Inteligência Artificial

Produção de chips trava ambição da China em IA e amplia vantagem dos EUA

Restrição a semicondutores de ponta e diferença de investimentos deixam empresas chinesas atrás de rivais como Nvidia, OpenAI e Anthropic

Principal dificuldade da China é a produção de chips nacionais potentes (Getty Images)

Principal dificuldade da China é a produção de chips nacionais potentes (Getty Images)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 09h46.

A produção de chips de inteligência artificial se tornou o principal gargalo da China na disputa pela liderança do setor com os Estados Unidos. Mesmo com os avanços recentes, desenvolvedores chineses apontam que o país tem poucas chances de alcançar os concorrentes americanos no curto prazo, devido à limitação no acesso a semicondutores de ponta.

As informações foram relatadas por pesquisadores e executivos chineses ao jornal Wall Street Journal. Um deles é Tang Jie, fundador da startup chinesa de IA Zhipu, que aponta as diferenças estruturais entre as potências, especialmente em hardware, como um obstáculo central.

O diagnóstico ganhou força após a Nvidia apresentar, em janeiro, sua linha de processadores Rubin, considerada a mais avançada para aplicações de IA. No anúncio, apenas empresas americanas foram citadas como clientes iniciais.

Desvantagem estrutural e custos indiretos

Sem acesso direto aos processadores, empresas chinesas buscam alternativas para usar chips da Nvidia, como o aluguel de data centers no Sudeste Asiático e no Oriente Médio. A estratégia, já adotada no passado para acessar a geração Blackwell, é considerada legal, mas envolve processos e custos que adicionam entraves operacionais e ampliam a desvantagem da China frente aos EUA, que operam com acesso direto aos chips.

Esse desequilíbrio afeta as perspectivas do setor. Justin Lin, líder do modelo Qwen, da Alibaba, estimou em 20% ou menos a chance de uma empresa chinesa superar a OpenAI e a Anthropic nos próximos três a cinco anos. Ele afirma que, enquanto empresas americanas concentram esforços em desenvolvimento e pesquisa de ponta, a China precisa priorizar demandas comerciais.

Além disso, a política de exportação americana reforça o cenário ao desestimular investimentos chineses em IA de fronteira, enquanto os EUA ampliam seus investimentos em semicondutores mais potentes.

A desvantagem também passa pela questão de investimentos. Analistas do UBS estimam que o aporte de capital das principais empresas de internet da China — na maioria direcionado à IA — somou cerca de US$ 57 bilhões no ano passado. O valor equivale a aproximadamente um décimo do investimento realizado pelo setor nos EUA.

China está atrás, mas não fora da corrida

Apesar da desvantagem, o setor chinês de IA não pode ser descartado. Zhipu e MiniMax captaram, juntas, mais de US$ 1 bilhão em IPOs em Hong Kong só neste mês, por exemplo.

Além disso, empresas como a DeepSeek têm se adaptado bem à limitação de recursos ao implementar técnicas para aumentar a eficiência no treinamento de modelos e reduzir a defasagem em relação aos americanos. Segundo a organização Epoch AI, modelos da DeepSeek e da Alibaba reduziram essa diferença para cerca de quatro meses.

Ainda assim, os limites de hardware continuam: a DeepSeek tentou treinar seu modelo principal com chips menos avançados da Huawei e outros fornecedores locais, mas o desempenho foi abaixo do esperado. Com isso, a empresa recorreu à Nvidia.

IA vira ponto de inflexão na relação China-EUA

A inteligência artificial se tornou mais um capítulo na disputa comercial, tecnológica e geopolítica que já existia entre as duas potências. O setor passou a concentrar embates estratégicos ligados à infraestrutura computacional, em especial ao acesso a chips avançados.

Nesta semana, a agência Reuters revelou que autoridades alfandegárias chinesas foram instruídas a barrar a entrada dos chips de IA H200, na Nvidia, mesmo após o governo de Donald Trump autorizar sua exportação.

A medida ocorre enquanto empresas do país asiático demonstram forte demanda do produto, com encomendas que ultrapassam o volume de unidades disponíveis divulgado pela fabricante. Por outro lado, as autoridades tentam incentivar a adoção e o desenvolvimento de chips adicionais.

Vale dizer que o H200 está duas gerações atrás da linha Rubin e, hoje, já é considerado insuficiente para IA de ponta. Sendo assim, mesmo se o governo chinês der permissão total para a entrada dos semicondutores do país, o caminho para alcançar os EUA segue longo e não deve alterar o cenário atual.

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