Bruxelas: agricultor senta-se numa cadeira ao lado de batatas perto do Parlamento Europeu, na Praça de Luxemburgo, durante um protesto de agricultores (Nicolas Tucat/AFP)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 10h45.
Última atualização em 9 de janeiro de 2026 às 14h33.
Os agricultores franceses anunciaram uma nova onda de protestos contra o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, após os embaixadores do bloco europeu sinalizarem nesta sexta-feira, 9, que o tratado deve ser aprovado ainda hoje.
A Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA), principal entidade do setor na França, prometeu intensificar as manifestações caso a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assine a tratativa com os países sul-americanos nas próximas semanas.
A convocação ocorre em meio a uma sexta-feira marcada por protestos em várias partes da Europa. Segundo a agência EFE, milhares de agricultores poloneses tomaram as ruas de Varsóvia em protesto contra o tratado.
A mobilização deve se expandir para outras cidades e conta com apoio do presidente do Instituto da Memória Nacional, Karol Nawrocki, e do primeiro-ministro Donald Tusk, ambos contrários ao acordo.
Centenas de tratores que estavam estacionados nos arredores da capital polonesa seguiram para o centro da cidade assim que foi divulgado o resultado preliminar da votação em Bruxelas, que indicou apoio à assinatura do tratado entre União Europeia e Mercosul.
Além da Polônia, rodovias na França e na Bélgica também foram bloqueadas nesta sexta-feira.
Embaixadores dos 27 Estados-membros da UE confirmaram a posição de seus governos durante a reunião em Bruxelas, na Bélgica.
Ao menos 15 países, representando 65% da população do bloco — o quórum necessário para a aprovação — votaram a favor, segundo fontes do governo brasileiro ouvidas pela EXAME. Os países têm até as 13h (horário de Brasília) desta sexta-feira para formalizar suas posições por escrito.
Salvaguardas adicionais para o mercado agrícola — que seriam acionadas em caso de aumento repentino das importações do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — também foram aprovadas pelos embaixadores da União Europeia, segundo o site Politico, que citou diplomatas sob condição de anonimato.
França e Polônia são hoje as principais barreiras à aprovação do tratado. Os agricultores afirmam que o setor agropecuário europeu perderá competitividade diante das commodities do Mercosul — especialmente as brasileiras, que são mais baratas.
Apesar da oposição, estimativas da própria Comissão Europeia apontam que as exportações agroalimentares do bloco para os países sul-americanos devem crescer 50% com o acordo, beneficiadas pela redução de tarifas sobre produtos como vinhos e bebidas alcoólicas (até 35%), chocolate (20%) e azeite (10%).
Na França, a ministra da Agricultura, Annie Genevard, afirmou que tentará barrar o avanço do tratado no Parlamento Europeu, onde a votação — prevista para os próximos meses — deverá ser apertada.
A Alemanha, por outro lado, celebrou o avanço do acordo. “Enquanto outros se fecham e adotam políticas comerciais cada vez mais agressivas, nós estamos focados em novas parcerias”, afirmou o ministro das Finanças, Lars Klingbeil, em comunicado.
Internamente, o governo francês também enfrenta pressão. Partidos da oposição — tanto da esquerda quanto da direita — apresentaram moções de censura contra o governo de Emmanuel Macron, acusando o presidente de ter agido tarde demais para proteger os agricultores franceses.
Grupos ambientalistas também criticaram o avanço do tratado. A organização Amigos da Terra classificou o pacto como um acordo que "destrói o clima".
Nesta semana, em mais uma tentativa de destravar a negociação, Von der Leyen, anunciou acesso antecipado a até 45 bilhões de euros em financiamentos agrícolas dentro do próximo orçamento plurianual da UE (2028–2034). Ela também reafirmou os 293,7 bilhões de euros já previstos para o setor após 2027.
Segundo Von der Leyen, as medidas garantiriam aos agricultores e comunidades rurais "um nível de apoio sem precedentes", em alguns casos superior ao do atual ciclo orçamentário.