ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Do vale-refeição à Amazônia: como a dona da Ticket aposta na bioeconomia

Edenred investiu R$ 1,87 milhão no Museu de Ciência da Amazônia (MuCA), em Belterra (PA), polo que reúne pesquisa, incubação de negócios e formação em gastronomia: "O futuro é ancestral"

Casa 1 Edenred, em Belterra (PA), funciona como restaurante-escola e espaço de formação em gastronomia, com foco em ingredientes e saberes da Amazônia (Divulgação)

Casa 1 Edenred, em Belterra (PA), funciona como restaurante-escola e espaço de formação em gastronomia, com foco em ingredientes e saberes da Amazônia (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 8 de outubro de 2026 às 19h00.

Última atualização em 8 de outubro de 2026 às 19h12.

Priorizar nos meus resultados Google

Conectar as três frentes do negócio: alimentação, pessoas e desenvolvimento econômico.

É assim que Larissa Faresin, gerente de Sustentabilidade da Edenred Brasil, explica por que a dona da Ticket financia um museu de ciência no oeste do Pará, no município de Belterra, visando impulsionar a bioeconomia e promover o impacto social. 

A aposta parece improvável à primeira vista, visto que a Amazônia costuma atrair sobretudo empresas de bens de consumo, mineração ou agro. Mas a gerente destaca: "isso não reduz nossa responsabilidade socioambiental, só muda a forma como a gente vai atuar".

O Museu de Ciência da Amazônia fica em Belterra (PA), cidade de cerca de 18 mil habitantes, de difícil acesso por Santarém, e foi fundado há quatro anos. O espaço ocupa um conjunto tombado, ligado à tentativa de Henry Ford de explorar a borracha na região, e funciona em um prédio que já foi maternidade.

A Edenred destinou R$ 1,87 milhão ao projeto por meio da Lei de Incentivo à Cultura, considerando os aportes de 2025 e os realizados até setembro de 2026. O investimento faz parte de uma estratégia mais ampla que movimentou R$ 30 milhões em iniciativas sociais no Brasil entre 2024 e 2025.

Na COP30, em Belém, o MuCA foi apresentado como um ecossistema que integra ciência, educação, cultura, biodiversidade e empreendedorismo. Abriga laboratórios ativos, frentes de pesquisa aplicada e uma incubadora de bionegócios, em parceria com o Sebrae, voltada a alimentos, cosméticos, fármacos e chás locais.

Parte dos negócios usa o laboratório para desenvolver cosméticos, vacinas e produtos dermatológicos a partir de ativos da floresta, e outros testam produtos como o "Lipa Lipa", adoçante amazônico que a equipe tenta levar para outros mercados.

A cerca de duas quadras fica o Centro da Cultura Alimentar Tapajônica, batizada de Casa Edenred, que funciona como um restaurante-escola, e foi adaptada com cozinha de vidro transparente. Ali, a empresa apoia o desenvolvimento de receitas e a capacitação em manipulação de alimentos para mais de 100 famílias da região do Tapajós.

Por que a Amazônia entrou no negócio

A Edenred, plataforma digital de serviços e meios de pagamento, está presente em 44 países, com mais de 60 milhões de usuários, o que dá um peso maior para a escala da operação.

No Brasil, a companhia atua em benefícios e engajamento, mobilidade e soluções de pagamento. É na primeira frente, que inclui a Ticket, que está a conexão mais direta com a alimentação.

A estratégia de sustentabilidade global, chamada Ideal, se organiza em três pilares: pessoas, planeta e progresso. Localmente, o investimento social privado se concentra onde há operação: São Paulo, Rio Grande do Sul e Pará, onde a marca Punto emprega cerca de 100 pessoas em Belém.

Agora, a empresa passa a olhar para o que vem antes do prato: o território, o cultivo sustentável, os saberes das comunidades e a geração de renda local.

O espaço já beneficiou 6.812 pessoas diretamente, dos quais 2.582 são indígenas. Mais de 5 mil jovens de 18 a 29 anos e 650 adolescentes participaram de atividades de educação, empreendedorismo e formação.

Além disso, o Sebrae apoiou mais de 180 microempreendedores, 20 negócios locais estão incubados e seis espaços estruturantes foram implantados.

A parceria começou com um ciclo de três anos, e o plano é ficar mais tempo.

“Quando a gente fala de um território do tamanho da Amazônia, não dá para fazer algo pontual e ir embora. Eu preciso garantir a sustentabilidade desse projeto”, afirma Larissa.

Mas o museu faz parte de uma estratégia maior. Entre 2024 e 2025, foram R$ 30 milhões em investimentos sociais no Brasil, via leis de incentivo federais, sendo R$ 15,8 milhões em cultura, com projetos como o Circuito Cultural Ticket, em São Paulo, e o Festival Convergências Brasil-França, em Brasília. Ao todo, os projetos contemplam nove estados e 25 municípios.

Saberes que viram renda

O método do MuCA parte da escuta. O projeto Quintal de Aptidões trabalha com 28 comunidades indígenas, e a premissa, nas palavras de Larissa, é inverter a lógica de chegar com algo pronto: “Ao invés de o próprio MuCA entrar com um olhar de explorar o território e impor alguma coisa, é entender qual é a vocação tanto dos jovens quanto das comunidades.”

Os resultados aparecem em histórias. Uma comunidade a cinco horas de barco, que fazia canoas, passou a produzir caixas para colheita de mel.

Em outra comunidade, a Dona Teresa, diante de uma safra de caju sem destino, criou um ceviche de castanha de caju. “Era um conhecimento que a comunidade não tinha, que ajuda a ampliar autonomia e a possibilidade de geração de renda”, destaca a gerente.

Na cozinha da Casa 1, o chef Luan, no projeto desde o início, precisou reformular um cardápio para uma comitiva suíça sem glúten quando um ingrediente sazonal desapareceu. Resolveu com a crueira, a “cordinha” da mandioca, na massa da pizza.

Os jovens são parte central do modelo: os embaixadores do MuCA têm entre 20 e 26 anos e vem de uma condição de alta vulnerabilidade social, assumindo cargos de gestão, laboratório, cozinha e redes sociais.

Uma das coordenadoras começou na limpeza do museu e nasceu no prédio, quando ainda era maternidade.

“Você está no meio da Amazônia, um lugar super rico, e o que ainda vemos é uma procura pelo alimento industrializado", reflete a gerente. Ingredientes como a orelha-de-macaco, o “espinafre amazônico”, voltam ao repertório de jovens e famílias como alternativas mais saudáveis e sustentáveis no prato.

Próximos passos

No dia 3 de novembro, a Edenred promove um evento em seu escritório em São Paulo com a equipe do MuCA, com degustação da cozinha amazônica e debates sobre bioeconomia. A intenção é aproximar parceiros de uma região com menos recursos que o eixo Sul-Sudeste.

“O nosso trabalho não é ganhar protagonismo, muito pelo contrário. É dar luz ao que está acontecendo ali e ser uma parceria de longo prazo, que ajude a dar escalabilidade para os ativos amazônicos", contou Larissa.

Acompanhe tudo sobre:ESGSustentabilidadeClimaMudanças climáticasbioeconomiaAmazôniaFlorestas

Mais de ESG

Cerrado perdeu 34% da vegetação nativa em quatro décadas, aponta MapBiomas

O caminhão elétrico virou plug-and-play

Populações de animais silvestres encolheram 73% em cinco décadas, diz WWF

Bicicletas compartilhadas ganham espaço em SP, mas ciclistas enfrentam poluição e insegurança