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O risco da Casas Bahia que ainda não apareceu nos números de Bradesco e BB

Safra avalia que Bradesco ainda pode ter de reforçar provisões, enquanto exposição do BB está mais sujeita à recuperação judicial da varejista

Impacto da RJ da Casas Bahia nos bancos: impacto potencial sobre os balanços ainda pode estar longe de ser totalmente refletido nas provisões dos dois bancos (Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images)

Impacto da RJ da Casas Bahia nos bancos: impacto potencial sobre os balanços ainda pode estar longe de ser totalmente refletido nas provisões dos dois bancos (Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images)

Publicado em 2 de setembro de 2026 às 05h00.

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O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia (BHIA3) coloca Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3) diante de exposições bilionárias ao negócio de crediário da varejista, mas, segundo o Safra, o impacto potencial sobre os balanços ainda pode estar longe de ser totalmente refletido nas provisões dos dois bancos.

Em relatório com base nas demonstrações financeiras do 1° semestre deste ano, divulgadas nesta segun-feira, 31, pelas instituições e apresentadas ao Banco Central, o Safra afirma que a Casas Bahia possui uma carteira de BNPL de R$ 6,3 bilhões. Essa é uma solução de crédito conhecida crediário ou, "compre agora, pague depois", na tradução em inglês.

Desse total de R$ 6,3 bilhões, R$ 2,6 bilhões estão no Bradesco, por meio do Digio, e R$ 2,4 bilhões no Banco do Brasil. O restante está distribuído entre dois fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) administrados pela Polígono e pela Redasset.

A principal preocupação do Safra, contudo, está concentrada no Digio, controlado pelo Bradesco. Na avaliação dos analistas Daniel Vaz e Rafael Nobre, os dados financeiros indicam que o pedido de recuperação judicial ainda não provocou uma deterioração significativa nas provisões registradas pela instituição.

“Os dados mais recentes ]relatório do 1º semestre de 2026] nos levam a acreditar que o Bradesco ainda não provisionou totalmente o impacto da Casas Bahia em seu balanço patrimonial”, afirmam no relatório.

Bradesco pode ter de provisionar mais

A análise do Safra parte da mudança na estrutura do crediário da Casas Bahia. Até agosto de 2025, a varejista atuava como originadora dos empréstimos e os bancos financiavam os recebíveis por meio de adiantamentos, ficando expostos ao risco de crédito corporativo da companhia.

Em agosto do ano passado, porém, o Bradesco reestruturou o acordo com a Casas Bahia para transferir o risco de crédito para os consumidores finais. A varejista continuou, contudo, assumindo uma obrigação de reembolsar o Digio quando um cliente deixava de pagar. Segundo o Safra, a estrutura ainda era considerada vantajosa para o banco porque os empréstimos contavam com garantias.

O problema surgiu com a recuperação judicial. As obrigações de reembolso da Casas Bahia relacionadas à inadimplência passaram a estar submetidas ao processo de reorganização judicial. Com isso, na avaliação do Safra, as garantias deixam de estar integralmente disponíveis.

A própria Casas Bahia estimou uma perda de aproximadamente 25% sobre essa exposição, equivalente a R$ 655 milhões em créditos concursais.

Para o Safra, porém, esse percentual pode não ser suficiente. "A perda final realizada pode acabar sendo maior ou menor do que essa estimativa, e acreditamos que aí reside o risco de maiores provisões para o Bradesco (e também para o BB e os FIDCs)", afirmam Vaz e Nobre.

Números do Digio acendem alerta

O Safra analisou os dados financeiros do Digio referentes ao primeiro semestre de 2026 para verificar se a recuperação judicial já havia provocado mudanças relevantes nas provisões.

O saldo de operações em Stage 3, classificação que reúne créditos com maior deterioração de risco, caiu de R$ 846 milhões em dezembro de 2025 para R$ 741 milhões em junho de 2026. As provisões associadas a esse estágio também recuaram, de R$ 627 milhões para R$ 540 milhões no mesmo período.

Na leitura do Safra, os números sugerem que não houve, até junho, um aumento expressivo de provisões relacionado à Casas Bahia.

O banco ressalta, porém, que o Bradesco aumentou em aproximadamente R$ 800 milhões as provisões para o mercado de massa no 2°  trimestre, o que poderia já incorporar parte do impacto esperado da exposição do Digio. Ainda assim, os analistas veem espaço para uma pressão adicional.

O ponto-chave é a chamada LGD (Loss Given Default), ou perda esperada em caso de inadimplência. Com a recuperação judicial, o Safra avalia que essa perda pode aumentar substancialmente, uma vez que as garantias da Casas Bahia permanecem indisponíveis durante o período de proteção judicial de 180 dias iniciado em 19 de agosto.

"Não temos certeza se esses empréstimos serão definitivamente tratados como sem garantia nos livros do Bradesco, já que, caso a reestruturação da Casas Bahia seja bem-sucedida, isso deveria ser uma questão de diferenças temporárias, embora vejamos mais pressão sobre a qualidade desses empréstimos", afirmam os analistas.

"Sem falar que isso ocorre em um momento em que os clientes do mercado de massa continuam a representar alto risco de crédito, e o fluxo de notícias sobre as dificuldades financeiras da Casas Bahia poderia de alguma forma impactar o comportamento dos tomadores de crédito no nível do consumidor final. Em poucas palavras, a Digio possui atualmente uma exposição de R$ 2,6 bilhões a uma carteira de crédito lastreada por tomadores composta principalmente pela população brasileira altamente alavancada, com garantias congeladas por 180 dias", acrescentam.

Apesar do alerta sobre a necessidade de novas provisões, o Safra não mudou sua visão estrutural sobre o Bradesco. O banco mantém recomendação Outperform, desempenho acima da média, para BBDC4, com preço-alvo de R$ 26, ante R$ 17,19 considerado na análise.

À EXAME, analistas também apontaram que, apesar do evento adverso da Casas Bahia, ele “não desvia o Bradesco de sua recuperação de resultados”, embora possa gerar “ruído em um trimestre isolado”. “Seria, em caso extremo, uma provisão que pesa em um trimestre, mas menos no resultado de um ano e menos ainda no filme de recuperação”, afirmou Pedro Gonzaga, da Mantaro Capital.

Banco do Brasil está mais exposto

Se o Bradesco pode enfrentar pressão adicional sobre provisões, o Safra vê uma situação ainda mais delicada no Banco do Brasil. A instituição possui R$ 2,4 bilhões da carteira de crediário da Casas Bahia e, diferentemente do Bradesco, ainda carrega a estrutura anterior do negócio.

Segundo o Safra, o BB continua arcando com 100% do risco de crédito corporativo da Casas Bahia, porque sua carteira não passou pela reestruturação contratual realizada pelo Bradesco em agosto do ano passado.

"O Banco do Brasil enfrenta um cenário ainda mais difícil, já que sua carteira de empréstimos ainda arca com 100% do risco de crédito da Casas Bahia e está totalmente sujeita às regras do processo de reorganização sob supervisão judicial", afirma o relatório.

Na avaliação do banco, o BB está operando o crediário da varejista sem as medidas de reestruturação adotadas pelo Bradesco. Isso significa que, no caso do banco estatal, a exposição permanece diretamente ligada ao risco de crédito corporativo da varejista.

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