Vittorio Perona, do BTG Pactual, e Consuelo Remmert, da Palantir: painel debateu o papel do Brasil como hub energético e digital na expansão global da IA (Brazil House/Divulgação)
Editora de projetos especiais
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 18h46.
* De Davos, na Suíça
A corrida global por inteligência artificial está deixando um recado claro para governos e empresas: sem energia abundante e barata, não há algoritmo que se sustente. A boa notícia é que, com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, o Brasil passou a ser visto por bancos, empresas de energia e gigantes da IA como um candidato natural a sediar grandes data centers — a infraestrutura invisível que sustenta a revolução da inteligência artificial.
Esse foi o tema do painel “Enfrentando o desafio energético da IA: o papel estratégico do Brasil” na nova era, que reuniu Vittorio Perona, chefe de cobertura de energia do BTG Pactual, e Consuelo Remmert, diretora global de assuntos institucionais da Palantir.
A discussão partiu de um ponto concreto: data centers consomem volumes gigantescos de eletricidade, exigem previsibilidade de fornecimento e pressionam preços em mercados maduros. Nesse cenário, o Brasil reúne atributos que hoje são raros em conjunto — energia limpa, escala, custo competitivo e capacidade de expansão.
Para a Palantir, a vantagem brasileira começa antes mesmo dos dados. Consuelo Remmert apresentou um modelo interno da empresa que organiza a cadeia de valor da IA em camadas, começando pela base energética.
“Quando pensamos na cadeia de valor da IA, gostamos de usar um framework desenvolvido por um dos nossos fundadores, Joe Lonsdale. Ele divide essa cadeia em cinco camadas — na verdade, seis, começando pela camada zero. A camada zero é a energia necessária para alimentar a inteligência artificial.”
Segundo ela, a revolução da IA será, inevitavelmente, também uma revolução do consumo de energia — e poucos países estão preparados para isso. “A matriz elétrica brasileira, com quase 90% de fontes renováveis, é uma proposta de valor impressionante. Essa é a camada zero da cadeia de investimentos em IA.”
Esse diferencial explica por que grandes data centers começam a olhar o país como destino natural. Energia disponível, limpa e a custos previsíveis se tornou um ativo estratégico.
Depois da energia vêm os chips, os data centers e, acima deles, a camada onde a Palantir atua com mais intensidade: a infraestrutura de dados. É ali que modelos de IA deixam de ser promessas e passam a gerar impacto concreto.
“Sabemos que modelos de IA funcionam melhor quando operam sobre dados bem-organizados e bem gerenciados. É isso que a Palantir oferece: a infraestrutura de dados sobre a qual esses modelos podem gerar impacto real, em escala e com muita rapidez.”
Na avaliação de Consuelo, o Brasil tem algo que falta em muitos mercados: disposição para fechar o ciclo completo da IA, da energia às aplicações finais. “O que torna o Brasil particularmente interessante é que ele parece ser o país perfeito para fechar esse ciclo completo entre as seis camadas.”
Do lado do setor elétrico, Vittorio Perona foi direto ao ponto: transformar o Brasil em um hub global de data centers pode repetir movimentos históricos de geração de riqueza do país. “Transformar o Brasil em um hub global de data centers é uma oportunidade tão grande quanto as ondas anteriores de criação massiva de valor no país.”
O executivo lembrou que o Brasil soube converter recursos naturais em liderança global — do café ao minério, do agronegócio ao pré-sal — e que o setor elétrico pode ser o próximo capítulo. “O país tem recursos naturais não explorados suficientes para construir entre 30 e 40 gigawatts adicionais de energia eólica, com fator de capacidade acima de 50%.”
Esse número faz diferença. Enquanto projetos nos Estados Unidos ou na Europa costumam ter fator médio de 30%, a eficiência brasileira permite algo quase impensável hoje. “Isso significa que o Brasil pode alimentar entre 30 e 40 gigawatts em data centers sem aumentar o preço da eletricidade — algo raríssimo no mundo.”
Outro ponto crítico é a rede de transmissão. Segundo Perona, o Brasil construiu ao longo de décadas uma expertise que hoje falta a economias avançadas. “O Brasil desenvolveu expertise em construir linhas de transmissão de longa distância porque sempre gerou energia longe dos centros de consumo. Hoje, empresas americanas contratam engenheiros brasileiros porque simplesmente não há profissionais suficientes lá.”
Essa capacidade se soma a um contexto geopolítico favorável. Com limitações internas, os Estados Unidos precisarão buscar energia fora. A China, por sua vez, também tende a instalar data centers em outros países. “O Brasil reúne energia abundante, barata, estabilidade política e capacidade de expansão da transmissão. Pouquíssimos países têm tudo isso.”
Além da infraestrutura física, há um fator menos tangível, mas decisivo: a cultura de adoção tecnológica. Consuelo destacou que o Brasil combina talento técnico com disposição para experimentar. “A Palantir contrata engenheiros brasileiros no mundo todo. O Brasil tem uma cultura de engenharia muito forte, com escolas de excelência.”
Ela citou exemplos concretos, como o Pix e a digitalização do setor público. “Nos EUA ainda não existe algo como o Pix. No Brasil, são mais de 150 milhões de pessoas usando pagamentos instantâneos. O gov.br também é fantástico, com mais de 4 mil serviços digitais.”
Em um mundo pressionado por energia, alimentos e capacidade tecnológica, o país reúne ativos difíceis de replicar: matriz elétrica limpa, escala territorial, reservas naturais, talento técnico e um mercado interno capaz de absorver inovação.
“As vantagens estruturais do Brasil — energia, recursos naturais, alimentos, talento e cultura de inovação — são muito mais duradouras do que qualquer volatilidade política”, finalizou Perona.