Copom: mudança de rota (Arthur Menescal/Bloomberg/Getty Images)
Publicado em 17 de março de 2026 às 05h00.
Última atualização em 17 de março de 2026 às 06h17.
Às vésperas da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que começa nesta terça-feira, 17, o mercado financeiro já não parece tão convicto de que chegou a hora de cortar os juros no Brasil. O que até poucas semanas atrás era tratado quase como consenso — uma redução de 0,50 ponto percentual na taxa Selic — transformou-se em um cenário cercado de dúvidas.
A principal razão para a mudança de humor está fora do país: a escalada do conflito no Oriente Médio, que levou o preço do petróleo de volta à casa dos US$ 100 o barril e reacendeu temores inflacionários no mundo todo.
A virada mais emblemática veio da XP Investimentos. A casa, que até recentemente apostava em um corte de 0,50 ponto percentual, revisou radicalmente sua projeção e passou a prever que o Banco Central manterá a Selic em 15% ao ano nesta reunião.
Segundo a equipe liderada pelo economista-chefe Caio Megale, a disparada do petróleo alterou de forma relevante o balanço de riscos para a inflação. Desde a última reunião do Copom, em janeiro, o barril do tipo Brent avançou cerca de 60%, elevando o custo de combustíveis, transporte e insumos industriais — um choque que pode contaminar a inflação doméstica.
Além disso, a economia brasileira voltou a mostrar sinais de força. O desemprego permanece em mínimas históricas, o crédito continua avançando e o consumo das famílias segue resiliente. A XP estima que o PIB do primeiro trimestre de 2026 tenha crescido a um ritmo anualizado de 4%, bem acima do que se esperava no início do ano.
Nesse ambiente, iniciar o ciclo de cortes agora poderia parecer precipitado. Para os economistas da casa, se o Copom não estiver plenamente confiante em um corte de 0,50 ponto percentual, a alternativa mais prudente seria simplesmente adiar o movimento.
“O melhor é esperar e cortar com mais embasamento em abril”, afirma o relatório.
Outras instituições também revisaram suas apostas, mas em direção um pouco menos drástica. Em vez de cancelar o início do ciclo de queda de juros, alguns bancos passaram a prever um corte menor, de apenas 0,25 ponto percentual.
O Itaú BBA e o BNP Paribas estão entre os que adotaram esse cenário intermediário. Em relatórios recentes, os economistas dessas instituições argumentam que o salto do petróleo aumenta a incerteza global e eleva o risco inflacionário, exigindo mais cautela do Banco Central.
A lógica é simples: combustíveis mais caros tendem a pressionar custos logísticos e preços de alimentos, além de afetar expectativas de inflação.
A deterioração já começou a aparecer nas projeções do mercado. No relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira, a estimativa para o IPCA de 2026 subiu de 3,91% para 4,10%. Ao mesmo tempo, a previsão para a Selic no fim deste ano avançou de 12,13% para 12,25%.
Mesmo assim, parte dos economistas ainda acredita que o Copom deve dar o primeiro passo do ciclo de afrouxamento monetário.
Essa é, por exemplo, a avaliação do Bank of America. Em relatório divulgado nesta semana, o banco reduziu sua previsão de corte inicial de 0,50 para 0,25 ponto percentual, citando a escalada das tensões geopolíticas e a volatilidade no preço do petróleo.
Para os economistas da instituição, o choque de energia representa um risco para a inflação, mas tende a ser tratado pelo Banco Central como um fator exógeno — algo que afeta os preços no curto prazo, mas não necessariamente altera a tendência de médio prazo.
Mesmo com um corte de 0,25 ponto percentual, a política monetária brasileira permaneceria altamente restritiva. O Bank of America calcula que a taxa real ex-ante continuaria acima de 10%, bem superior à estimativa de juros neutros de cerca de 5,5%.
Nesse cenário, o ciclo de cortes poderia ganhar ritmo ao longo do ano.
Relatório do BTG Pactual vai na mesma direção. Para os economistas do banco, o choque recente do petróleo aumentou significativamente a incerteza para a política monetária e elevou o risco de desancoragem das expectativas de inflação.
A instituição avalia que, diante desse cenário, o início do ciclo de cortes deve ser mais conservador — provavelmente com uma redução de 25 pontos-base na reunião desta semana.
O banco também destaca que a magnitude do choque energético pode contaminar os núcleos de inflação e reforçar a chamada inflação inercial, especialmente se o petróleo permanecer próximo de US$ 100 por barril.
Ainda assim, os economistas do BTG consideram improvável que o Copom adie totalmente o início do ciclo, já que o Banco Central vinha sinalizando desde janeiro que começaria a flexibilizar a política monetária nesta reunião.