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Empatia sintética: como a IA pode afastar seus funcionários em vez de aproximar (Magnific)
Jornalista
Publicado em 6 de outubro de 2026 às 16h27.
Uma mensagem de reconhecimento, um feedback difícil ou um comunicado sobre mudanças exige mais do que clareza. A forma como essas informações são transmitidas também influencia a percepção de confiança e proximidade entre profissionais.
É nesse ponto que surge o conceito de “empatia sintética”: o uso de inteligência artificial para produzir textos que imitam sinais de cuidado, compreensão e acolhimento em situações que envolvem relações humanas.
A inteligência artificial pode melhorar a redação, mas pesquisas recentes indicam que isso não significa necessariamente que a mensagem será percebida como mais empática.
Um estudo publicado em 2026 na revista Computers in Human Behavior analisou como profissionais avaliavam mensagens de liderança escritas com diferentes níveis de participação da IA.
Quando a tecnologia era usada apenas para melhorar a redação, não houve diferença relevante na percepção dos participantes. Já quando a IA era responsável por gerar praticamente toda a mensagem, as avaliações de empatia, credibilidade e qualidade do feedback foram menores.
A diferença está no papel atribuído à tecnologia. Corrigir uma frase ou reorganizar um texto é diferente de pedir que um sistema produza, do início ao fim, uma mensagem destinada a um funcionário.
Na prática, um gestor pode usar inteligência artificial para transformar “seu desempenho caiu nos últimos meses” em um texto mais acolhedor, com frases sobre reconhecimento, desenvolvimento e apoio.
O resultado pode ser linguisticamente melhor, mas também pode parecer genérico ou calculado para quem recebe.Outra pesquisa, publicada em 2026 na Computers in Human Behavior: Artificial Humans, avaliou como pessoas percebiam textos produzidos por humanos, com auxílio de IA, ou integralmente por IA.
O experimento encontrou uma espécie de “penalidade da IA”: mensagens associadas à tecnologia foram consideradas menos confiáveis, autênticas e úteis em determinadas situações. O estudo envolveu 547 participantes e incluiu o contexto de e-mails profissionais.
A percepção também aparece em pesquisas sobre empatia. Um estudo publicado na Nature Human Behaviour reuniu nove experimentos com 6.282 participantes e descobriu que respostas empáticas atribuídas a humanos eram avaliadas como mais empáticas e acolhedoras do que respostas atribuídas à IA.
Isso ajuda a explicar por que um texto muito polido pode não produzir o efeito esperado. Em uma conversa profissional sensível, a intenção percebida pode importar tanto quanto a qualidade da escrita.
Isso não significa que a tecnologia precise ficar fora de toda comunicação interna.
O estudo sobre comunicação de liderança encontrou uma diferença importante: baixo uso de IA, como ajustes de linguagem, não prejudicou a avaliação das mensagens. O problema apareceu quando a ferramenta assumiu uma participação maior na elaboração do conteúdo.
Uma aplicação possível é usar a inteligência artificial como uma espécie de editor. O profissional pode escrever primeiro os pontos que realmente deseja transmitir e depois pedir sugestões para tornar o texto mais claro, direto ou menos agressivo.
Nesse cenário, a decisão sobre o que dizer e por quê continua sendo humana.
O risco aumenta quando a mensagem envolve desempenho, promoção, demissão, conflito ou reconhecimento.
Nessas situações, o funcionário não avalia somente as palavras. Ele também pode interpretar quem dedicou tempo à conversa, se o gestor conhece seu trabalho e se existe abertura para responder ou questionar.
Uma pesquisa apresentada na Academy of Management Proceedings em 2026 analisou especificamente o feedback negativo produzido por humanos e por IA. O estudo encontrou respostas diferentes dependendo da origem percebida da mensagem, mostrando que a tecnologia pode alterar a experiência emocional associada ao feedback.
Por isso, substituir uma conversa por um texto gerado automaticamente pode criar uma distância que nenhum conjunto de frases empáticas consegue compensar.
Para o profissional, identificar o uso da inteligência artificial em uma comunicação pode ser difícil. Estudos recentes mostram que as pessoas nem sempre conseguem perceber quando um texto foi produzido ou aprimorado por IA.
Ao mesmo tempo, quando a participação da tecnologia é revelada, a avaliação pode mudar. Uma pesquisa publicada em 2026 encontrou efeitos negativos sobre percepções de autenticidade e confiança quando a comunicação era associada à IA.
O desafio, portanto, não está apenas em usar ou não usar IA. Está em definir quais partes da comunicação podem ser automatizadas sem eliminar elementos que dependem de contexto, responsabilidade e relacionamento.
Em comunicados rotineiros, a tecnologia pode ajudar na edição e na organização. Em conversas que envolvem confiança, reconhecimento ou conflito, a participação humana continua sendo um componente relevante da comunicação.