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Como a Copa do Mundo virou um negócio bilionário de atenção e streaming

Da era do rádio às plataformas digitais, torneio da Fifa reflete evolução do consumo de mídia e transformou audiência em ativo valioso para marcas e emissoras

Copa do Mundo do Catar, em 2022: a edição que levou o torneio a bilhões de pessoas em TV, streaming e plataformas digitais (Qatar 2022/Supreme Committee/Getty Images)

Copa do Mundo do Catar, em 2022: a edição que levou o torneio a bilhões de pessoas em TV, streaming e plataformas digitais (Qatar 2022/Supreme Committee/Getty Images)

Da Redação
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Redação Exame

Publicado em 25 de janeiro de 2026 às 07h59.

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*Por Eduardo Corch

Enfim chegou. Estamos em ano de Copa do Mundo, e poucas propriedades esportivas ajudam tanto a entender a evolução do consumo de mídia quanto o torneio da Fifa.

Ao longo de quase sete décadas, o torcedor brasileiro acompanhou as conquistas da Seleção por diferentes plataformas, refletindo transformações tecnológicas, comportamentais e, sobretudo, econômicas da indústria esportiva.

A era de ouro do rádio

Nas Copas de 1958 e 1962, nossos pais e avós acompanharam Pelé, Didi e Garrincha pelo rádio. Foi nesse período que se construiu uma relação íntima entre o torcedor e a narrativa esportiva, mediada por vozes icônicas como Fiori Gigliotti e Pedro Luiz.

O rádio não apenas informava, ele criava imagens, emoções e fidelidade, um ativo que, décadas depois, marcas e plataformas digitais ainda tentam replicar.

A revolução do satélite e a escala global

A Copa do México de 1970 marcou uma virada histórica. Pela primeira vez, o torneio foi transmitido via satélite, em cores, para diversos continentes, transformando o futebol em um produto verdadeiramente global. Não por acaso, a Adidas batizou a bola oficial de Telstar (Television Star), em homenagem à televisão.

No Brasil, assistimos aos jogos pela TV Globo e ouvimos as transmissões pelas rádios Globo, Nacional e Jovem Pan. A Copa deixava de ser apenas um evento esportivo para se consolidar como um fenômeno midiático internacional.

Em 1994, nos Estados Unidos, o tetracampeonato de Romário, Bebeto e Taffarel já refletia um ecossistema mais robusto de mídia. A Copa foi transmitida pela TV Globo, pelo SporTV na TV por assinatura e por uma ampla rede de rádios. A internet ainda era embrionária, mas o modelo de distribuição de conteúdo esportivo começava a se diversificar, um claro prenúncio do que viria a seguir.

A Copa de 2002 consolidou essa transição. Os brasileiros acompanharam Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho pela TV Globo, SporTV, Globo.com e emissoras de rádio. Mesmo com o fuso horário desfavorável, a final entre Brasil e Alemanha alcançou uma audiência global estimada em cerca de 500 milhões de pessoas, mostrando que o futebol já operava em escala planetária, independentemente de barreiras geográficas ou de horário.

O bilionário mercado da atenção

Desde então, o Brasil não voltou a conquistar um título mundial. Ainda assim, a audiência da Copa do Mundo só cresceu.

Segundo dados da Fifa, a Copa do Mundo do Catar, em 2022, engajou cerca de 5 bilhões de fãs em todas as mídias, incluindo TV linear, digital, redes sociais e plataformas próprias da entidade. A final entre Argentina e França foi assistida por aproximadamente 1,42 bilhão de pessoas ao redor do mundo.

Para 2026, a Fifa projeta que cerca de 6 bilhões de pessoas irão se envolver com o torneio, seja por streaming ou transmissões tradicionais, o que tornaria a competição o evento esportivo mais assistido da história.

Esse crescimento de audiência se traduz diretamente em receitas. Em 2002, a Fifa faturou cerca de US$ 991 milhões com direitos de transmissão. Em 2014, esse número saltou para aproximadamente US$ 2,48 bilhões. Já no ciclo mais recente, com a Copa de 2026, que terá mais jogos e maior duração, os valores de direitos de mídia alcançam cerca de US$ 3,9 bilhões.

A atenção do torcedor se tornou um dos ativos mais valiosos do esporte global.

A fragmentação e o novo comportamento do fã

Diante desse cenário, os hábitos de consumo do fã passaram por mudanças profundas. Para dialogar com um público mais jovem e ampliar a experiência do torcedor, a Fifa tem apostado em parcerias com plataformas digitais, como o TikTok, além de iniciativas com influenciadores globais, que terão acesso aos bastidores da competição para produzir conteúdo mais personalizado e alinhado às novas linguagens.

Seguindo um modelo já adotado pelas grandes ligas americanas, a Fifa também pulverizou os direitos de transmissão da Copa do Mundo. O objetivo é adaptar-se a um consumo cada vez mais fragmentado e multiplataforma. O torcedor agora pode escolher como, onde e quanto quer pagar para acompanhar o evento, seja na TV aberta, na TV por assinatura ou via streaming.

Além de seus canais oficiais, como fifa.com e Fifa+, a entidade firmou acordos com diversos parceiros de mídia locais. Na Alemanha, por exemplo, os torcedores poderão assistir aos jogos por meio de sete parceiros diferentes; na Espanha, seis; e em países como Japão, Argentina e Colômbia, cinco.

No Brasil, o cenário é igualmente plural: Globo, SporTV, ge.com, CazéTV, NSports/SBT e emissoras de rádio oficiais dividem a atenção do público.

O jogo fora de campo

Esse movimento impacta diretamente o consumo. Ano de Copa, tradicionalmente, aquece a venda de eletrônicos, especialmente smart TVs, além de celulares, tablets e laptops cada vez mais conectados e integrados.

Mesmo com um fuso horário favorável ao torcedor brasileiro, muitos jogos acontecerão durante o expediente de trabalho, reforçando o consumo móvel e multitarefa.

E, claro, assistir aos jogos deixou de ser uma experiência passiva. O torcedor comenta, interage, provoca e compartilha em tempo real por WhatsApp, X, Instagram, TikTok, YouTube, entre outras plataformas. O futebol passou a ser consumido simultaneamente como entretenimento, conversa social e ativo digital.

A Copa do Mundo segue sendo futebol, mas, cada vez mais, é também dados, plataformas, distribuição e atenção. Para marcas, empresas e executivos, entender esse ecossistema não é mais opcional. É estratégico.

Prepare suas mandingas, superstições, abasteça a geladeira e carregue seus dispositivos. A Copa vem aí, em todas as telas, em todos os canais. E o jogo fora de campo nunca foi tão relevante.

  • *Eduardo Corch é diretor geral da EMW Global na America Latina e professor do Insper
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