IA e demissões: o erro estratégico que empresas estão cometendo. (gorodenkoff/Getty Images)
Colunista
Publicado em 30 de março de 2026 às 15h00.
Última atualização em 30 de março de 2026 às 17h59.
Há algo de paradoxal na forma como muitas empresas têm se relacionado com a inteligência artificial. Elas anunciam demissões em nome da IA, antes de a IA ter entregado qualquer coisa. E ao fazer isso, eliminam justamente as pessoas que poderiam transformar essa promessa em realidade.
Uma pesquisa com 1.006 executivos globais, conduzida pelos professores Thomas Davenport (Babson College/MIT) e Lak Srinivasan (Return on AI Institute) e publicada pela Harvard Business Review em janeiro de 2026, revelou algo que muitos líderes ainda não nomearam com clareza: 60% das organizações já fizeram reduções de headcount em antecipação ao impacto da IA. Apenas 2% o fizeram com base em resultados concretos de implementação. O resto está apostando no futuro e pagando a conta agora.
CEOs de empresas como Ford, Amazon, Salesforce e JPMorgan já sinalizaram publicamente que funções administrativas desaparecerão em breve. O movimento é compreensível do ponto de vista de mercado: anunciar transformação via IA é mais elegante do que admitir corte de custos. Soa como visão, não como contenção.
Existe uma tensão real que poucos líderes colocam em palavras: você espera que as pessoas documentem, estruturem e automatizem os próprios processos, sabendo que o resultado disso pode ser a eliminação do cargo delas?
A fintech sueca Klarna reduziu sua força de trabalho em 40% entre 2022 e 2024, apostando em IA para substituir funções de atendimento. Em 2025, o CEO admitiu à Bloomberg que a priorização de custos gerou também "queda de qualidade" e a empresa voltou a contratar pessoas para lidar com os casos que a IA não conseguia resolver.
A IA executa tarefas específicas, não funções inteiras. E as funções que parecem mais substituíveis costumam ser exatamente aquelas onde o julgamento humano sobre o contexto, clientes e exceções fazem a maior diferença.
Demitir em antecipação à IA tem um custo que os modelos financeiros raramente capturam: o custo do conhecimento que vai embora antes de ser transferido.
Quando as pessoas percebem que o resultado da transformação pode ser a eliminação do próprio cargo, algo silencioso acontece. Elas continuam aparecendo nas reuniões, participam dos workshops, respondem às pesquisas internas, mas o conhecimento que realmente importa, as exceções, os atalhos, os pontos cegos do processo ficam guardados. Porque, naquele momento, é a única coisa que ainda pertence a elas. A empresa perde exatamente o que mais precisava transferir. E raramente percebe quando isso acontece.
Assim como um plano bem escrito demais pode esconder um desejo de controle onde deveria haver disposição para o risco, um discurso de transformação por IA pode esconder uma decisão de corte de custos que ninguém quer nomear diretamente.
A pergunta que cada líder deveria se fazer não é "quanto posso economizar com IA?" e sim: quem, dentro da minha organização, tem o conhecimento necessário para construir e evoluir junto com inteligência artificial?
As pessoas não são ingênuas. Elas sabem que a transformação está acontecendo nas empresas ao redor, no mercado, na própria vida. O líder precisa ser honesto sobre os impactos, expectativas e construir um ambiente para que o time caminhe junto deixando claro quais são os riscos e, o mais importante, quais são os ganhos para todos os lados.