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Guerra com Irã reduz espaço do Copom para cortes na Selic, apontam bancos

Conflito no Oriente Médio eleva petróleo, pressiona inflação e leva mercado a rever apostas para a Selic

Petróleo: Com a escalada das tensões no Oriente Médio, o barril voltou a superar a marca de US$ 100. (Katja Buchholz/Getty Images)

Petróleo: Com a escalada das tensões no Oriente Médio, o barril voltou a superar a marca de US$ 100. (Katja Buchholz/Getty Images)

Letícia Furlan
Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 16 de março de 2026 às 12h28.

Esta semana tem decisão sobre juros no Brasil e o mercado estava animado com a ideia de que a Selic finalmente será reduzida. Ao menos foi isso o que o Comitê de Política Monetária (Copom) sinalizou na reunião de janeiro. Hoje, às vésperas da aguardada decisão, o otimismo em relação ao ciclo de alívio já não é mais o mesmo, como apontam alguns bancos em relatórios recentes.

A conclusão é a de que o conflito no Golfo Pérsico elevou os preços do petróleo, pressionando a inflação global e reduzindo o espaço para cortes de juros no Brasil. O impacto já apareceu nas projeções do relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira, 16. A estimativa para o IPCA de 2026 subiu de 3,91% para 4,10%. Ao mesmo tempo, a expectativa para a taxa Selic no fim do ano passou de 12,13% para 12,25%.

Com a inflação projetada mais alta, alguns economistas chagaram a reduzir a aposta de corte da Selic na reunião desta semana, de 0,50 ponto percentual para 0,25 ponto. Caso a projeção se confirme, a taxa básica passaria dos atuais 15% ao ano para 14,75%.

Analistas do Itaú BBA passaram a prever um corte inicial mais moderado de 25 pontos-base no encontro do Copom, diante do aumento da incerteza global e da forte alta do petróleo desde o início do conflito. A casa observa que o preço do Brent saiu de cerca de US$ 72 por barril na véspera da escalada no Oriente Médio para aproximadamente US$ 103, uma alta de 43%, além de apresentar volatilidade maior que a habitual.

Para os economistas da instituição, a reação da política monetária dependerá principalmente da persistência desse choque e da possibilidade de efeitos de segunda ordem sobre a inflação. Até agora, porém, esses canais de transmissão seguem relativamente contidos. A taxa de câmbio tem resistido ao aumento da aversão ao risco, apoiada pelo diferencial elevado de juros no Brasil e pela melhora dos termos de troca.

A inflação corrente, segundo o BBA, também ainda não mostrou deterioração significativa, apesar de algumas surpresas negativas nas últimas divulgações.

Para o BNP Paribas, a alta do petróleo terá um impacto material nas previsões do Banco Central. O banco observa que, mesmo no cenário mais benigno (com o barril do petróleo a US$ 74), a previsão de inflação deve subir cerca de 20 pontos-base, distanciando-se da meta.

Por isso, a instituição revisou sua expectativa de corte da Selic de 0,50 ponto percentual para um corte mais cauteloso de 0,25 ponto (25 bps) na reunião de 18 de março. O Paribas defende que uma estratégia de "esperar para ver" seria a mais prudente, dada a inflação de serviços persistente e o mercado de trabalho resiliente.

Em relatório, o banco chega a mencionar que o Copom poderia até considerar adiar o início do ciclo de cortes para a reunião de abril, visando obter maior clareza sobre a atividade doméstica e a geopolítica.

Petróleo pressiona inflação

O principal canal de transmissão da guerra para a economia brasileira passa pelo preço das commodities, especialmente o petróleo.

Com a escalada das tensões no Oriente Médio, o barril voltou a superar a marca de US$ 100. O movimento eleva o custo de combustíveis e transporte, pressionando cadeias produtivas em diversos países.

O fechamento do Estreito de Ormuz, pelo qual passava cerca de 20% do petróleo mundial antes do conflito, foi classificado pela Agência Internacional de Energia (AIE) como a maior interrupção de fornecimento já registrada no mercado global de petróleo.

No Brasil, esse efeito aparece diretamente na política de preços da Petrobras. Com o petróleo mais caro, cresce a pressão para reajustes de combustíveis como o diesel, que tem impacto relevante sobre fretes e alimentos.

O governo federal já anunciou medidas para amortecer o impacto da alta do petróleo. Entre elas está a isenção de impostos federais sobre o diesel.

Mesmo assim, economistas avaliam que o balanço de riscos para a inflação ficou mais desafiador, sobretudo para os anos de 2026 e 2027. Medidas tributárias para conter o preço dos combustíveis ajudam a suavizar o impacto, mas não eliminam a incerteza gerada pelo choque de oferta no mercado global de energia.

Nas projeções do Itaú BBA, a estimativa de inflação no horizonte relevante da política monetária — o terceiro trimestre de 2027 — pode subir de 3,2% para cerca de 3,4%, aproximando-se do limite considerado confortável pelo Banco Central. Nesse cenário, a avaliação é que o início do ciclo de queda da Selic ainda é possível, mas com mais cautela.

A expectativa é que o Banco Central sinalize, na comunicação após a reunião, que o momento exige serenidade na condução da política monetária. O Copom também deve destacar que está atento aos efeitos secundários de choques de oferta — como os ligados à energia — e que o ritmo e a magnitude do ciclo de cortes dependerão da evolução desses fatores.

Outra sinalização esperada pelo BBA é que o comitê esteja pronto para interromper o processo de redução da Selic caso os choques inflacionários se mostrem mais persistentes do que o previsto.

Mesmo com esse ambiente mais incerto, as projeções para a atividade econômica tiveram leve melhora no Focus. O mercado elevou marginalmente a estimativa de crescimento do PIB em 2026, de 1,82% para 1,83%, enquanto a expectativa para o dólar no fim do ano recuou de R$ 5,41 para R$ 5,40.

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