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Estágios, trainees e IA: por que empresas precisam repensar a formação de jovens profissionais (Magnific/Reprodução)
Jornalista
Publicado em 20 de julho de 2026 às 17h10.
A inteligência artificial já mudou a forma como empresas executam tarefas administrativas, analisam informações e automatizam processos. Agora, a tecnologia começa a provocar uma transformação menos visível, mas igualmente relevante: a maneira como organizações formam profissionais em início de carreira.
Segundo um levantamento da Leapy, plataforma especializada na formação de jovens talentos, 82% das empresas ainda não definiram como adaptar programas de aprendizes, estagiários e trainees ao avanço da IA. O estudo ouviu 22 lideranças responsáveis por esses programas em grandes empresas brasileiras.
A mudança acompanha uma tendência observada em diferentes mercados. Dados da consultoria Revelio Labs apontam que as vagas de entrada caíram 35% nos últimos 18 meses. Já pesquisas da Anthropic indicam redução nas contratações de jovens em ocupações mais expostas à automação.
No Brasil, um estudo da FGV, baseado em dados da PNAD Contínua do IBGE, mostra que os impactos da IA sobre emprego e renda já são mais perceptíveis entre pessoas de 18 a 29 anos.
Grande parte desse movimento está relacionada à substituição de atividades repetitivas. Processos como organização de informações, produção de relatórios, pesquisas e análises básicas passaram a ser executados por sistemas de IA, reduzindo parte das responsabilidades tradicionalmente atribuídas aos profissionais iniciantes.
Segundo a pesquisa da Leapy, 45% das empresas ainda nem iniciaram discussões sobre como redesenhar seus programas de formação.
Para Matheus Fonseca, cofundador da empresa, o risco não está apenas na automação das tarefas, mas na eliminação das experiências que ajudam profissionais a desenvolver pensamento crítico ao longo da carreira.
Esse fenômeno foi chamado pela empresa de "Superagency Trap", conceito que descreve uma situação em que a IA aumenta a produtividade no curto prazo, mas reduz oportunidades de aprendizado para quem está começando.
Na prática, um profissional que deixa de realizar atividades básicas pode ter menos oportunidades para compreender processos, identificar erros e desenvolver capacidade de decisão antes de assumir funções mais estratégicas.
O levantamento mostra uma diferença entre incentivar e preparar.
Enquanto 59% das empresas afirmam estimular o uso de inteligência artificial no dia a dia dos jovens profissionais, apenas 14% criaram trilhas estruturadas de desenvolvimento voltadas à tecnologia.
Isso significa que muitos estagiários e trainees já utilizam ferramentas de IA, mas nem sempre recebem orientação sobre boas práticas, limitações da tecnologia ou formas de utilizar essas soluções para apoiar decisões.
Especialistas apontam que competências como pensamento crítico, capacidade analítica, comunicação e julgamento humano tendem a ganhar ainda mais importância à medida que atividades operacionais passam a ser automatizadas.
Para jovens profissionais, dominar ferramentas de IA pode deixar de ser um diferencial para se tornar uma habilidade básica.
Ao mesmo tempo, empresas precisarão revisar programas de estágio e trainee para que o aprendizado não dependa apenas de tarefas repetitivas. O desafio passa a ser criar experiências capazes de desenvolver competências que complementem a inteligência artificial, em vez de competir com ela.