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Tinder: app de namoro adota tecnologia banida do Brasil para verificação de perfis (Jakub Porzycki/Getty Images)
Publicado em 27 de abril de 2026 às 14h30.
Última atualização em 27 de abril de 2026 às 14h30.
O Tinder revelou que utilizará a tecnologia de reconhecimento de íris para combater a criação de perfis falsos no aplicativo. Os indivíduos farão a checagem diretamente pelo aplicativo e, caso aprovados, receberão um selo que identifica a veracidade do perfil.
A adoção do projeto World, desenvolvido pela Tools for Humanity, companhia fundada por Sam Altman, foi confirmada em 2025 durante a conferência At Last, em São Francisco. A EXAME esteve presente para presenciar a confirmação que de o grupo estava em contato com o Match Group, conglomerado responsável por apps como Tinder e Hinge, para iniciativas conjuntas. Agora, o recurso entra em vigor para usuários japoneses e chegará a outros países "em breve".
A tecnologia, entretanto, é proibida no Brasil desde o ano passado por uma decisão da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). O aplicativo de namoro tem outras formas de identificar a veracidade de um perfil, como gravação de vídeo para fins de reconhecimento, mas o grupo acredita que a identificação por íris é uma estratégia importante para ampliar a segurança digital.
A ideia do recurso apelidado de World ID é que ele seja popularizado como um "passaporte digital" de usuários e, para isso, as íris humanas foram escolhidas. "As íris são extraordinariamente estáveis ao longo da vida e virtualmente impossíveis de falsificar com a tecnologia atual," explica Damien Kieran, diretor de privacidade da Tools for Humanity em entrevista à EXAME em maio de 2025.
O processo é resultante de anos de desenvolvimento em biometria avançada e criptografia. Quando um usuário se posiciona diante da Orb Mini — dispositivo que escanea a íris —, o aparelho captura imagens detalhadas que são rapidamente convertidas para um código binário. Assim, cada ser humano tem sua própria sequência única de uns e zeros que diferencia cada olhar para identificação.
Após o código ser gerado, ele é fragmentado e suas várias partes passam a ser operadas por repositórios variados de dados. Na época da revelação, Altman dizia que a ideia era implementar o reconhecimento para todos os usuários de internet no mundo e já contava com apoio de empresas como Reddit e Discord — redes sociais popularmente reconhecidas pela facilidade de anonimato nas plataformas.
Uma pesquisa da empresa de identificação GBG apontou que 61% dos usuários de apps de namoro do Reino Unido já conversaram com perfis falsos por engano. Conforme o estudo, 42% dos usuários consultasdos alegaram dificuldade para diferenciar o que é real e o que não é em meio a conversas nas plataformas. Em uma análise pessoal, a usuária Victoria Brooks compartilhou que os robôs em busca de amor que encontrou eram "golpistas românticos emocionalmente manipuladores e otimizados por algoritmos".
Ao mesmo tempo, nem todos os frequentadores de apps de namoro são contra perfis de IA. Um estudo publicado pela Norton em fevereiro deste ano apontou que 63% dos brasileiros concordariam em ter conversas românticas com IAs para ter certeza de que seriam correspondidos. Leyla Bilge, chefe global de pesquisa de golpes da Norton, diz ter percebido que usuários que se sentem mais isolados no dia a dia são mais propensos a cair em golpes de cunho emocional ou acreditar nas palavras sensíveis de uma IA.
A ANPD determinou que o serviço World não estaria disponível no país após a Tools for Humanity pagar participantes por engajarem com o desenvolvimento do World ID. A instituição alegou que a vantagem econômica possibilitada pela distribuição de criptoativos ia contra o princípio do consentimento livre dos titulares dos dados, presente na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
A possibilidade de monetização dos dados pessoais seria uma extensão do direito à autodeterminação informativa, defendido pela LGPD, que permite que os indivíduos decidam livremente sobre o uso e compartilhamento de suas informações, sem sofrerem prejuízos.