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Joseph Weizenbaum, criador do ELIZA, passou as décadas seguintes alertando sobre os perigos da própria invenção (Instituto Weizenbaum/Reprodução)
Repórter de Projetos Especiais
Publicado em 11 de maio de 2026 às 17h55.
Joseph Weizenbaum era um cientista da computação respeitado no MIT quando, em 1966, lançou um programa que mudaria a história da inteligência artificial. Chamava-se ELIZA. Era simples, quase rudimentar para os padrões de hoje. Mas o que aconteceu depois deixou Weizenbaum desconfortável pelo resto da vida.
Pessoas começaram a se apegar emocionalmente ao programa. Algumas pediam para ficar sozinhas na sala enquanto conversavam com ele. A própria secretária de Weizenbaum, que sabia perfeitamente que ELIZA era apenas um software escrito por seu chefe, pediu privacidade ao usá-lo. O criador olhou para aquilo e percebeu que tinha aberto uma porta perigosa — décadas antes do ChatGPT existir.
ELIZA não pensava. Não compreendia emoções. Não tinha consciência. Seu funcionamento era baseado em identificar palavras-chave digitadas pelo usuário e reorganizar frases para devolver respostas que pareciam naturais.
A versão mais famosa do sistema simulava um psicoterapeuta. Em vez de responder diretamente às perguntas, o programa devolvia comentários e questionamentos. Se alguém escrevesse "Estou me sentindo triste", o ELIZA respondia: "Por que você está se sentindo triste?". Se a pessoa dissesse "Minha mãe me irrita", o programa rebatia: "Conte-me mais sobre sua família".
A técnica criava a impressão de escuta ativa. E foi suficiente para fazer pessoas adultas, conscientes de que falavam com uma máquina, baixarem a guarda.
Weizenbaum imaginava que ELIZA seria uma demonstração técnica, quase uma piada acadêmica sobre os limites da interação homem-máquina. O resultado foi o oposto. Os usuários atribuíam ao programa empatia, escuta e compreensão — qualidades que ele simplesmente não tinha.
Computador semelhante aos usados nos anos 1960, época em que o ELIZA foi criado no MIT (Reprodução/Freepik)
Mais do que isso: muitos passaram a preferir conversar com ELIZA do que com pessoas reais. Era mais fácil. O programa não julgava, não interrompia, não trazia opiniões inconvenientes. Apenas devolvia a pergunta.
O pesquisador relatou posteriormente que ficou perturbado com a rapidez com que isso aconteceu. Passou os anos seguintes se transformando em um dos primeiros críticos públicos da própria área que ajudou a fundar, escrevendo livros e dando entrevistas alertando sobre os riscos de delegar à máquina aquilo que deveria ser humano.
A reação dos usuários acabou originando o chamado "efeito ELIZA": o termo usado até hoje para descrever situações em que pessoas atribuem inteligência, empatia ou compreensão humana a programas de computador, mesmo quando eles operam apenas por padrões automáticos.
O conceito está mais atual do que nunca. Em 2024, milhões de pessoas no mundo todo passaram a usar aplicativos como Replika e Character.AI para conversar com "namorados virtuais", terapeutas de IA e personagens fictícios. Houve casos de usuários que entraram em crise emocional quando empresas alteraram o comportamento dos chatbots. A discussão que Weizenbaum começou em 1966 nunca foi tão urgente.
Especialistas alertam que esses sistemas, por mais sofisticados que pareçam, continuam funcionando por processamento de linguagem e padrões estatísticos. Não há consciência. Não há sentimento. Há simulação convincente o suficiente para enganar o cérebro humano — exatamente como ELIZA já fazia há 60 anos.
Apesar das limitações técnicas, ELIZA se tornou um marco da computação e da inteligência artificial conversacional. O programa demonstrou, ainda nos anos 1960, o potencial das máquinas para criar interações que pareciam humanas — e antecipou discussões éticas que continuam abertas: confiança em sistemas automatizados, dependência emocional, manipulação por algoritmos, e os limites entre comunicação humana e tecnologia.
Weizenbaum morreu em 2008, anos antes do boom da IA generativa. Mas o alerta que ele deixou continua válido. Uma conversa convincente nem sempre significa compreensão real. E o cérebro humano, ao que tudo indica, ainda não aprendeu a notar a diferença.