Ao testar candidatos com um chatbot próprio, a McKinsey sinaliza como a IA está mudando o que significa “pensar bem” no trabalho. (LightRocket /Getty Images)
Repórter
Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 14h34.
A McKinsey começou a testar uma mudança silenciosa, e simbólica, em um dos processos seletivos mais disputados do mundo corporativo: o recrutamento de jovens consultores já parte do princípio de que trabalhar sem inteligência artificial deixou de ser uma opção.
A consultoria passou a pedir que candidatos recém-formados utilizem um assistente de IA durante entrevistas e testes práticos. A ideia não é avaliar quem “sabe mais”, mas quem sabe trabalhar com máquinas, em outras palavras, que escreve o melhor prompt para resolver um problema. No centro do experimento está o Lilli, chatbot interno da empresa, usado para analisar estudos de caso, organizar argumentos e refinar recomendações — exatamente como os consultores são estimulados a fazer no dia a dia.
Na prática, o teste não mede apenas a resposta final, mas a forma como o candidato interage com a IA: a qualidade dos prompts, a capacidade de questionar respostas automáticas, contextualizar informações e exercer julgamento crítico. Para a McKinsey, curiosidade e discernimento passaram a valer tanto quanto raciocínio lógico puro.
A mudança ajuda a explicar por que até mesmo um bastião do modelo tradicional de consultoria está redesenhando sua pirâmide de talentos. Durante décadas, o setor funcionou com grandes equipes de analistas júnior fazendo tarefas que hoje podem ser automatizadas, da análise inicial de dados à construção de apresentações. Esse arranjo começa a perder sentido à medida que ferramentas de IA assumem parte significativa do trabalho operacional.
Nos últimos dois anos, a própria McKinsey reduziu seu quadro global em mais de 10%, após atingir um pico de cerca de 45 mil funcionários. Novos cortes estão no radar, especialmente em áreas não ligadas diretamente ao atendimento a clientes. Ao mesmo tempo, a empresa acelerou o uso de agentes de IA internos.
Esse movimento não é isolado. O setor de consultoria como um todo tenta se reposicionar em um mercado no qual empresas já dominam análises básicas e buscam ajuda apenas para decisões mais complexas, implementação tecnológica e resultados mensuráveis. A Accenture, por exemplo, concordou recentemente em comprar a startup britânica Faculty por cerca de US$ 1 bilhão para reforçar sua atuação em IA aplicada a negócios.
No recrutamento, a transformação também afeta o perfil desejado. A McKinsey passou a rever vieses históricos do processo seletivo e abriu mais espaço para candidatos de formações não tradicionais, como humanidades. A aposta é que esses profissionais complementem limitações dos modelos de IA, especialmente quando o desafio exige pensamento não linear ou saltos conceituais, algo que algoritmos ainda fazem mal.