Surf e negócios: executivo no mar simboliza risco, planejamento e liderança.
Colunista
Publicado em 8 de julho de 2026 às 16h00.
Quando eu era garoto, chamar alguém de surfista não era exatamente um elogio. Muitas vezes, era sinônimo de vagabundo. Naquela época, eu nem imaginava o impacto que o surf teria na minha vida.
Nas férias na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, nos anos 80, o mais próximo do esporte era as ondas de Cabo Frio com a minha prancha de morey boogie Elton 2001 azul e branca.
Naquele período, o Brasil ainda era economicamente fechado e o conteúdo de surf se limitava às páginas da Revista Fluir e à Sessão da Tarde na TV, assistindo a filmes como Surf no Havaí.
Nos anos seguintes, uma explosão de marcas de surfwear tomou conta dos shoppings e deu início ao patrocínio de etapas dos circuitos nacionais e internacionais de surf no Brasil.
Com estrangeiros competindo por aqui, o nível técnico do surf brasileiro subiu muito. As marcas passaram a investir mais e o Brasil entrou de vez no mapa do surf profissional mundial.
No início dos anos 2000, com apenas 22 anos, fundei minha primeira empresa, que deu origem à V3A. Completamente abduzido pelo empreendedorismo profissional e familiar, as décadas seguintes foram marcadas pela ausência de atividade física e esportiva na minha vida pessoal.
A reconexão com o surf aconteceu de forma inesperada.
Em 2012, um ex-surfista profissional entrou em contato com a agência 213 Sports em busca de apoio comercial para um projeto ligado ao surf. A conversa acabou abrindo caminhos para conectar marcas e surf de forma mais estruturada.
Pouco tempo depois, o surf brasileiro viveu um divisor de águas.
Em 2014, Gabriel Medina conquistou o primeiro título mundial da história do Brasil no circuito mundial.
Esse momento mudou completamente a percepção do surf brasileiro e deu origem ao fenômeno conhecido como Brazilian Storm, com uma geração de talentos como Gabriel Medina, Ítalo Ferreira e Filipe Toledo. O Brasil deixou de ser apenas um país de fãs para se tornar protagonista.
Em 2016, enquanto a V3A realizava os Live Sites dos Jogos Olímpicos no Brasil, o surf foi anunciado como esporte olímpico pelo Comitê Olímpico Internacional. A decisão fez parte de um pacote de novos esportes pensado para aproximar os Jogos da cultura jovem e dos esportes de ação.
Às vésperas das Olimpíadas de 2020, eu já estava casado, pai de três meninas e CEO da V3A. Na busca por uma atividade física, decidi me matricular na escolinha de surf do Arpoador.
Foi lá que fui picado pelo mosquito do surf e dei início a uma transformação na minha vida. Voltei a ser faixa branca, aprendi novos hábitos, enfrentei novos desafios e recebi em troca um novo olhar.
Sair da cama ainda no escuro. Sentir medo fora d’água. Desafiar a arrebentação, finalmente sentar na prancha e agradecer a D'us.
Foi surfando no Arpoador que conheci a plataforma Surfmappers e comprei minhas primeiras fotos. Anos depois virei sócio da empresa, participei da jornada e vendi. Juntos, a posicionamos como o maior marketplace de fotografia de surf do mundo, atuando em mais de 25 países e gerando milhares de empregos.
Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia mundial de COVID-19. 2020 será um capítulo à parte e seguramente tema de um próximo artigo.
O isolamento social me impactou nas primeiras semanas. Foi nesse momento que um amigo ofereceu sua casa de praia em Búzios para que eu passasse uma semana com a minha família. A semana durou 40 dias e rendeu meu primeiro contrato de 30 meses na Região dos Lagos.
O mercado de Live Marketing, em que atuo, foi um dos primeiros a entrar e um dos últimos a sair da crise econômica. Com a V3A não foi diferente. Administramos uma gestão extremamente complexa no mesmo período em que eu também dividia meu tempo como voluntário e vice-presidente da Associação de Marketing Promocional.
A vida em Búzios foi determinante para a conexão familiar com o surf. Minhas filhas estudavam em casa e interromperam todas as atividades esportivas complementares. Foi então que comprei suas primeiras pranchas e começamos as aulas na praia de Geribá.
No final, estavam todos na água: crianças, esposa e até o cachorro.
No Dia dos Pais daquele ano ganhei um presente incrível: um Bugre velho que, quando não estava na oficina ou parado em algum acostamento, me levava para surfar pela manhã e para pescarias noturnas.
Foi com essa simplicidade que encontrei meu verdadeiro estilo de vida e me tornei um “surfista de alma”.
Em julho de 2021, a V3A adquiriu a 213 Sports e eu passei a me conectar com esse universo também pelo lado empresarial. No mesmo mês, o surf estreou nos Jogos Olímpicos, na praia de Tsurigasaki. O Brasil conquistou sua primeira medalha de ouro com Ítalo Ferreira, gerando rapidamente uma explosão de audiência.
Em outubro do mesmo ano me conectei com o big rider e campeão mundial de ondas gigantes Carlos Burle e entrei na sociedade da Burle Experience, uma plataforma de estilo de vida comprometida com saúde, bem-estar e sustentabilidade. Foi com ele que entendi o significado de Professional Vagabond.
Burle costuma dizer que coragem não é ausência de medo. É a capacidade de se preparar tanto que o medo vira respeito. O limite, muitas vezes, está na nossa cabeça, e superá-lo exige preparo, planejamento e consciência do risco.
O surf esteve comigo na alegria e na tristeza.
No dia 30 de outubro de 2024 vivi o dia mais triste da minha vida: perdi meu amado pai. Dois meses depois eu estava no Havaí, longe de casa e da minha família. Por meses assisti, todos os dias, ao pôr do sol de dentro do mar. Foi lá que me recarreguei.
Nos mares do Havaí aprendi outra lição: ninguém enfrenta uma onda grande sozinho. Nos momentos críticos, vence quem está mais preparado.
O vídeo “That's the Story About Why Every CEO in the World Should Surf”, publicado originalmente no YouTube em maio de 2015, parte de uma provocação interessante: à primeira vista, surf e negócios parecem estar em lados opostos.
Mas ambos falam sobre estender limites. Sobre se lançar no desconhecido em busca de uma experiência. Sobre entender que planejamento é o que transforma um sonho grande em um risco calculado. E quem quer surfar ondas grandes precisa primeiro aprender a cair.
Tente parar uma onda. É impossível.
De repente, encontramos empresários falando a mesma linguagem que os surfistas sempre falaram.
Talvez o surf seja, no fundo, apenas uma metáfora elegante para o que acontece todos os dias no mundo dos negócios.
Bem-vindo a um mundo líquido.