Akiya: nome é dado às casas abandonadas do país, que chegam a 9 milhões (imagem ilustrativa) (Yusuke Harada/NurPhoto/Getty Images)
Repórter de Mercados
Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 14h26.
Última atualização em 9 de janeiro de 2026 às 14h59.
O Japão vive uma crise no mercado imobiliário, com quase 9 milhões de casas vazias no país. O número representa 14% do total de residências — ou uma a cada sete casas —, segundo o censo de 2023. É a maior taxa já registrada, resultado direto da combinação entre envelhecimento da população, baixa natalidade e êxodo rural.
Segundo informações da Cable News Channel, canal de notícias da Mediacorp, em Singapura, na cidade japonesa de Uda, quase uma em cada cinco casas está vazia — conhecidas como akiya, em japonês. À publicação, Yoshiji Misaki, líder comunitário da região, disse que a população da cidade foi reduzida à metade nos últimos 60 anos. Os dados mais recentes mostram que Uda tem cerca de mil casas abandonadas, 300 a mais do que há cinco anos.
O governo local tem analisado como essas casas abandonadas podem atrair novos moradores como parte de sua estratégia de revitalização. A cidade distribui até 2 milhões de ienes (o equivalente a US$ 14 mil) em subsídios para a renovação de akiyas.
Alguns especialistas, ainda de acordo com a mídia asiática, preveem que o número de casas abandonadas em todo o Japão mais do que dobre, chegando a 23 milhões — ou uma em cada três casas — até 2038.
Algumas cidades, como Uda, estão comprando imóveis abandonados e reformando essas propriedades para acomodar moradores em estadias de curta duração ou criando as chamadas akiya banks, plataformas públicas para cadastro e redistribuição desses imóveis. Por meio delas, interessados conseguem acessar casas com preços muito abaixo da média nacional.
As estratégias, porém, têm eficácia limitada: a maioria das akiyas precisa de reformas estruturais custosas e está localizada em regiões sem acesso fácil a serviços, emprego ou transporte.
O pano de fundo do problema é demográfico. Em 2024, 29% da população japonesa tinha mais de 65 anos, segundo dados oficiais. Com menos nascimentos e jovens migrando para grandes centros como Tóquio, a pirâmide populacional se inverte.
Sem demanda interna suficiente, casas perdem valor. Em regiões como Wakayama e Kochi, imóveis com valor de mercado abaixo de US$ 10 mil se tornaram comuns — e, mesmo assim, seguem sem compradores.
O que para o Japão é crise, para estrangeiros pode ser oportunidade. Cidadãos de países como Estados Unidos, Austrália e Filipinas começaram a explorar as akiyas como forma de moradia alternativa ou investimento imobiliário.
Startups especializadas em renovação e revenda de casas abandonadas também cresceram nos últimos anos. É o caso da Ject One, que criou o serviço conhecido como Akisapo em 2016, para facilitar a reforma e conversão desses imóveis em pousadas ou espaços comerciais para empreendedores locais.
"Estamos expandindo nossas atividades comerciais para abordar a questão dos imóveis desocupados, que se tornou um problema nos últimos anos. Cada casa desocupada possui características e desafios diferentes. Percorremos a área circundante, realizamos entrevistas detalhadas, planejamos e propomos a melhor conversão para o terreno e o edifício", afirma a companhia japonesa.
A Ject One conecta donos de akiyas — muitas vezes herdeiros distantes sem interesse em manutenção — a parceiros que financiam as renovações, e lucra com a gestão de aluguéis e sublocações em áreas rurais do Japão.
Parte do desafio está justamente no modelo de herança e posse. No Japão, muitos imóveis permanecem em disputa por herdeiros, o que trava legalmente sua venda ou ocupação.
Algumas cidades têm reagido com legislações mais duras: propriedades vazias e em ruínas passaram a ser taxadas com alíquotas mais altas ou demolidas compulsoriamente. A cidade de Yokosuka, por exemplo, cobra taxas adicionais sobre imóveis que permaneçam desocupados por mais de cinco anos, e já demoliu mais de 500 deles desde 2015.
A legislação nacional também foi alterada para facilitar a regularização de propriedades com herança indefinida. Agora, é possível registrar imóveis abandonados em nome do governo após certo período de inatividade.