Energia: tensão geopolítica eleva custos de petróleo e frete global. (AFP)
Colunista
Publicado em 23 de março de 2026 às 15h00.
Executivos brasileiros já se acostumaram a navegar em mares turbulentos: câmbio volátil, juros altos, incertezas políticas. Mas o conflito no Oriente Médio adiciona uma nova camada de complexidade — e talvez a mais sensível para os próximos meses: a reprecificação simultânea de energia e logística global. Não é preciso um bloqueio total do Estreito de Hormuz para sentir os efeitos. O simples aumento do risco geopolítico já pressiona petróleo, combustíveis e seguros marítimos, com impacto direto sobre custos industriais, fretes e capital de giro no Brasil. O impacto pode parecer distante, mas tende a chegar rapidamente às cadeias produtivas brasileiras, pressionando custos industriais, fretes e capital de giro ao longo dos próximos meses.
A questão, portanto, não é se haverá impacto, mas como e com que velocidade ele chegará às empresas no Brasil.
O primeiro canal de transmissão é a cadeia do petróleo e dos derivados petroquímicos. A reprecificação de gasolina, diesel e bunker oil já influencia diretamente o custo do transporte. Mas o efeito não para aí. Uma parcela relevante da indústria brasileira depende de insumos derivados da nafta, base para produtos como PET, PVC e diversas resinas plásticas. Mesmo com produção doméstica relevante, os preços locais costumam seguir referências internacionais, seja por contratos indexados, seja por paridade de importação.
Isso significa que uma alta sustentada do petróleo tende a pressionar toda a cadeia petroquímica. O repasse, porém, não é automático. Ele depende de variáveis como o comportamento do câmbio, o nível de estoques da indústria, a demanda doméstica, a competição com produtos importados e as estruturas contratuais existentes. Para setores intensivos em embalagens plásticas, como alimentos, bebidas, higiene e limpeza, esse movimento pode aparecer nas próximas rodadas de negociação de insumos.
Outro vetor importante está na logística global. Mesmo quando não há interrupção física das rotas comerciais, o aumento do risco já produz efeitos financeiros. Prêmios de seguro marítimo sobem, armadores anunciam sobretaxas emergenciais e algumas rotas podem ser ajustadas, aumentando o tempo de trânsito das cargas. O resultado é um ciclo logístico mais longo e maior necessidade de capital de giro para as empresas.
No caso do Brasil, isso tem implicações diretas para exportadores de commodities como minério de ferro, soja, milho, açúcar e celulose. O custo do combustível utilizado por navios (bunker) pode subir, elevando também o preço do frete e aumentando a volatilidade no mercado de transporte marítimo. Vale lembrar que o frete de granel sólido também responde à demanda chinesa e à disponibilidade global de embarcações. Ou seja, o efeito da geopolítica não é linear, mas adiciona uma camada extra de incerteza.
Para exportadores de maior valor agregado, como congelados, frutas frescas ou sucos, o risco logístico é ainda mais sensível. Esses produtos dependem de previsibilidade de rotas e prazos de entrega. Qualquer atraso ou aumento relevante de custos pode comprometer margens que já operam sob forte pressão competitiva.
O transporte aéreo também entra nessa equação. O querosene de aviação teve uma elevação significativa recente, aproximando-se de US$ 1.400 por tonelada, bem acima de níveis observados em períodos anteriores. Esse movimento tende a gerar sobretaxas de combustível no frete aéreo, impactando especialmente a importação de componentes eletrônicos, peças automotivas críticas, insumos farmacêuticos e equipamentos industriais de alto valor. Em cadeias que operam com estoques enxutos ou modelos just-in-time, o risco não é apenas de custo, mas também de disponibilidade e regularidade operacional.
No agronegócio, a dinâmica é ainda mais complexa porque energia, logística e commodities globais se cruzam. O açúcar ilustra bem esse paradoxo. Preços mais altos do petróleo elevam custos de produção, como diesel e fertilizantes, mas também aumentam a competitividade do etanol frente à gasolina, o que pode reduzir a oferta de açúcar e pressionar preços internacionais. Para usinas integradas, isso cria um efeito de portfólio. Para indústrias alimentícias que utilizam açúcar como insumo, significa maior volatilidade.
Exportações de frutas frescas e sucos enfrentam um desafio semelhante. A competitividade depende de logística eficiente e custo controlado de contêineres refrigerados. Fretes mais caros ou rotas mais longas podem reduzir a vantagem competitiva brasileira em mercados europeus e asiáticos.
Há ainda um aspecto pouco discutido nesse debate: o Brasil também é um grande exportador de petróleo. Nos últimos anos, o óleo cru se tornou um dos principais itens da pauta exportadora do país. Isso cria um efeito ambíguo. De um lado, empresas de exploração e produção e receitas públicas podem se beneficiar de preços mais altos. De outro, cadeias industriais consumidoras de energia enfrentam pressão de custos. Em conglomerados diversificados, os efeitos podem até se compensar parcialmente dentro do próprio portfólio.
Para executivos, o ponto central não é reagir ao noticiário, mas entender como essa volatilidade pode se materializar dentro da própria cadeia de valor. Isso começa por mapear a exposição real da empresa ao petróleo e ao frete, identificando insumos críticos, contratos logísticos e sensibilidade de custos a variações no preço da energia.
Também vale revisar cláusulas contratuais relacionadas a sobretaxas logísticas, avaliar a política de estoques para itens estratégicos e preparar estratégias comerciais que definam gatilhos claros para eventuais repasses de preços. Em um ambiente incerto, empresas que trabalham com cenários –desde uma normalização rápida até uma disrupção mais prolongada – tendem a responder com mais agilidade.
O momento atual não exige pânico, mas exige disciplina analítica. O principal risco não está apenas no nível do petróleo ou do frete, mas na combinação de volatilidade entre energia, logística e câmbio.
E é por isso que energia e frete voltam ao centro da mesa de decisão. Não mais como simples linhas de custo operacional, mas como variáveis estratégicas capazes de influenciar competitividade, margens e decisões de investimento. Para muitos CEOs brasileiros, essa talvez seja a principal mudança no cenário global que começa a se desenhar.