles também alugariam todas as lajes em conjunto. Em três ou quatro meses tivemos muita oferta e conseguimos alugar muito rápido. Isso não necessariamente nos motiva a lançar um outro prédio corporativo", afirma Miguel Maia Mickelberg, CFO da Cyrela.
E o executivo diz não imaginar carregar esse ativo por muito tempo, porque ele deixa o balanço mais pesado. A ideia é outra: desenvolver, capturar valor e, eventualmente, vender o ativo.
Apesar da intenção de venda, a companhia não tem pressa no momento atual. Segundo Mickelberg, as taxas de juros elevadas impactam o valor de venda do ativo, portanto, a desmobilização deve ocorrer de forma planejada no tempo.
Segundo Mickelberg, a Avenida Rebouças é uma região onde o uso misto faz sentido, pela vocação comercial. Já em bairros residenciais, como Vila Mariana, a incorporadora evitaria esse tipo de produto.
A decisão reflete uma lógica financeira, já que o retorno com aluguel tende a ser inferior ao ROE da operação principal da incorporadora, focada no residencial. Em 2025, esse retorno sobre o patrimônio atingiu 22,3%, um patamar que dificilmente é replicado por ativos de renda. Na prática, manter o prédio significaria alocar capital em um investimento de menor rentabilidade.
Além disso, carregar um ativo dessa magnitude torna o balanço menos eficiente para o modelo da companhia. Diferentemente de fundos imobiliários, a Cyrela opera em um ciclo de incorporação — compra o terreno, desenvolve, vende e recicla capital. Ao se desfazer do ativo, a empresa libera recursos para novos projetos e mantém o ritmo de lançamentos, que atingiram R$ 13 bilhões em 2025.
O projeto corporativo, portanto, não representa uma mudança estratégica, mas uma decisão pontual ligada à vocação do terreno. A intenção é capturar valor e, no momento adequado, realizar a venda — reforçando o foco em operações com maior retorno ao acionista.
O posicionamento vem em um momento de bons resultados. A Cyrela encerrou 2025 com lucro líquido de R$ 2 bilhões, alta de 22% em relação ao ano anterior, um novo recorde para a companhia. Os lançamentos somaram R$ 13 bilhões, avanço de 35% e também o maior nível da história. A receita líquida cresceu 18%, para R$ 9,4 bilhões, enquanto o ROE atingiu 22,3%.
Apesar dos recordes, as vendas ficaram praticamente estáveis, com leve queda de 1%, indicando uma desaceleração na velocidade do mercado. Segundo o CFO, o nível de vendas segue saudável, mas já abaixo do patamar “fora da curva” observado em 2024.
Esse movimento aparece também no estoque, que cresceu cerca de 50% no período, impulsionado pelo volume maior de lançamentos e por uma absorção mais lenta.
Outro destaque do ano foi a distribuição de dividendos. A companhia pagou R$ 1,4 bilhão aos acionistas, um valor recorde. O pagamento impactou diretamente a alavancagem, que dobrou no período e chegou a 21,5%.
A geração de caixa, por outro lado, caiu para R$ 65 milhões, ante R$ 259 milhões no ano anterior.
Para o próximo ano, a expectativa é de estabilidade. A Cyrela não projeta crescimento relevante no volume de lançamentos em 2026, embora avalie que o mercado ainda opera em níveis considerados saudáveis.
No radar, permanecem também incertezas regulatórias, como a suspensão de alvarás em São Paulo. Até o momento, porém, a companhia afirma não ter sido impactada.
No fim, a estratégia segue clara: manter o foco no residencial, usar o corporativo de forma tática — e evitar carregar ativos que comprometam retorno e estrutura de capital.