Ajinomoto e chips: o domínio do ABF mostra como controlar um insumo crítico pode transformar uma cadeia global. (Pexels)
Colunista
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 17h00.
Última atualização em 17 de agosto de 2026 às 17h28.
Quando a NVIDIA anunciou seus resultados recordes em 2024 e o mundo tech entrou em êxtase, ninguém escreveu sobre o glutamato monossódico. Deveriam ter escrito.
A Ajinomoto, aquele sachê de tempero que sua avó talvez use no feijão, controla entre 95% e 98% da produção mundial de um material sem o qual nenhuma GPU de última geração pode ser fabricada. O ABF, um filme ultrafino de resina descoberto como subproduto acidental da fermentação do glutamato, isola e conecta as camadas internas dos chips avançados. Sem ele, a infraestrutura que roda o seu prompt no ChatGPT simplesmente não existe. Cada fabricante de substrato de chip no mundo compra da Ajinomoto. Não há fornecedor alternativo.
A ação da empresa subiu mais de 40% desde o início de 2025. O mercado acordou. O Brasil ainda não. O país detém 95% das reservas mundiais de quartzo. É o mesmo material que, quando processado até altíssima pureza, vira insumo crítico na fabricação de chips. As maiores jazidas ficam no Pará, em Minas Gerais e em Santa Catarina. Em um documento do Ministério de Minas e Energia, a lavra nacional é descrita como "rudimentar" e o aproveitamento como "extremamente pequeno". Exportamos lascas brutas a US$0,23 por quilo. Nos Estados Unidos, o quartzo processado para semicondutores chega a US$10.000 por tonelada.
Não é só o quartzo. O Brasil tem reservas relevantes de terras-raras, grafite, lítio e nióbio: todos insumos críticos para chips, baterias e sistemas de IA. Em todos os casos, o padrão se repete: extração rudimentar, exportação de matéria bruta, importação de produtos com alto valor agregado. O Professor Luiz Jardim Wanderley, da UFF, em entrevista à Agência Brasil, resumiu com precisão: "o Brasil mantém o mesmo padrão de dependência que teve ao longo de sua história. Foi assim com o ouro colonial, com o ferro, com o petróleo."
A lição da Ajinomoto não é tecnológica, mas sim estratégica. A empresa não descobriu que controlaria um mercado crítico, ela simplesmente foi boa o suficiente, por tempo suficiente, em uma camada que ninguém olhava. O resultado é o poder de precificação de Rockefeller em uma cadeia que o mundo inteiro depende e quase ninguém vê.
O Brasil tem os materiais, o que falta é a camada seguinte: o processamento, a purificação e a transformação de matéria bruta em insumo insubstituível. E essa é a posição que cria poder duradouro. Não a posse da reserva, mas o domínio do processo que converte a reserva em algo do qual o resto do mundo não pode prescindir.
A corrida pela IA está redesenhando o mapa econômico global. Por quanto tempo continuaremos vendendo a US$0,23 o quilo?