Palantir: empresa comparou tokens com carvão (Imagem gerada por IA)
Repórter
Publicado em 6 de maio de 2026 às 06h36.
"Tokens são o novo carvão. Nosso sistema é o trem."
Foi assim que o CTO da Palantir, Shyam Sankar, resumiu a nova corrida da inteligência artificial (IA) durante a divulgação de resultados da empresa — e a frase condensou, em duas linhas, o que pode ser a dinâmica econômica mais contraintuitiva da tecnologia neste momento.
A analogia remete à Revolução Industrial. Para explicar a sua frase, Sankar invocou o chamado Paradoxo de Jevons, teoria formulada em 1865 pelo economista britânico William Stanley Jevons, que observou um efeito inesperado durante a industrialização britânica: máquinas a vapor mais eficientes não reduziram o consumo de carvão na Inglaterra.
O dilema das redes: promover IA para fotos e vídeos e conter deepfakes nas eleiçõesA eficiência acelerou a industrialização e a demanda disparou. "Quando os vitorianos construíram máquinas a vapor mais eficientes, todos assumiram que o consumo de carvão cairia. Em vez disso, ele explodiu", afirmou Sankar.
No primeiro trimestre de 2026, a Palantir registrou US$ 1,63 bilhão em receita, crescimento anual de 85% — o maior já reportado pela empresa.
Nos Estados Unidos, a receita mais que dobrou, alcançando US$ 1,28 bilhão. O segmento comercial americano avançou 133%, para US$ 595 milhões, enquanto a divisão governamental cresceu 84%, chegando a US$ 687 milhões.
Outro indicador chamou atenção: a retenção líquida de receita, métrica que mede o quanto clientes existentes ampliam seus contratos, saltou de cerca de 118% para 150% em doze meses.
O movimento indica que os clientes não estão apenas renovando contratos. Estão expandindo rapidamente o consumo de IA dentro da plataforma.
Segundo a empresa, o crescimento reflete o avanço de sistemas autônomos e agentes de IA operando em escala cada vez maior.
Davi quer engolir Golias: GameStop tenta comprar o eBay por US$ 56 bi — e mercado duvidaPara o ano fiscal completo, a Palantir elevou sua projeção de crescimento de receita para 71%, dez pontos percentuais acima da estimativa anterior.
O argumento de Sankar vai além do aumento no consumo de tokens. Para a Palantir, o valor mais importante não está apenas na IA em si, mas na camada responsável por organizar, controlar e operacionalizar esse consumo dentro das empresas.
A companhia chama essa estrutura de “ontologia” — um sistema intermediário que conecta dados corporativos, modelos de linguagem e fluxos de trabalho autônomos.
Segundo Sankar, a Palantir está construindo um “sistema operacional de agentes”, capaz de coordenar agentes de IA em larga escala dentro de organizações.
A arquitetura inclui mecanismos de atribuição de custos, rastreamento de origem de dados e controles de segurança desenhados para atender simultaneamente áreas financeiras, equipes de segurança cibernética e operações militares.
O crescimento explosivo do consumo de IA também trouxe um problema que a empresa tenta transformar em diferencial competitivo.
No setor, o termo “slop” passou a definir conteúdo automatizado de baixa qualidade produzido em massa por modelos generativos — respostas genéricas, textos plausíveis, mas sem utilidade operacional concreta.
Sankar afirmou que a Palantir opera em uma “zona sem lixo” e criticou a prática conhecida como “tokenmaxxing”, estratégia focada em maximizar o volume de tokens processados independentemente do valor entregue.
“Mais tokens significam mais lixo”, afirmou.
A posição da empresa indica uma disputa crescente dentro do mercado de IA: não apenas quem consegue gerar mais processamento, mas quem consegue transformar esse processamento em sistemas utilizáveis, auditáveis e integrados às operações reais das empresas.