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Cinthia Nespoli, CEO da Pearson Brasil: executiva analisa o impacto e a preparação das universidades e do mercado de trabalho para a IA (Pearsons/Divulgação)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 08h58.
O Brasil tem a maior expectativa de aceleração da inteligência artificial (IA) entre os seis países analisados por um novo estudo global: 76% dos empregadores brasileiros acreditam que o ritmo das mudanças trazidas pela tecnologia vai aumentar nos próximos dois anos — mais até do que os Estados Unidos e o Reino Unido, mercados historicamente associados à vanguarda tecnológica. Ao mesmo tempo, o país também registra um dos maiores graus de ceticismo sobre se suas próprias universidades estão preparadas para essa transformação.
Segundo o estudo "Preparação para a IA: Construindo a ponte entre o ensino superior e o mercado de trabalho no Brasil", feito pela Pearson em parceria com a Amazon Web Services (AWS), 74% dos estudantes e 74% dos empregadores brasileiros acreditam que a IA torna a universidade mais essencial, não menos.
Em entrevista exclusiva à EXAME, a CEO da Pearson no Brasil, Cinthia Nespoli, afirmou que o país "não está começando do zero".
"28% dos líderes brasileiros classificam o investimento institucional em IA como significativo, contra 10% nos Estados Unidos e 10% no Reino Unido. Então, não estamos começando do zero. O próximo passo é transformar boas iniciativas e investimentos em capacidade consistente, responsável e escalável", diz.
A pesquisa ouviu 2.711 pessoas em seis países, das quais 500 no Brasil. Apesar da confiança no valor da universidade, apenas 17% dos estudantes acham que suas instituições estão de fato acompanhando essa transformação — abaixo da média de 21% registrada nos demais mercados pesquisados.
IA premiada em Harvard para análise de câncer de pele será usada no SabinPara Nespoli, esse hiato não vem de falta de consciência sobre a urgência da mudança. 80% dos líderes de ensino superior brasileiros já reconhecem que as mudanças provocadas pela IA acontecem de forma rápida ou extremamente rápida.
"É preciso preparar professores, rever experiências de aprendizagem, criar regras claras para o uso responsável da IA e manter uma conexão muito mais dinâmica com o mercado de trabalho", afirma.
Para Nespoli, a distância entre teoria e prática não nasceu com a IA — a tecnologia apenas escancarou um descompasso que já existia entre universidade e mercado.
No Brasil, 42% dos empregadores apontam a distância entre conhecimento acadêmico e aplicação no trabalho como barreira à contratação, e outros 42% citam a falta de experiência com ferramentas de IA usadas no ambiente profissional.
Segundo ela, o gap mais importante não está em qual ferramenta se ensina, mas sim em "saber quando usar, avaliar a qualidade do resultado, reconhecer limitações e tomar uma decisão a partir dele."
"O fio que conecta essas pesquisas é justamente a necessidade de reduzir a distância entre aprender e conseguir aplicar", afirma.
O estudo também aponta um desencontro de prioridades entre quem forma e quem contrata.
Os líderes de ensino superior identificam corretamente o uso de ferramentas de IA como uma das principais exigências dos empregadores, mas subestimam em dez pontos percentuais a importância que o mercado atribui à comunicação e colaboração.
Para a executiva, "isso mostra que não há uma discordância sobre a importância da IA". "Estudantes, instituições e empresas reconhecem a transformação. A diferença está em quais dimensões da preparação cada grupo prioriza", diz Nespoli.
Segundo a pesquisa, 63% dos líderes de ensino superior brasileiros relatam interações frequentes ou muito frequentes com empregadores, uma das taxas mais altas do estudo. "O próximo passo é transformar relacionamento em mecanismos sistemáticos que ajudem a orientar currículos, experiências e competências", afirma.
Para os próximos anos, Nespoli resume o que separa universidades que vão se adaptar bem das que vão ficar para trás. Segundo ela, o maior erro seria confundir adoção com prontidão: disponibilizar ferramentas e considerar que o trabalho está concluído.
"O maior acerto seria investir nas pessoas ao mesmo tempo em que se investe na tecnologia: preparar professores, oferecer experiências práticas, estabelecer uma governança clara e aproximar a aprendizagem das necessidades reais do trabalho."