Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 28 de janeiro de 2026 às 08h39.
A manutenção da Selic nesta quarta-feira, 28, pelo Comitê de Política Monetária (Copom) já está precificada pelo mercado. O que os economistas e analistas estão de olho é nas indicações que o BC poderá dar sobre os próximos passos.
Na avaliação de Andrea Bastos Damico, CEO da Buysidebrazil, em entrevista à EXAME, o BC deve sinalizar um corte na taxa de juros em março na decisão.
Para a economista, três elementos são favoráveis para essa sinalização: o ambiente global desinflacionário, reforçado pela exportação de deflação pela China, o dólar mais fraco e real valorizado, além do processo de desinflação consistente no Brasil.
Segundo Andrea, embora o cenário internacional apresente maior incerteza neste início de 2026, os fatores relevantes para a política monetária brasileira continuam favoráveis.
Ela destacou que o ambiente global permanece desinflacionário, mesmo com as turbulências recentes envolvendo a ação do governo Donaldo Trump na Venezuela e a ameaça de ataque ao Irã.
"Foram vários novos pontos de incerteza que surgiram, isso é fato, mas a ideia mais mais relevante de um cenário internacional ainda desinflacionário segue mantida", afirma.
Segundo Damico, dois elementos principais sustentam o cenário de queda da inflação no mundo: a exportação de deflação da China, especialmente de bens manufaturados, e o dólar mais fraco. Os fatores favorecem principalmente emergentes.
"Esse é um primeiro ponto do cenário externo: reconhecer que a incerteza aumentou, mas os fatores relevantes para a política monetária ainda são favoráveis para a inflação interna vinda do exterior"
"Continuamos vendo a China exportando deflação, principalmente de bens manufaturados. Isso é claro aqui no nosso mercado, mas também em outros países. A China tem se esforçado para diversificar seus mercados fora da economia americana no mundo todo", diz.
O segundo fator citado pela economista é o câmbio, que agora opera abaixo de US$ 5,30, elemento que favorece o cenário inflacionário.
Ela observou que o relatório Focus ainda projeta um dólar em torno de US$ 5,50, mas se o valor do real se mantiver mais valorizado, isso poderá beneficiar tanto a inflação corrente quanto as expectativas futuras.
"Embora isso ainda não tenha se materializado no Focus ou na inflação corrente, vejo como um viés positivo que dá ao BC um certo conforto para começar a sinalizar. O câmbio está jogando a favor, e não contra", afirma.
Do lado dos dados domésticos, a economista afirma que os núcleos de inflação mostram tendência mais favorável, com valores entre 3,5% e 4%, enquanto os serviços subjacentes apresentam percentuais mais elevados, o que significa um processo de desinflação consistente no Brasil.
Ela afirma que apesar de que no curto prazo os dados mostraram uma aceleração, influenciada pela Black Friday, a tendência geral de moderação da atividade econômica não se alterou.
"Temos uma certa “poluição” nos dados por conta da Black Friday — que joga PMC para cima e depois preços para baixo em novembro — e em dezembro há um rebound, uma retomada desses preços", diz.
Damico diz ainda que a volatilidade existe, mas em linhas gerais dá para dizer que o Brasil está em um processo de desinflação bastante consistente.
"O copo continua meio cheio do ponto de vista das notícias favoráveis para a inflação. Seguimos com preços de alimentos bastante tranquilos. Existe expectativa de alguma recuperação neste ano, mas, no curto prazo, o o mood de preços de alimentos continua favorável, surpreendendo um pouco para baixo", afirma.
Para a economista, apesar dos sinais positivos para uma redução de juros, existem dois pontos de atenção para o BC: o mercado de trabalho e o ritmo da reancoragem das expectativas.
No caso do mercado de trabalho, ela cita a fala do diretor do BC, Paulo Picchetti, de que o mercado de trabalho aquecido não preocupa, desde que não se traduza em pressão inflacionária.
"De fato, não era esperado que o mercado de trabalho estivesse tão aquecido com uma taxa de juros tão restritiva. Ninguém tem uma explicação muito precisa do porquê isso está acontecendo, mas está", afirma.
Damico explica que os dados recentes mostraram um um número um pouco pior de serviços atrelados à mão-de-obra nos últimos dois meses, mas os os serviços subjacentes, de forma geral, continuam elevado, mas mas com tendência de desinflação.
Sobre o ritmo mais lento da reancoragem das expectativas do mercado, a economista afirma que nas últimas reuniões houve quedas importantes nas expectativas de inflação, mas foram modestas.
"Tivemos dezembro, que já era esperado como mais complicado do ponto de vista cambial, e o aumento da incerteza global. Até digerir tudo isso e entender que ainda vivemos num mundo desinflacionário, leva um certo tempo", diz.
A avaliação da CEO da Buysidebrazil é que dentro de todo esse cenário o "BC não vai se comprometer com um corte em março", mas deixará a porta aberta para o início do ciclo de redução da Selic.
A Damico afirma que o Banco Central poderá optar por uma mudança sutil no comunicado desta semana para sinalizar a possibilidade de corte da Selic em março, sem se comprometer com a decisão.
Uma das opções seria remover o trecho que menciona que o BC “não hesitará em retomar o ciclo de alta dos juros”, reduzindo o tom de alerta para novos aumentos.
Outra alternativa seria adotar uma comunicação mais atrelada a dados, no estilo data dependent, em que os “próximos passos dependerão da dinâmica da inflação, das expectativas e do balanço de riscos”.