Juros: recomendação é de carteira diversificada. (Wipas_Rojjanakard/Getty Images)
Repórter de Invest
Publicado em 17 de setembro de 2026 às 05h00.
Com a taxa básica de juros da economia em 13,75% ao ano e o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) próximo desse patamar, as aplicações pós-fixadas continuam oferecendo altos retornos, pois o CDI acompanha a trajetória da Selic. Já os títulos atrelados à inflação podem proporcionar um ganho adicional.
Mas, diante do cenário, é mais interessante investir na renda fixa por meio da Selic, do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial do Brasil, ou do CDI, que é uma das principais referências para os investimentos na renda fixa?
Para os especialistas consultados pela EXAME, não existe uma resposta única. A escolha depende principalmente do prazo do investimento, da facilidade para resgatar o dinheiro, da tributação e da disposição do investidor para lidar com a oscilação dos preços dos títulos.
O IPCA de agosto, por exemplo, registrou deflação de 0,32%, levando a inflação acumulada em 12 meses para 4,22%. A expectativa do último Boletim Focus era também de um juros de 13,75% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027, enquanto a projeção para o IPCA ficou em 4,90% nesse ano e 4,30% no próximo.
Para o investidor que pode precisar do dinheiro a qualquer momento, a recomendação dos especialistas é mais clara, com o Tesouro Selic e investimentos pós-fixados atrelados ao CDI fazendo sentido. O Tesouro Selic tem como principal vantagem a combinação de baixo risco e liquidez.
Os Certificados de Depósito Bancário (CDBs), as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) também podem oferecer taxas competitivas, mas a facilidade para resgatar o dinheiro depende das condições de cada investimento.
O professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), Pierre Souza, quem pode precisar do dinheiro antes do vencimento deve olhar com mais atenção para o Tesouro Selic, já que os títulos públicos indexados ao IPCA+ podem sofrer oscilações relevantes de preço antes do vencimento. "Não é necessariamente o que é melhor ou pior", garantiu.
"Com os juros ainda em patamares elevados, observamos oportunidades tanto nos investimentos pós-fixados quanto nos títulos indexados à inflação", acrescentou o analista de renda fixa da EQI Research, João Abdouni. "Neste cenário, nossa sugestão é de alocação de parte do portfólio nos dois títulos."
"Os investimentos atrelados ao CDI devem continuar apresentando taxas atrativas enquanto os juros permanecerem elevados, ao mesmo tempo que os títulos IPCA+ oferecem juros reais ao redor de 7,5%, historicamente um patamar interessante, mesmo após o fechamento recente das taxas de juros", detalhou Abdouni.
No longo prazo, o Tesouro IPCA+ ganha força porque combina a variação do IPCA com uma taxa de juros real definida no momento da compra. Assim, quem compra um papel que paga IPCA + 7,5%, por exemplo, está contratando um retorno que busca preservar o poder de compra e ainda entregar ganho, caso o investidor mantenha o investimento até o vencimento.
Souza, da FGV, avalia que taxas na faixa de IPCA 7% a 7,5% são bastante atrativas para horizontes longos. "Eles já geram um ganho real significativo por um período de tempo bastante grande. O perigo disso é para quem pode precisar do dinheiro antes disso (isto é, do vencimento do título)", detalhou.
Para o head de renda fixa da Suno Research, Guilherme Almeida, o atual ciclo de cortes também pode reduzir a janela para o investidor encontrar taxas reais tão elevadas no futuro, pois, se os juros continuarem caindo, os prêmios oferecidos pelos títulos públicos indexados à inflação podem diminuir.
Quem travar uma taxa real elevada hoje, portanto, pode carregar esse prêmio por muitos anos.
Mas há um contraponto de que a queda da Selic não é garantida nem necessariamente linear. Uma mudança no cenário externo, especialmente nos juros dos Estados Unidos, ou uma deterioração das expectativas domésticas poderia interromper o ciclo de cortes e fazer as taxas longas voltarem a subir.
Na hora de escolher entre investimentos de renda fixa, olhar apenas para a taxa oferecida pode levar a uma conclusão errada. Um CDB que paga 110% do CDI, por exemplo, pode parecer mais vantajoso do que um LCI que paga 95% do CDI. Mas o CDB paga imposto de renda, enquanto LCI e LCA são isentos para pessoas físicas.
A comparação entre investimentos precisa levar em conta, assim, quanto uma aplicação tributada teria de render para entregar o mesmo retorno líquido de uma aplicação isenta.
Além disso, no caso dos fundos de investimento, há ainda a taxa de administração. "Então, existem esses custos que a gente precisa considerar também que vão impactar na rentabilidade líquida lá no final", de acordo com Almeida.
O investidor também precisa considerar o risco de crédito. "O primeiro cuidado que a gente precisa ter, antes mesmo de avaliar a rentabilidade, de avaliar o vencimento, é avaliar o emissor", conforme o analista da Suno. Para Almeida, a situação hoje não está tão favorável para o mercado privado.
A ressalva se dá porque os CDBs, LCIs e LCAs dependem da instituição financeira que os emite. Esses investimentos podem contar com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), dentro das regras e dos limites vigentes. Isso, porém, não significa que o risco de crédito possa ser ignorado, a exemplo do Banco Master.
Abdouni também ressalta que, embora CDBs, LCIs e LCAs possam apresentar boas condições, é necessário analisar cada produto individualmente. Já o Tesouro Selic, por ser um título público federal, ocupa uma posição diferente na escala de risco.
Para a reserva de emergência e para o dinheiro que pode ser necessário a qualquer momento, os investimentos pós-fixados são os candidatos mais naturais na visão dos especialistas, especialmente o Tesouro Selic e produtos bancários com boa liquidez e risco compatível.
Para objetivos de médio e longo prazo, o Tesouro IPCA+ ganha importância, principalmente para quem consegue manter o investimento até o vencimento e quer garantir uma taxa real elevada.
Entre CDBs, LCIs e LCAs, a taxa anunciada também não deve ser o único critério. O investidor precisa comparar o retorno líquido, o prazo, a facilidade para resgatar o dinheiro e a qualidade da instituição que oferece o investimento. E não é preciso escolher apenas uma alternativa.