Invest

Petrobras e Banco do Brasil: quanto a eleição ainda mexe com as estatais da Bolsa

As ações chegam à reta final do pleito em alta no ano, mas reagem de formas diferentes às pesquisas, ao cenário político e aos fundamentos

Eleições e as estatais na Bolsa: o ano, a alta chega a 70,33% no caso da Petrobras e de quase 7% no caso do Banco do Brasil

Eleições e as estatais na Bolsa: o ano, a alta chega a 70,33% no caso da Petrobras e de quase 7% no caso do Banco do Brasil

Publicado em 1 de outubro de 2026 às 09h30.

Priorizar nos meus resultados Google
RESUMO +

As ações da Petrobras e do Banco do Brasil chegam à reta final da eleição presidencial de 2026 com altas de 70,33% e 6,58% no ano, respectivamente, até terça-feira, 29. Especialistas afirmam que o BB reflete mais diretamente as expectativas eleitorais, enquanto a Petrobras também responde ao petróleo, à produção, aos combustíveis, aos investimentos e aos dividendos.

As ações da Petrobras e do Banco do Brasil chegam à reta final da eleição presidencial neste ano novamente como ações mais sensíveis às expectativas políticas que podem balançar a bolsa. Mas, desta vez, o movimento dos papéis mostra que a relação entre eleição e preço das estatais é menos direta do que parece.

Enquanto o banco público, a primeira companhia listada no mercado brasileiro, vem incorporando com mais clareza as expectativas sobre uma eventual mudança de governo, a Petrobras divide o espaço no valuation com fatores como petróleo, produção, preços dos combustíveis, investimentos e dividendos.

No fechamento do último pregão, nesta terça-feira, 29 de setembro, as ações preferenciais da Petrobras (PETR4) estavam em R$ 49,10, com alta de 9,06% no mês. Desde 31 de julho, quando encerraram a R$ 43,42, acumulam valorização de 13,08%. No ano, a alta chega a 70,33%.

O Banco do Brasil (BBAS3), por sua vez, encerrou as negociações cotado a R$ 22,04, alta de 11,62% em setembro, depois de recuar 2,86% em agosto. Desde o fim de julho, a ação subiu 3,23% e, no ano, acumula valorização de 6,58%.

Na avaliação de Olivia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, seria simplista atribuir o desempenho das duas ações apenas à eleição. No caso da Petrobras, entram na conta o preço do petróleo em meio ao conflito entre Estados Unios e Irã, a produção, o câmbio, a política de combustíveis, os investimentos, a geração de caixa e os dividendos. No Banco do Brasil, pesam fatores como crédito, inadimplência, agro, custo de risco, capital e rentabilidade.

"Seria tentador atribuir essas altas à eleição. Mas seria também intelectualmente preguiçoso", afirma Brás.

Citando análises da XP Investimentos para o 3° trimestre, Brás destaca a importância dos fundamentos. A casa projeta redução de cerca de US$ 2 bilhões no Ebitda da Petrobras em relação ao trimestre anterior, enquanto, no BB, espera melhora gradual no agro, mas deterioração relevante na pessoa física, principalmente em cartões e consignado.

A diferença entre as duas teses também aparece na avaliação de Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital. Para Pletes, o Banco do Brasil reagiu mais claramente ao componente eleitoral, enquanto a Petrobras permanece mais ligada à trajetória do petróleo.

"O Banco do Brasil reagiu um pouco melhor do que a Petrobras", diz Pletes. "A Petrobras ainda é um pouco mais sensível aos preços do petróleo e também aguarda como vai acontecer a estabilidade do preço do petróleo".

No BB, o efeito eleitoral é mais evidente porque uma eventual mudança de governo pode alterar as expectativas sobre a administração do banco.

A ação chegou a avançar 5,52% em uma sessão no início de setembro, em um movimento que, segundo Marcos Praça, diretor de análise, investimentos e mercado financeiro da ZERO Markets Brasil, combinou o anúncio de juros sobre capital próprio com uma melhora da percepção sobre uma possível alternância de governo diante de pesquisas que vêm mostrando uma disputa mais acirrada entre os dois principais candidatos, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

O comportamento das ações neste ano ajuda a explicar por que o mercado olha para as duas empresas de maneiras diferentes. Até meados de setembro, BBAS3 havia passado a acumular alta no ano, apesar de os fundamentos do banco ainda estarem pressionados. A Petrobras, por outro lado, já acumulava 66,4% de valorização até aquele momento, em um ambiente de petróleo elevado e resultados operacionais fortes.

"Na Petrobras, a leitura é mais contaminada pelos fundamentos", afirma Praça. "No Banco do Brasil, hoje é mais fácil enxergar o trade eleitoral. Na Petrobras, a eleição importa muito, mas disputa espaço com uma variável gigantesca, que é o próprio preço do petróleo".

Banco do Brasil avançou em todas as eleições

Os dados históricos da consultoria Elos Ayta reforçam essa diferença. Considerando a variação entre 31 de julho e 30 de outubro dos anos eleitorais, o período eleitoral, a ação BBAS3 teve desempenho positivo nos quatro ciclos analisados de eleições presidenciais. Houve alta de 5,61% em 2022, 33,17% em 2018, 1,36% em 2014 e 9,96% em 2010.

Na Petrobras, a trajetória foi mais irregular. Os papéis preferenciais avançaram 7,20% em 2022 e 40,41% em 2018, mas recuaram 20% em 2014 e 6,51% em 2010. No mesmo período, o Ibovespa subiu 12,48% em 2022, 10,35% em 2018 e 4,68% em 2010, mas caiu 2,15% em 2014.

Isso não significa que o histórico permita antecipar o comportamento das ações neste mês de outubro. A própria volatilidade dentro dos ciclos eleitorais mostra que o resultado anual pode esconder movimentos muito diferentes ao longo da campanha.

"A eleição aumentou a incerteza, mas não expulsou o comprador", afirma Olivia, acrescentando que o comportamento de setembro também mostra que risco e oportunidade podem coexistir no mercado.

Uma pesquisa da XP apontou que 75% dos assessores consultados disseram que o pleito de outubro já influenciava o posicionamento dos clientes, contra 63% em agosto. Ao mesmo tempo, a parcela que pretendia aumentar a exposição a ações subiu 19 pontos percentuais, para 29%, e a projeção média para o Ibovespa no fim de 2026 passou de 172 mil para 188 mil pontos.

"Parece contraditório apenas para quem acredita que risco e oportunidade moram em endereços diferentes. O mercado não precisa gostar da incerteza para comprar dentro dela. Precisa apenas acreditar que o preço compensa a dúvida", diz.

Mais governança, mas não independência

A sensibilidade eleitoral das duas companhias também passa por uma questão estrutural de quanto uma mudança de governo ainda é capaz de alterar a gestão de uma estatal.

A resposta dos especialistas é que as empresas estão mais protegidas institucionalmente do que no passado, mas não se tornaram independentes do governo. A União continua sendo a controladora, e uma mudança de governo pode alterar nomes da administração, prioridades estratégicas e decisões sobre capital.

"Institucionalmente, sim. Existem mais mecanismos de governança, mas isso não significa independência em relação ao controlador", afirma Praça.

Segundo o diretor da ZERO Markets, a governança atualmente cria mais camadas para limitar mudanças abruptas, no entanto, a influência do controlador permanece. Na Petrobras, isso pode aparecer em decisões sobre investimentos, dividendos e política comercial de combustíveis. No Banco do Brasil, os efeitos podem alcançar a estratégia de crédito, os segmentos priorizados, a rentabilidade exigida e a distribuição de capital.

Pletes destaca que as estatais já foram mais dependentes de decisões políticas, mas ainda passam por mudanças relevantes quando há troca de governo, principalmente nos cargos decisórios. "Apesar de o governo ter o domínio de diversos cargos de gestão dentro das duas empresas, elas passam por mudanças mesmo com esse nível de governança", afirma. "Então, afirmar a independência fica mais complicado".

No caso da Petrobras, a governança ganhou peso depois dos problemas revelados pela Operação Lava Jato, com a adoção de mecanismos que ampliaram as barreiras entre decisões políticas e a gestão da companhia. Ainda assim, a estrutura não elimina a influência do acionista controlador. A mesma lógica vale para o Banco do Brasil. O conselho é colegiado e inclui representação de minoritários, mas a União continua como acionista controladora.

"Há muito mais institucionalidade entre a vontade política e a operação cotidiana, mas o controlador continua relevante para estratégia e governança. A governança colocou paredes entre governo e gestão, mas não construiu uma fronteira. Uma estatal moderna pode ter mais proteção contra interferência indevida, não ganhou independência do próprio dono", diz CEO da Magno Investimentos.

Por que o BB reage mais às pesquisas

Essa diferença entre expectativa e resultado que ajuda a explicar o comportamento de BBAS3 durante esta campanha.

O mercado pode antecipar uma eventual mudança de gestão antes que ela aconteça e, com isso, alterar o múltiplo que aceita pagar pela ação. Uma nova administração pode ser associada, na visão dos investidores, a mudanças na estratégia de crédito, na disciplina de capital, na rentabilidade e na remuneração aos acionistas.

"É um impulsionador da expectativa, não necessariamente do resultado", diz Praça.

Nesta terça, 29, a pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, indicou que, num eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, senador do PL marca 47,7%, ante 47,6% do presidentes, o que indica um empate técnico.O levantamento ouviu 5.005 eleitores entre 23 e 28 de setembro.

Para o mercado, entretanto, uma expectativa de alternância não resolve automaticamente os problemas do Banco do Brasil. No segundo trimestre, o banco registrou lucro ajustado de cerca de R$ 3,9 bilhões e um retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE) de 8,3%, pressionado pela deterioração do crédito, inicialmente no agro e depois também na pessoa física. O payout foi reduzido para 30%.

"A bolsa está antecipando uma possível mudança de gestão antes de essa mudança existir. Para esse movimento se sustentar depois da eleição, o balanço vai precisar confirmar a tese. No BB, isso significa principalmente queda do custo de crédito, melhora da inadimplência, recuperação da rentabilidade e eventualmente espaço para aumentar novamente o payout", afirma o diretor da ZERO Markets.

O head de renda variável da Faz Capital diz que a qualidade técnica da gestão é especialmente relevante para o BB. "A qualidade de gestão dos recursos é muito importante e a qualidade técnica das pessoas que se coloca à frente de uma instituição dessa também é muito importante", diz,

E se o governo continuar?

Já a continuidade do atual governo produz uma dinâmica diferente. Em vez de uma aposta em mudança de administração, o mercado passa a trabalhar com um histórico mais conhecido de decisões.

Para o Banco do Brasil, segundo Praça, isso pode retirar parte do prêmio associado à expectativa de alternância e fazer com que a atenção volte rapidamente aos fundamentos.

Na Petrobras, a continuidade tende a trazer mais previsibilidade para uma estratégia que o mercado já conhece, mas não elimina as discussões sobre investimentos, dividendos e política de combustíveis.

O Plano de Negócios 2026–2030 prevê US$ 109 bilhões em investimentos e mantém parâmetros de disciplina financeira e a política vigente de dividendos. Pletes ressalta, contudo, que a a continuidade do governo atual mantém algumas incertezas para as duas empresas. No Banco do Brasil, ele cita a possibilidade de utilização do banco em programas de renegociação de dívidas. Na Petrobras, avalia que a gestão tem papel relevante para determinar o retorno ao acionista.

"Essa empresa, pelo patamar do petróleo em que está, deveria estar gerando muito mais para o acionista", afirma.

O que o investidor deve olhar

Para os especialistas, o risco está em transformar Petrobras ou Banco do Brasil em uma aposta binária sobre o resultado eleitoral.

O especialista da Faz Capital recomenda que o investidor olhe para um horizonte mais longo e considere também o cenário macroeconômico e geopolítico, em vez de tentar capturar um movimento de curtíssimo prazo provocado pelas pesquisas.

"A questão política pesa muito e às vezes pode falar muito mais do que um resultado financeiro no curtíssimo prazo", afirma. "Então é preciso tomar cuidado com posições de curtíssimo prazo e olhar um horizonte mais longo".

'Perguntas frequentes'

Quanto subiram as ações da Petrobras e do Banco do Brasil em 2026? +

As ações preferenciais da Petrobras (PETR4) acumulavam alta de 70,33% no ano até terça-feira, 29 de setembro, enquanto os papéis do Banco do Brasil (BBAS3) avançavam 6,58%. No último pregão do período, PETR4 fechou a R$ 49,10 e BBAS3, a R$ 22,04.

Qual estatal é mais sensível às expectativas sobre a eleição presidencial? +

O Banco do Brasil reflete com mais clareza as expectativas eleitorais, segundo Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, e Marcos Praça, diretor da ZERO Markets Brasil. Na Petrobras, a eleição também importa, mas divide espaço com a trajetória do petróleo e outros fundamentos da companhia.

Quais fatores influenciam as ações da Petrobras além da eleição? +

Segundo Olivia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, as ações da Petrobras também respondem ao preço do petróleo, à produção, ao câmbio, à política de combustíveis, aos investimentos, à geração de caixa e aos dividendos. Brás afirma que atribuir a valorização apenas à eleição seria simplista.

Como as ações do Banco do Brasil se comportaram em eleições anteriores? +

Segundo dados da consultoria Elos Ayta, as ações BBAS3 avançaram nos quatro períodos eleitorais analisados, entre 31 de julho e 30 de outubro: 5,61% em 2022, 33,17% em 2018, 1,36% em 2014 e 9,96% em 2010. O histórico, porém, não permite antecipar o desempenho dos papéis em outubro de 2026.

Como a eleição influencia as decisões dos investidores? +

Uma pesquisa da XP mostrou que 75% dos assessores consultados afirmaram que a eleição de outubro já influenciava o posicionamento dos clientes, ante 63% em agosto. Ao mesmo tempo, a parcela que pretendia ampliar a exposição a ações subiu para 29%, e a projeção média para o Ibovespa no fim de 2026 passou de 172 mil para 188 mil pontos.

Acompanhe tudo sobre:IbovespaBB – Banco do BrasilPetrobrasBBAS3PETR4Empresas estataisEleições 2026

Mais de Invest

Ibovespa ensaia correção após rali e dólar, em baixa, chega a R$ 4,95

Paramount conclui compra da Warner Bros. por US$ 110 bilhões e cria nova Skydance

Perdeu o prazo para resgatar dinheiro das bets? Veja o que fazer agora

5 empresas concentraram quase metade do rali eleitoral do Ibovespa: veja quais