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Após o rally de outubro, Wall Street vai continuar subindo em novembro? O mercado olha para o Fed

O mês passado foi o melhor desde 1976 para os investidores americanos, que agora se perguntam se o Banco Central dos EUA vai desacelerar o ritmo de alta de juros

Wall Street (Brendan McDermid/Reuters)

Wall Street (Brendan McDermid/Reuters)

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Carlo Cauti

2 de novembro de 2022, 06h52

Se outubro foi o melhor mês desde 1976 para Wall Street desde 1976, novembro começa com uma grande incógnita: o que fará o Federal Reserve (Fed)?

No mês passado, o que sustentou os mercados foi a sensação de que os Bancos Centrais estão se preparando para desacelerar a marcha ascendente das taxas de juros. Todavia, o teste decisivo vai ocorrer nesta quarta-feira, 2, quando o Fed vai decidir o nível dos juros nos EUA e dar indicações sobre os próximos passos da política monetária.

O mercado já está calculando uma nova alta de 75 pontos-base. O quarto amento consecutivo dessa magnitude. Algo inédito na economia dos Estados Unidos. Todavia, a temporada de super-altas poderia terminar hoje. E o mercado está aguardando sinais sobre se o Banco Central americano vai reduzir o ritmo dessa alta em dezembro e em 2023.

Essa pergunta é fundamental para entender se, depois de um outubro de recuperação, Wall Street vai continuar subindo também em novembro. Considerando os dados robustos do mercado de trabalho americano divulgados às vésperas da reunião do Fed, que demonstram a força da maior economia do mundo e, portanto, a necessidade de um novo aperto monetário para combater a inflação, não haverá muitas mudanças.

Não é por acaso que na terça-feira, após a publicação desses dados, as bolsas americanas caíram. Com o Dow Jones que fechou o pregão em queda de 0,24%, o Nasdaq piorou 0,89% e o S&P 500 caiu 0,41%.

O mercado espera que os Bancos Centrais abrandem o ritmo do aperto, porque temem não só pela resiliência da economia dos EUA, mas sobretudo pelo sistema financeiro global. Este forte aperto monetário, um dos maiores das últimas décadas em termos de intensidade e velocidade, está ocorrendo simultaneamente nos Estados Unidos, na União Europeia, no Reino Unido, no Canadá e em outras economias avançadas. Uma escalada dos juros que poderia minar um quadro financeiro desenhado em uma época de juros zero e liquidez abundante.

Os primeiros sintomas já são visíveis. Começam a aparecer chamadas de margens cada vez mais frequentes no gigantesco mundo dos derivativos. A forte alta do dólar e dos juros, além do incremento ainda mais violento das cotações do gás desencadearam gigantescos pedidos de pagamento de garantias. Os fundos de pensão britânicos estavam prestes a colapsar por esse motivo, assim como as empresas de energia de muitos países. Não por acaso, o governo britânico foi forçado a intervir, assim como os governos da França e da Alemanha, que nacionalizaram as gigantes EDF e Uniper.

Mas existe outro problema ligado à política monetária restritiva: os mercados das dívidas soberanas estão se tornando ilíquidos. Com os juros subindo, quem comprou papéis dos Tesouros Nacionais de países europeus e dos EUA com rendimentos negativos não consegue vender esses títulos no mercado pois a rentabilidade é pouco interessante. E essa iliquidez está se tornando uma armadilha para muitos investidores e instituições financeiras.

Resumindo: com as altas de juros recentes, os riscos para a estabilidade financeira estão se multiplicando em todo o mundo. E é por isso que o mercado espera (ou se ilude) que os bancos centrais diminuirão o ritmo do aperto monetário.

A esperança poderia ser frustrada pela realidade

O Banco do Canadá e o Banco Central Europeu (BCE) alimentaram essa esperança. Na semana passada o Banco Central canadense aumentou os juros de 50 pontos base, contra os 75 aguardados pelo mercado. O BCE, por sua vez, confirmou as previsões dos analistas e subiu os juros em 75 pontos base pela segunda vez consecutiva, mas modificou ligeiramente as palavras do comunicado final, o que fez pensar ao mercado que o ciclo de super-apertos monetários poderia ter se encerrado.

Várias declarações de membros do Fed nas últimas semanas também sugeriram que uma desaceleração poderia ocorrer também em Washington. Em seguida, todavia, surgiram dados econômicos que não dão muito espaço para esperanças. A inflação na zona do euro subiu acima das expectativas, chegando em 10,7% no final de outubro. Na última terça-feira o Banco da Inglaterra começou a vender os títulos do governo que havia comprado durante o período de políticas monetárias expansionistas (o famoso "afrouxamento quantitativo"), injetando no mercado 750 milhões de libras no primeiro dia e contribuindo para um aumento ulterior dos juros. E nos EUA o mercado de trabalho americano continua vigoroso. Na terça-feira saíram os dados sobre as ofertas de emprego nos EUA, que aumentaram para 10,7 milhões, uma alta de 437 mil vagas em relação ao mês anterior. O décimo sexto mês acima da marca de 10 milhões, um nível jamais superado antes de junho de 2021. Isso mostra que o Fed pode precisar continuar atuando na corrida dos juros para o alto, mantendo o objetivo primário de derrotar a inflação, que está bem acima dos 2% desejados pelo Banco Central americano.

Tudo isso levanta sérias dúvidas sobre o futuro da economia global, que são a base da desaceleração de Wall Street no pregão desta terça-feira, O mercado continua esperançoso, mas não faltam céticos. Os investidores estão aguardando ansiosamente o momento em que o Fed mudará de rumo e reconhecerá que, embora as taxas ainda não tenham subido, a maior parte do trabalho já foi feito. No momento, esse cenário parece improvável.