Uma avaliação de mercado de US$ 4,7 trilhões coloca uma empresa em outro patamar e cada balanço vira um teste sobre o futuro de um setor inteiro. Na quarta-feira, 25, a Nvidia (NVDA) entrou no ringue carregando o peso de ser o principal termômetro da economia de inteligência artificial (IA), ainda mais em tempos de temores sobre uma bolha.
Os números vieram acima das estimativas, mais uma vez. Ainda assim, as ações oscilaram, chegaram a cair até 1,5% durante a teleconferência e fecharam praticamente estáveis. O mercado já não discute o trimestre encerrado em janeiro. A pergunta mudou: até onde esse ciclo pode ir — e por quanto tempo?
Os números que sustentam a tese
No quarto trimestre fiscal, encerrado em 25 de janeiro, a Nvidia registrou receita de US$ 68,1 bilhões, alta de 73% na comparação anual. O lucro ajustado foi de US$ 1,62 por ação, acima da projeção de US$ 1,53. A margem bruta ajustada atingiu 75,2%.
A unidade de data center somou US$ 62,3 bilhões, acima das estimativas. O segmento de gaming ficou em US$ 3,73 bilhões, abaixo do esperado.
Para o primeiro trimestre fiscal, a companhia projetou cerca de US$ 78 bilhões em receita, superando o consenso próximo de US$ 72 bilhões. Parte do mercado trabalhava com números próximos de US$ 80 bilhões.
Para diretor da Nvidia no Brasil, não há bolha: 'Estamos só começando a era da IA'
Durante a teleconferência, o CEO Jensen Huang reiterou que a demanda por computação continua crescendo em ordem de magnitude anual. A empresa iniciou o envio de amostras do chip Vera Rubin, com embarques mais amplos previstos para o segundo semestre de 2026.
A companhia também reforçou o foco em inference, incluindo integração com a Groq, e confirmou estar próxima de concluir um acordo estratégico com a OpenAI dentro de um projeto de infraestrutura que pode atingir US$ 100 bilhões.
O debate mudou: 2027 e 2028
Para Gene Munster, da Deepwater Asset Management, o ponto central não é mais o crescimento de 2026, mas o que acontece depois.
“O verdadeiro debate é como será o crescimento em 2027 e 2028”, escreveu. “Se estamos no quinto inning, o crescimento será mais modesto. Se estamos no segundo inning, que é o que eu acredito, o crescimento permanece forte.”
Munster projeta que a receita de 2026 pode crescer perto de 65%, acima dos 55% atualmente estimados pelo mercado.
Para 2027, enquanto o consenso aponta cerca de 28%, a Deepwater trabalha com cenário próximo de 40%, caso a fase de inference se confirme como maior do que o treinamento.
Ele também destaca que janeiro e fevereiro marcaram avanço concreto na utilidade da IA, com sistemas capazes de executar tarefas reais.
Essa mudança aumentou a sensibilidade do mercado a anúncios de disrupção, mesmo antes de impactos financeiros aparecerem.
Capex acelera, retorno entra no radar
As grandes empresas de tecnologia ampliaram investimentos. A Amazon indicou capex para 2026 cerca de 25% acima do esperado.
O Google projetou nível aproximadamente 50% superior às estimativas anteriores, implicando crescimento anual próximo de 98%. A Meta pode encerrar o ano com aumento perto de 80%.
O volume total de investimento em IA pode atingir entre US$ 630 bilhões e US$ 700 bilhões em 2026, após cerca de US$ 2 trilhões já aplicados até 2025.
Parte do mercado interpreta esse movimento como risco de retorno diluído no tempo.
Entre estrutura e “PIB fantasma”
O resultado também ocorre após o relatório da Citrini Research, que descreveu um cenário de “crise global de inteligência” em 2028, com desemprego nos Estados Unidos em 10,2% e queda de 38% no S&P 500, caso a IA substitua trabalho humano em larga escala.
O conceito de “Produto Interno Bruto (PIB) fantasma” descreve crescimento produtivo concentrado em máquinas, sem circulação de renda.
O 'bom problema' da Nvidia, a empresa mais valiosa do mundo
Para Celso Brandão, CEO da AVEX AI LAB, os números atuais não indicam reversão do ciclo.
“Projetar US$ 78 bilhões no trimestre coloca a empresa em um novo patamar. Não é normalização”, afirma. “Mas nesse valuation, o mercado exige execução consistente.”
O teste continua
A Nvidia afastou o risco imediato de desaceleração. A margem permanece acima de 75%. O guidance superou estimativas. A demanda por data centers segue elevada.
Mas o teste da empresa mais valiosa do mundo não é sobre o próximo trimestre, mas sim sobre a duração do ciclo, o retorno do capital investido e a capacidade de manter liderança em um mercado que começa a precificar não apenas crescimento — mas os limites dele.
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