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Filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, encerra o AI Summit EXAME com palestra que discute o desejo, controle, medo e limites da ação técnica (Eduardo Frazão/Divulgação)
Redação Exame
Publicado em 8 de junho de 2026 às 15h38.
A inteligência artificial pode resolver problemas práticos, ampliar a produtividade e criar riqueza, mas não oferece, por si só, uma resposta para o bem-estar humano. A questão envolve uma discussão antiga sobre desejo, controle, medo e limites da ação técnica. Esses pontos foram trazidos pelo filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé na palestra A Inteligência Artificial vai deixar os humanos mais felizes?, que encerrou o AI Summit EXAME, realizado em 2 de junho, em São Paulo.
Promovido pela EXAME em parceria com a Saint Paul, o evento reuniu especialistas e lideranças em mais de oito horas de conteúdo sobre IA aplicada aos negócios. A proposta foi conectar tecnologia, estratégia e gestão, com foco em decisões capazes de gerar valor para empresas e carreiras.
Pondé situou a discussão dentro de uma tradição filosófica de cerca de 2.500 anos. Para mostrar a antiguidade do tema, evocou a tragédia grega Prometeu Acorrentado, atribuída a Ésquilo, em que Prometeu entrega aos homens o segredo do fogo e é punido por Zeus. O fogo aparece como metáfora da técnica: permite cozinhar, iluminar, aquecer, defender e atacar, mas também carrega riscos.
A partir dessa imagem, Pondé aproximou o medo contemporâneo da IA de outras visões apocalípticas sobre tecnologia. A inteligência artificial desperta a suspeita de que a humanidade possa perder o controle sobre aquilo que criou. O filósofo, porém, disse não compartilhar esse tipo de pânico. “Eu, pessoalmente, não acho isso. E eu não experimento nenhum sentimento apocalíptico com relação à inteligência artificial. Talvez por mera ignorância, mas eu não experimento.”
O filósofo retomou a distinção, feita pelo escritor Umberto Eco, entre “apocalípticos” e “integrados”. Os primeiros imaginam catástrofes; os segundos, um futuro de delícias. Entre os apocalípticos, citou o historiador Yuval Harari, para quem o maior risco está na união entre IA e biotecnologia, capaz de gerar uma espécie distinta da atual. Pondé disse não partilhar desse receio.
Do lado oposto, criticou a expectativa dos integrados, segundo a qual a tecnologia libertaria o ser humano para, enfim, fazer o que deseja e exercer a criatividade. Na visão dele, as pessoas nem sempre sabem o que querem fazer, e mais tempo livre não garante mais sentido. “Para o que é que a gente existe? Quem disse que a gente vai saber?”, questionou.
A IA, em sua visão, está ligada à eficiência, à entrega de resultados e à reprodução do capital. Nesse ponto, citou o livro Sociedade do cansaço, do filósofo Byung-Chul Han, como referência para pensar uma sociedade orientada por desempenho, resultado, eficácia e eficiência. Para Pondé, o critério decisivo para o avanço da inteligência artificial não será a promessa de felicidade, mas sua capacidade de gerar produtividade e riqueza. Caso entregue valor econômico, a tecnologia será incorporada; caso contrário, “vai virar coisa de brinquedo, tipo game”, disse.
Essa lógica relativiza a ideia de que a IA necessariamente dará mais tempo livre às pessoas. Se a tecnologia reduzir o tempo necessário para uma atividade, esse ganho pode ser capturado pela empresa e se converter em risco de perda de emprego. “Porque, do ponto de vista do nosso sistema econômico, social e político, só fica de pé o que rende dinheiro”, resumiu.
Ao discutir felicidade, Pondé se afastou da ideia de bem-estar como satisfação imediata. Ele retomou a tradição antiga, especialmente a grega e a romana, segundo a qual uma vida feliz depende de virtudes, medida e relação adequada com aquilo que não se controla. A felicidade seria resultado de um esforço ao longo da existência, não de uma solução técnica pontual.
A reflexão estoica foi apresentada como contraponto ao impulso moderno de controlar tudo. Para os estoicos, a maior parte das coisas escapa ao domínio individual. O que pode ser controlado é o comportamento diante dos acontecimentos. Essa visão entra em tensão com a sociedade contemporânea, marcada por dados, metas, desempenho e tentativa de controlar um número crescente de variáveis. Para Pondé, quanto maior a pretensão de domínio sobre tudo, maior tende a ser a infelicidade.
Pondé também relacionou a discussão sobre felicidade à tradição epicurista. Ele observou que, no uso corrente, epicurista costuma designar alguém entregue a prazeres como comida, sexo e consumo. Para Epicuro, porém, prazer não significava submissão ao desejo, mas capacidade de não ser escravo dele. A busca da medida era central. “Onde há muito desejo, há muita frustração. Onde há muito desejo, muito risco de experiência de fracasso. Então, é recorrente essa ideia em civilizações antigas”, explicou. A felicidade, nesse sentido, sempre foi associada a algum tipo de contenção.
O palestrante citou ainda a leitura cristã, que projeta a felicidade plena para depois da morte, e o ensaio Mal-estar na civilização, de Freud, para quem a felicidade não parece fazer parte dos planos da criação e a natureza é indiferente ao sofrimento humano. A felicidade, nessa linha, seria sempre episódica.
A modernidade, observou Pondé, deslocou a felicidade para o campo do sentimento e do coração — algo que “se sente”. Nesse ambiente, querer ser feliz já pode se transformar em fonte de ansiedade. Segundo ele, a IA pode até ampliar essa ansiedade, mas não a inaugura.
Essa dimensão subjetiva também apareceu na discussão sobre relações afetivas mediadas pela tecnologia. Pondé observou que há pessoas que estabelecem vínculos pessoais com modelos de IA, o que pode funcionar como fuga em um contexto em que muitas pessoas têm dificuldade de suportar umas às outras. Segundo ele, a IA ainda tende a reforçar o usuário, ao oferecer uma confirmação contínua daquilo que ele deseja ouvir.
Ao retomar a pergunta central da palestra, Pondé sugeriu que a inteligência artificial seja vista como uma ferramenta, não como solução para a felicidade humana. Ela pode ajudar uma pessoa a ganhar dinheiro, resolver problemas, apoiar diagnósticos de saúde, controlar dados e gerar resultados. Mas também pode fazer empresas quebrarem e pessoas perderem o emprego. “A ideia de que, com a inteligência artificial, a gente vai passar a ser outra humanidade é uma ideia que a gente deve evitar, tanto no sentido negativo quanto no sentido positivo”, disse.