Câmbio em foco: dólar PTAX recua para R$ 5,02 em 8 de outubro (Gabriel Vergani / EyeEm/Getty Images)
Repórter de Invest
Publicado em 9 de outubro de 2026 às 05h00.
Poucos anos deste século foram tão favoráveis ao real quanto 2026. A moeda brasileira acumulava valorização de 9,79% frente ao dólar até 7 de outubro, desempenho que já coloca o ano entre os melhores da história recente do câmbio brasileiro, segundo levantamento da Elos Ayta.
No recorte a partir de 2010, apenas dois anos completos terminaram com alta superior. O real ganhou 19,81% em 2016 e 12,54% em 2025. O avanço observado neste ano aparece logo depois, embora ainda faltem quase três meses para o fechamento de 2026.
A comparação considera a PTAX, referência divulgada pelo Banco Central. Por esse critério, o dólar terminou 2025 em R$ 5,50 e estava em R$ 5,024 no fechamento desta quinta-feira, 8.
Quando o horizonte é ampliado para toda a série levantada pela Elos Ayta, iniciada em 1999, o resultado deste ano aparece como a sétima maior valorização do real.
"Os resultados de 1999 a 2025 abrangem anos completos, enquanto 2026 considera somente o período até 7 de outubro", ressalta o levantamento.O desempenho parcial de 2026 está sendo comparado com variações acumuladas durante doze meses nos anos anteriores, e não com o comportamento do câmbio até 7 de outubro de cada exercício.
O desempenho de 2026 dá continuidade a uma recuperação iniciada no ano passado, mas o ponto de partida ajuda a dimensionar esse movimento. Em 2024, o real sofreu uma desvalorização de 21,82% frente ao dólar. No ano seguinte, mudou de direção e avançou 12,54%.
Mesmo com dois períodos consecutivos de ganho, o câmbio ainda não retornou ao nível observado antes da forte queda de 2024. A PTAX encerrou 2023 em R$ 4,84, abaixo dos R$ 4,99 registrados em 7 de outubro.
E as altas de 2025 e de 2026, até agora, não foram suficientes para recompor integralmente a perda anterior. "A recuperação recente também exige perspectiva", destaca a Elos Ayta.
A boa fase atual não reflete o comportamento predominante do real desde a adoção do regime de câmbio flutuante. Ao incluir o resultado parcial de 2026, a série reúne 28 períodos. Em 16 deles, a moeda brasileira perdeu valor frente ao dólar. Nos outros 12, houve valorização.
Quando apenas os anos completos são considerados, entre 1999 e 2025, o placar fica em 16 exercícios de desvalorização e 11 de valorização.
Entretanto, essa contagem não permite concluir sozinha qual foi o tamanho da perda ou do ganho acumulado ao longo de todo o período. Alguns anos registraram movimentos muito mais intensos do que outros.
O estudo diz que "a frequência das perdas não determina sua intensidade nem substitui o cálculo da variação acumulada" e os extremos ajudam a mostrar essa diferença.
Em 2002, o real caiu 34,33%, a maior desvalorização anual da série. Já em 2009 ocorreu o movimento positivo mais forte, com alta de 34,22%.
A história do câmbio brasileiro também revela que uma direção pode prevalecer durante vários anos consecutivos. Entre 2003 e 2007, por exemplo, o real se valorizou em todos os anos. O ciclo começou com avanço de 22,29% em 2003 e continuou com ganhos de 8,85% em 2004, 13,40% em 2005, 9,48% em 2006 e 20,70% em 2007.
Já de 2011 a 2015, a moeda brasileira perdeu valor frente ao dólar durante cinco exercícios seguidos. Nesse período, as desvalorizações foram de 11,17% em 2011, 8,21% em 2012, 12,77% em 2013, 11,81% em 2014 e 31,98% em 2015.
O histórico mostra que movimentos cambiais não necessariamente se encerram dentro de um único ano. Para empresas expostas à moeda estrangeira, períodos prolongados podem alterar as condições usadas para definir preços, custos e investimentos.
Alguns dos movimentos mais intensos da série ocorreram em anos próximos, com mudanças bruscas de direção.
Depois da queda de 34,33% do real em 2002, por exemplo, a moeda avançou 22,29% em 2003.
Outro episódio ocorreu entre 2008 e 2009, quando o real perdeu 24,21% no primeiro ano e, no seguinte, registrou valorização de 34,22%, a maior de toda a série acompanhada pela Elos Ayta.
Esses movimentos permitem comparar diferentes momentos da trajetória cambial, inclusive períodos marcados por transições políticas e choques externos. O levantamento, porém, evita vincular o comportamento do real exclusivamente ao governo de cada época.
Empresas que compram mercadorias, equipamentos ou insumos no exterior podem encontrar custos menores em reais quando o dólar recua. O efeito muda para quem vende para outros países, já que uma mesma receita em dólares passa a representar um valor menor quando convertida para a moeda brasileira.
O movimento contrário também vale, pois um real mais fraco encarece importações e compromissos em moeda americana, enquanto pode aumentar a receita em reais de exportadores cujos custos estão principalmente no mercado doméstico.
Uma exportadora pode também importar componentes, o que modifica seu grau de exposição ao câmbio. Dívidas em dólar, instrumentos de proteção e o momento em que pagamentos ou recebimentos são realizados também fazem diferença.
"O levantamento mede a variação cambial e fornece contexto para discutir esses efeitos, não mensura diretamente impactos sobre lucros, inflação ou volumes de comércio exterior", acrescenta a Elos Ayta.
Os números do estudo têm como referência a PTAX divulgada pelo Banco Central. A taxa serve de parâmetro para o levantamento, mas não equivale ao fechamento do dólar comercial normalmente acompanhado pelo mercado.
As variações apresentadas também são nominais, o que significa que mostram quanto o real ganhou ou perdeu diante da moeda americana sem descontar os efeitos da inflação.
Há ainda uma diferença fundamental entre 2026 e os demais períodos da comparação. Ainda assim, o patamar alcançado até agora já coloca 2026 em uma posição pouco comum na série. Desde 2010, somente 2016 e 2025 terminaram com valorização maior do real frente ao dólar.