Recuperação judicial da Casas Bahia: o grupo ingressou com um pedido de recuperação judicial em busca de proteção para reorganizar os bilhões em créditos sujeitos ao processo (Divulgação/Divulgação)
Repórter
Publicado em 17 de agosto de 2026 às 12h33.
Última atualização em 17 de agosto de 2026 às 13h39.
A lista de credores apresentada pela Casas Bahia (BHIA3) à Justiça de São Paulo nesta segunda-feira, 17, dá nome às empresas que estão do outro lado dos R$ 17,3 bilhões em dívidas que a varejista tenta reestruturar. O grupo inclui de seguradoras, a bancos e fundos de investimento, assim como grandes fabricantes de eletroeletrônicos e o fisco.
Após reportar no final de semana um prejuízo líquido de R$ 10,117 bilhões no segundo trimestre deste ano, o grupo ingressou com um pedido de recuperação judicial em busca de proteção para reorganizar os bilhões em créditos sujeitos ao processo, em meio ao que classificou na petição como a "pior crise financeira desde a sua fundação".
A lista de credores mostra, porém, que a exposição não está distribuída de maneira uniforme. Entre os maiores credores individuais aparecem instituições financeiras, fundos de recebíveis e grandes fabricantes que dependem do grupo como canal de vendas.
Considerando os 19 maiores nomes citados, entre seguradoras, bancos, fundos e fabricantes de eletroeletrônicos, os créditos somam aproximadamente R$ 11,96 bilhões — cerca de 69% dos R$ 17,32 bilhões sujeitos à recuperação judicial.
A Zurich Minas Brasil aparece no topo, com R$ 1,98 bilhão a receber, seguida pelo IBCB-AF01 FIDC, com R$ 1,09 bilhão, e pela Samsung, com R$ 937,6 milhões. Whirlpool, Electrolux, Banco Digio, TCL Semp, LG, Motorola e Banco do Brasil também estão entre os principais credores.
Os documentos mostram que os R$ 17,32 bilhões considerados no pedido de recuperação judicial correspondem apenas aos créditos efetivamente sujeitos ao processo, distribuídos entre as Classes I (trabalhista), III (quirografária) e IV (micro e pequenas empresas).
O valor, portanto, não representa necessariamente todo o passivo do Grupo Casas Bahia. Ficam de fora dessa conta os créditos classificados como extraconcursais, que não se submetem ao plano de recuperação, e os valores de natureza intercompany, referentes a obrigações entre empresas do próprio grupo.
No topo da relação está a Zurich Minas Brasil Seguros, com um crédito de R$ 1,977 bilhão.
A empresa do grupo Zurich no Brasil atua como parceira oficial do Grupo Casas Bahia para oferecer seguros embutidos ou contratados no varejo, como o Garantia Estendida Original e o Fique Seguro, uma proteção contra roubo, furto qualificado e quebra de eletrônicos, de acordo com informações da própria varejista.
Na sequência, na lista de maiores credores individuais, aparece o IBCB-AF01, o Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), com R$ 1,085 bilhão. O ativo representa isoladamente cerca de 6,2% de todo o passivo sujeito ao plano de recuperação, o que o coloca no topo da lista nominal de credores.
O FIDC atua principalmente em operações de Risco Sacado, de antecipação a fornecedores, e na aquisição de Notas Comerciais emitidas pela companhia.
O fundo é seguido pela Samsung Eletrônica da Amazônia, com R$ 937,6 milhões. Essa fábrica, localizada em Manaus, é responsável por produzir uma ampla linha de produtos eletrônicos para o mercado brasileiro, incluindo televisores, smartphones, tablets, smartwatches, aparelhos de ar-condicionado e fones de ouvido.
A relação também mostra uma forte concentração entre fabricantes de eletroeletrônicos. A Whirlpool tem aproximadamente R$ 800,9 milhões em créditos, considerando valores extraconcursais e quirografários.
A Electrolux aparece com R$ 700,1 milhões. A lista, no setor, ainda inclui TCL Semp, que soma aproximadamente R$ 633,4 milhões, LG Electronics tem R$ 623,7 milhões e Motorola Mobility, R$ 619 milhões.
A Britânia também tem R$ 354,8 milhões a receber da Casas Bahia, assim como Envision, com R$ 296,3 milhões; Grupo Multilaser, com R$ 206,7 milhões; Apple Computer Brasil, com R$ 183 milhões; e Lenovo Tecnologia, com R$ 137,2 milhões.
Entre as instituições financeiras, o Bradesco é o grupo do setor com a maior exposição entre os credores da recuperação judicial da Casas Bahia. Somados os créditos registrados diretamente em nome do banco e os atribuídos ao Banco Digio, controlado pelo Bradesco, são R$ 4,78 bilhões a receber da varejista.
O Banco do Brasil também está entre os maiores credores, com R$ 598,1 milhões. Na sequência aparecem Oliveira Trust DTVM, com R$ 345,9 milhões, e Redasset Gestão de Recursos, com cerca de R$ 337 milhões, considerando R$ 269,6 milhões em créditos extraconcursais e R$ 67,4 milhões em créditos quirografários.
Também consta na lista o CBSB FIDC, com R$ 233,9 milhões, e o Itaú Unibanco, com R$ 208,3 milhões.
Nem todos esses valores, contudo, estão sujeitos às condições da recuperação judicial. Parte dos créditos do Bradesco e do Digio, um total de R$ 3,35 bilhões, são identificados na relação como “extraconcursais”, por exemplo. Isso sigifica que eles não se submetem aos efeitos do plano de recuperação. Dependendo da natureza do crédito e das garantias envolvidas, esses credores podem ter condições de cobrança diferentes das dos credores sujeitos ao plano.Além de Bradesco e Digio, a relação de créditos extraconcursais inclui a Redasset Gestão de Recursos, com R$ 269,6 milhões; a Jive Investments, com R$ 166,3 milhões; o PLGN Marketplace FIDC, com R$ 154,5 milhões; o Banco C6, com R$ 78,4 milhões; a Porto Serviço, com R$ 58 milhões; o Banco Inter, com R$ 46,9 milhões; e o Banco Safra, com R$ 30,4 milhões.
Entre os fornecedores, aparecem ainda a Whirlpool, com R$ 165 milhões; a Atlas Indústria de Eletro, com R$ 140 milhões; e a Itatiaia Eletro e Móveis, com R$ 30 milhões.
Na petição inicial, o grupo citou nominalmente a Hisense Gorenje do Brasil e a Lenovo Tecnologia entre fornecedores que já haviam enviado notificações relacionadas ao vencimento antecipado de obrigações.
A exposição dos fabricantes também ajuda a explicar a preocupação da Casas Bahia em preservar o abastecimento. A companhia afirmou no documento que uma interrupção no fornecimento comprometeria diretamente a atividade operacional. O argumento é que, sem mercadorias, não há vendas; sem vendas, não há geração de caixa para recompor estoques e pagar credores.
Por isso, a empresa pediu à Justiça que fornecedores mantenham a entrega de produtos já comprados e em trânsito, mesmo após o ajuizamento da recuperação judicial.
A Casas Bahia também afirma que alguns credores possuem garantias sobre estoques e sustenta que a retenção de uma parcela relevante das mercadorias poderia comprometer o funcionamento das lojas e dos canais digitais.
A petição afirma ainda que contratos financeiros e comerciais que somam mais de R$ 10 bilhões contêm cláusulas que poderiam permitir o vencimento antecipado das dívidas em determinadas situações, como o pedido de recuperação judicial.
Evitar que essas cláusulas provoquem uma corrida de credores contra a companhia está entre os motivos para a urgência do pedido de proteção judicial.
O poder público também aparece entre os principais credores. As dívidas tributárias do grupo somam R$ 2,582 bilhões, considerando obrigações de curto e longo prazo.
Na relação de créditos identificados individualmente, o ICMS aparece com R$ 1,05 bilhão, enquanto parcelamentos estaduais somam outros R$ 880,2 milhões.
A estrutura do passivo, portanto, vai muito além das instituições financeiras. A recuperação judicial terá de equacionar simultaneamente a exposição de bancos e fundos, preservar a relação com os fornecedores que abastecem as lojas e lidar com obrigações tributárias e trabalhistas.
A companhia também possui obrigações relevantes com locadores. A Icon Properties, por exemplo, mantém contratos referentes a 158 imóveis operacionais do grupo, com passivo de arrendamento de aproximadamente R$ 406 milhões. A empresa aparece ainda na relação de credores com um crédito de R$ 49,5 milhões relacionado a um processo de arbitragem.
No campo trabalhista, a Casas Bahia mantém R$ 1,403 bilhão provisionado para processos classificados como de perda provável. Há ainda R$ 2,696 bilhões em ações classificadas como de perda possível, que não estão provisionadas no balanço.Entre os créditos trabalhistas individuais de maior valor estão os processos de Carlos Ximendes da Silva, de R$ 6,38 milhões, e Hebert Augusto da Silva, de R$ 3,53 milhões.
Também aparecem na relação The Boston Consulting Group, com R$ 63,7 milhões, e PROCON/SP, com R$ 35,6 milhões.
A recuperação judicial ainda depende da análise da Justiça. Caso seja aceita, a companhia deverá apresentar um plano de recuperação aos credores dentro dos prazos previstos na legislação.
O processo envolve a negociação com bancos, fornecedores e demais credores para definir como as dívidas serão reestruturadas. A Casas Bahia afirma que a medida busca preservar a operação e criar condições para uma retomada sustentável, sem interromper o atendimento aos consumidores.
(*) Matéria atualizada às 13h40 para incliuir a divisão entre créditos sujeitos e não sujeitos à recuperação judicial.