Negócios

O que três gigantes do varejo global ensinam, na prática, sobre escala, marca e execução

Visitas técnicas a gigantes globais revelam como marca, operação e experiência se integram para sustentar crescimento consistente — e por que esse alinhamento ainda é um desafio no Brasil

Grupo de franqueados brasileiros visita operações em Las Vegas, EUA (Divulgação)

Grupo de franqueados brasileiros visita operações em Las Vegas, EUA (Divulgação)

Denis Santini
Denis Santini

Colunista

Publicado em 30 de março de 2026 às 17h32.

Última atualização em 2 de abril de 2026 às 12h29.

Priorizar nos meus resultados Google

Existe uma diferença enorme entre estudar um case e vivê-lo de perto, porque é nas visitas técnicas que a operação revela seus detalhes. E por isso estar em delegações em congressos e eventos internacionais proporciona esta imersão que pode fazer a diferença no dia a dia da sua operação.

Estamos vivenciando isso já nos primeiros dias em Las Vegas. Fomos olhar “por dentro” algumas operações globais de referência: Crocs, Papa John’s e Pandora, e percebemos que o diferencial competitivo dessas empresas está na forma como estruturam marca, operação e experiência para escalar de maneira coordenada. O que vimos foram modelos muito bem resolvidos.

Crocs: quando o produto vira plataforma

A Crocs talvez seja um dos exemplos mais interessantes de transformação recente no varejo. O que começou como um calçado funcional, quase técnico, se tornou uma marca global de lifestyle, com presença em mais de 80 países e receita acima de US$ 4 bilhões.

Mas tem um ponto que chama ainda mais atenção: como a marca conseguiu transformar um produto simples em uma plataforma de receita e engajamento.

A personalização, por exemplo, não é um detalhe. Os pins representam cerca de 20% do faturamento, e os acessórios somam mais 5%. Ou seja: uma parte relevante do negócio vem da capacidade de permitir que o cliente co-crie o produto.

Garanta sua vaga no pós-MultiUnit! Insights de Las Vegas aplicados ao Brasil

Além disso, a Crocs integrou social media diretamente ao desenvolvimento de produto. Tendências que nascem em plataformas digitais influenciam design, collabs e lançamentos em ciclos muito mais curtos.

O resultado é um modelo em que produto, cultura e comunidade operam juntos.

A loja física, nesse contexto, deixa de ser apenas um ponto de venda e passa a ser um espaço de experiência — onde a marca ganha vida e onde o cliente participa ativamente da construção de valor.

Papa John’s: escala com disciplina operacional

A Papa John's é um exemplo claro de como escalar com consistência operacional. A rede encerrou 2025 com mais de 6 mil restaurantes em cerca de 50 países e um volume de vendas global de US$ 4,92 bilhões — sendo mais de 90% das unidades operadas por franqueados.

Mas o que mais me marcou na visita foi uma escolha estratégica clara: a empresa decidiu não competir por preço. “Nunca seremos a pizza mais barata do mercado”, nos disse um dos executivos durante a visita. Isso tem implicações importantes no negócio.

Quando você escolhe competir por qualidade, precisa estruturar toda a operação para sustentar essa promessa. E foi exatamente isso que vimos.

A Papa John’s opera com uma cadeia de suprimentos altamente controlada, incluindo produção centralizada de massa, logística refrigerada e processos padronizados globalmente.

O treinamento também é um ponto-chave: são 90 dias de imersão, além de um aprendizado contínuo integrado à rotina da loja por meio de uma plataforma digital global, traduzida em 15 idiomas.

Outro ponto importante é a lógica de expansão. A entrada em novos mercados não acontece de forma pulverizada, mas com densidade. Ou seja: o parceiro já entra com a capacidade de abrir múltiplas unidades rapidamente, garantindo viabilidade econômica desde o início.

Aqui, a lição é que escala vem da padronização da complexidade.

Pandora: recorrência construída sobre significado

Com presença em mais de 100 países e receita de cerca de € 4,4 bilhões em 2025, a Pandora construiu um modelo que combina acessibilidade, branding e recorrência. O ponto central está na arquitetura do produto.

O bracelete, lançado no ano 2000, funciona como uma plataforma. A primeira compra não encerra a jornada — ela inicia um ciclo contínuo de novas aquisições, impulsionado por charms (pingentes), coleções sazonais e colaborações.

Além dessa mecânica comercial, existe um significado emocional por trás de cada compra. Cada peça carrega uma história, um momento, uma memória, e isso muda completamente a lógica de consumo: de acessório para expressão pessoal.

A loja física reforça esse posicionamento, funcionando como um espaço de experiência e narrativa, onde a personalização não é apenas um recurso de venda, mas parte central da proposta de valor.

Além disso, a integração vertical — do design à produção — garante controle de qualidade, consistência e margem, algo fundamental em um modelo que combina escala com preço acessível.

O que fica de lição para o Brasil

Essas três visitas que fizemos mostram que existem diferentes caminhos para crescer — desde que haja coerência entre estratégia e execução. A Crocs ensina sobre construção de marca e engajamento; a Papa John’s mostra o poder da disciplina operacional; e a Pandora revela como criar recorrência a partir de significado.

Outro aprendizado é que escala é consequência de estrutura, e essa estrutura passa por decisões muito claras de posicionamento, modelo operacional, experiência do cliente e, principalmente, consistência na execução.

É isso o que apoia a construção de negócios que conseguem sustentar crescimento no longo prazo. No fim, é sobre ter consciência de como saber crescer bem, de forma sustentável.

* Denis Santini é CEO da CommUnit e da MD | Make a Difference

Acompanhe tudo sobre:Franquias

Mais de Negócios

Menos inércia, mais caixa: o poder do Orçamento Base Zero em tempos incertos

Beto Carrero investe R$ 50 mi na primeira área física da Galinha Pintadinha

Senior ATS by JobConvo leva o recrutamento para o WhatsApp e reduz tempo de contratação pela metade

Além dos ônibus: a estratégia da Marcopolo para impulsionar a mobilidade do futuro