O CEO da OpenAI, Sam Altman, durante entrevista coletiva em Seul, em 4 de fevereiro de 2024 (AFP)
Repórter
Publicado em 13 de abril de 2026 às 10h48.
A OpenAI, desenvolvedora do ChatGPT, decidiu investir diretamente em produção de conteúdo ao adquirir um podcast em vídeo por valores estimados em "centenas de milhões de dólares". O movimento ocorre em meio à necessidade da empresa de convencer investidores sobre sua rentabilidade e o público sobre sua credibilidade.
Segundo reportagem do Financial Times, a companhia comprou o TBPN, um programa recente com estética que mistura televisão financeira e cultura automobilística. O conteúdo traz entrevistas com executivos do setor, incluindo o próprio Sam Altman, CEO da OpenAI, agora também integrado ao ecossistema midiático da empresa.
A estratégia reflete uma mudança mais ampla no comportamento de líderes empresariais. Executivos de tecnologia e finanças têm abandonado a mediação da imprensa tradicional para se comunicar diretamente com o público por meio de podcasts, blogs e redes sociais.
Esse fenômeno ganhou força no Vale do Silício, região conhecida por concentrar empresas de tecnologia nos Estados Unidos. Figuras como David Sacks, empreendedor e coapresentador do podcast "All-In", ilustram a convergência entre negócios, política e entretenimento. Ao mesmo tempo, empresas como a Andreessen Horowitz, firma de capital de risco, e Stripe, plataforma de pagamentos, passaram a investir em operações próprias de mídia.
A tendência também avança em Wall Street, centro financeiro de Nova York. Gestores de fundos, antes discretos, agora discutem estratégias publicamente. O fundo soberano da Noruega, liderado por Nicolai Tangen, mantém um dos podcasts mais relevantes do setor. Já textos influentes sobre economia têm surgido fora da imprensa tradicional, como em plataformas como Substack, serviço de newsletters.
Apesar da aparente novidade, o movimento tem precedentes históricos. Revistas corporativas foram populares no século 20, e executivos já atuaram como comunicadores, como Ronald Reagan, que apresentou um programa patrocinado pela General Electric antes de entrar na política.
A diferença atual está na personalização. As marcas pessoais dos executivos passam a competir ou até substituir a identidade institucional das empresas. Esse deslocamento altera a forma como decisões corporativas são percebidas e debatidas publicamente.
Ao mesmo tempo, o avanço desse modelo traz contradições. Embora amplie o acesso a informações especializadas, também reduz o papel crítico da imprensa. Casos recentes mostram que a comunicação direta pode expor visões controversas de líderes empresariais, sem o mesmo nível de questionamento externo.
No limite, a expansão desse "complexo industrial da conversa", como descrevem analistas, sugere uma reconfiguração do ecossistema informativo, em que empresas deixam de ser apenas fontes e passam a atuar como produtoras e distribuidoras de conteúdo.