Inteligência Artificial

Cerca de R$ 855 bi seriam perdidos sem os avanços da IA na personalização de produtos

Pesquisa estima queda de 1,64% no PIB em cenário extremo de proibição e alerta para efeitos em cadeia sobre produtividade e indústria

André Lopes
André Lopes

Repórter

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 13h51.

Um cenário de proibição total da inteligência artificial personalizada poderia gerar uma perda acumulada de R$ 855 bilhões para a economia brasileira ao longo de dez anos. A estimativa faz parte do estudo “A Dimensão Econômica da Personalização”, elaborado pelo Reglab, centro de pesquisa dedicado a tecnologia e regulação.

O trabalho parte de um exercício hipotético: a vedação completa ao uso de sistemas de IA capazes de adaptar conteúdos, interfaces ou funcionalidades a usuários individuais. Embora reconheça que se trata de um cenário extremo, o estudo defende que ele funciona como referência para medir os efeitos econômicos de restrições mais moderadas atualmente em debate no campo regulatório.

Segundo o Reglab, a personalização não se limita a conveniência ou marketing digital. Ela aparece como um fator estrutural de produtividade, ao permitir desde a automação de tarefas cognitivas até a melhoria de processos industriais, logísticos e agrícolas.

A pesquisa integra uma agenda mais ampla do centro, que analisa a IA para além do viés regulatório, avaliando impactos sobre competitividade industrial e crescimento econômico. Estudos anteriores do grupo já haviam examinado efeitos da regulação sobre o setor produtivo e alternativas técnicas para o uso responsável da tecnologia.

Produtividade como ponto de partida

A base do cálculo está na literatura econômica que associa a restrição ao uso de IA para personalização — tanto de produtos quanto dos próprios sistemas — a um choque negativo de 1% na produtividade. Em termos práticos, isso significa que uma hora de trabalho que antes gerava 100 unidades de produção passaria a gerar apenas 99.

A partir desse impacto inicial, o Reglab aplicou um modelo de equilíbrio geral, metodologia que considera as interdependências entre setores da economia. O resultado indica que o efeito agregado ao longo de uma década seria uma retração de 1,64% do PIB brasileiro, valor superior ao choque original devido aos efeitos em cadeia.

Indústrias mais conectadas a outras cadeias produtivas seriam as mais afetadas. Entre elas estão refino de petróleo, metalurgia e agropecuária, setores que amplificam choques econômicos por sua relevância transversal. Se a demanda por automóveis cai, por exemplo, o impacto se estende automaticamente à produção de aço e a outros insumos.

Segundo João Ricardo Costa Filho, coordenador do Núcleo de Economia Aplicada do Reglab, o exercício não busca prever um cenário provável, mas oferecer parâmetros objetivos ao debate público. “É importante saber onde a régua começa e termina para avaliar os efeitos de restrições intermediárias”, afirma.

Infraestrutura econômica, não apenas funcionalidade

Para Pedro Henrique Ramos, diretor-executivo do Reglab e um dos autores do estudo, a personalização deve ser entendida como uma infraestrutura econômica. “O estudo demonstra que ela vai além de uma funcionalidade de conveniência, sendo essencial para ganhos de produtividade”, diz.

Nesse sentido, o trabalho defende que o debate regulatório sobre IA envolva não apenas questões de proteção de dados e direitos individuais, mas também setores produtivos como indústria e agropecuária. Segundo os autores, análises de impacto precisam considerar efeitos sobre produtividade e atividade econômica como um todo.

Ao mesmo tempo, o estudo ressalta que o olhar econômico não deve ser o único. A própria pesquisa aponta a necessidade de diferenciar o que é personalizado, para quem, de que forma e com base em quais dados. Questões como origem das informações, transparência e comunicação ao usuário aparecem como elementos centrais para políticas públicas mais equilibradas.

A pesquisa foi financiada pela Facebook Serviços Online do Brasil Ltda., empresa do grupo Meta. O Reglab afirma que o estudo foi desenvolvido de forma independente, sem interferência da companhia no método, na análise ou na interpretação dos resultados.

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