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Satya Nadella: CEO Microsoft em evento da Microsoft na cidade de São Paulo. (Leandro Fonseca/Exame)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 28 de julho de 2026 às 10h45.
O CEO da Microsoft, Satya Nadella, endureceu o tom de um alerta que já havia dado no início do mês: empresas que terceirizam toda a sua operação de inteligência artificial para um único laboratório não vão sobreviver. A declaração, feita no domingo ao programa "Fareed Zakaria GPS", da CNN, aprofunda o aviso que Nadella publicou há duas semanas, quando comparou o risco da IA para as empresas ao que a globalização fez com a indústria.
"Qualquer empresa que não tenha esse controle, eu afirmo, deixará de ser uma empresa, porque terá essencialmente terceirizado seu próprio pensamento", disse Nadella. O raciocínio: ao entregar dados, prompts e conhecimento interno a um modelo de terceiros, a companhia abre mão daquilo que a diferencia, e nada impede que o próprio fornecedor de IA use esse aprendizado para, mais tarde, oferecer um serviço concorrente.
Na prática, Nadella defende que as empresas retenham todos os metadados de cada interação com um modelo, o registro de como usam a IA, para, no futuro, treinar pesos próprios ou um modelo aberto. "Pesos" são os parâmetros treinados de um sistema, o equivalente ao seu cérebro. A ideia é que a empresa acumule o suficiente para, um dia, construir o próprio modelo, em vez de ficar refém de um.
O executivo mira um alvo específico: as ferramentas de programação embutidas nos modelos, conhecidas no jargão como harnesses — e cita nominalmente o Claude Code, da Anthropic, e o Codex, da OpenAI, como exemplos. Sua recomendação é manter esse "arreio" separado do modelo.
"Ao manter o harness separado do modelo, e o contexto e a memória separados do modelo, você pode usar múltiplos modelos para aquilo em que cada um é bom. E qualquer modelo pode desaparecer, que você continua no controle do próprio destino", afirmou.
Há uma camada difícil de ignorar nesse conselho. A Microsoft é investidora dos dois maiores laboratórios de IA do mundo, a OpenAI e a Anthropic, justamente as empresas cujas ferramentas Nadella está pedindo para os clientes não abraçarem cegamente. Mais: os agentes de programação são hoje uma das formas mais lucrativas de uso corporativo de IA, rendendo fortunas a esses laboratórios.
Ao mesmo tempo, a Microsoft vende exatamente o tipo de infraestrutura alternativa que Nadella recomenda, as camadas de gerenciamento que permitem rodar vários modelos e trocar de fornecedor sem depender de um só. Ou seja, o alerta é, também, um argumento de vendas. Mas isso não o torna falso.
A tese de Nadella ecoa uma preocupação real do mercado. As empresas vêm percebendo que precisam de múltiplas opções de modelo, sobretudo mais baratas, e passaram a recorrer a modelos de pesos abertos, que podem ajustar e rodar no próprio hardware. Isso exige, por sua vez, ferramentas para gerenciar vários modelos e agentes de programação que não estejam presos a um fornecedor específico, os chamados AI gateways.
O receio de fundo é o mesmo que assombra o mundo das startups há anos: o que impede um fabricante de modelo de copiar e engolir quem construiu em cima dele?
Em maio, quando o CEO da OpenAI, Sam Altman, ofereceu créditos de IA a todas as startups de uma turma da Y Combinator, o investidor Jason Calacanis fez um alerta parecido: "Se você aceitar esses tokens, há uma chance não desprezível de a OpenAI estudar exatamente o que sua startup faz, copiar a ideia e colocar seu app na oferta gratuita dela". Nadella agora faz o mesmo aviso, só que dirigido às grandes empresas.