Com inflação recorde e restrições na compra de dólar, argentinos buscam refúgio nas criptomoedas

Corretoras cripto que atuam no país revelam dados significativos de adoção das moedas digitais frente à corrida pelo dólar nos bancos argentinos e falta de cédulas
Um dólar equivale a 132 pesos argentinos (btgbtg/Getty Images)
Um dólar equivale a 132 pesos argentinos (btgbtg/Getty Images)
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Mariana Maria Silva

Publicado em 04/08/2022 às 11:31.

Última atualização em 05/08/2022 às 16:15.

O cenário econômico na Argentina é marcado por um extenso histórico de hiperinflação e de medidas de confisco de depósitos que fez com que a população optasse por guardar dinheiro fora do sistema financeiro. Neste sentido, as criptomoedas ganharam uma importância diferente para os argentinos do que para o resto do mundo.

Com uma desvalorização que surpreende turistas que viajam ao país, são necessários 132 pesos argentinos para se obter o mesmo valor que 1 dólar. Já o Real vale o equivalente a 25 pesos na cotação atual. É por isso que, ao comprar em estabelecimentos argentinos, é comum ter a opção de escolher entre dólar, real ou peso, com uma clara preferência pelo dólar.

(Mynt/Divulgação)

Embora a crise cambial não seja uma novidade no país, a Argentina enfrenta a maior inflação das últimas três décadas. Neste cenário, o dólar se consolidou aos olhos da população como um refúgio e uma proteção de seu patrimônio, o que acaba piorando os níveis de desvalorização do peso e aumento da inflação.

Estima-se que existem quase sete vezes mais dólares guardados em cofres ou embaixo de colchões nas casas argentinas do que nas reservas do Banco Central do país, que acumula pouco mais de US$ 40 bilhões. Este volume ainda diminui cada vez mais frente a crise econômica.

Longas filas em bancos e a falta de cédulas viraram rotina no país. No entanto, para os argentinos que não querem ficar com dor nas costas por conta dos dólares embaixo do colchão, as criptomoedas viraram a solução.

O país está entre os 10 principais países do mundo quando o assunto é a adoção das criptomoedas, de acordo com dados da Bitso, corretora cripto que atua na América Latina.

"Como resposta a um cenário atual de incerteza econômica, desvalorização da moeda local e alta inflação, vemos entre os argentinos uma tendência crescente de adoção de criptoativos, como bitcoin, e um interesse especialmente em torno às stablecoins. A Argentina é hoje um dos 10 principais países do mundo em adoção de criptomoedas”, afirmou Julián Colombo, head de Políticas Públicas na Bitso da Argentina, em entrevista exclusiva à EXAME.

Enquanto os brasileiros buscam nas moedas digitais a valorização, na Argentina a situação é um pouco diferente. Os argentinos que utilizam as criptomoedas, o fazem em busca de proteção contra a desvalorização de sua moeda local.

“As criptomoedas são muito utilizadas na Argentina como instrumento de proteção contra desvalorização da moeda local e inflação. A manutenção do poder de compra em dólar é um cenário que acontece há várias décadas na Argentina e as criptomoedas vieram para facilitar o processo como mais uma opção fácil de utilizar”, afirmou Henrique Teixeira, head global de desenvolvimento de negócios no Grupo Ripio, que atua no setor de corretoras de criptomoedas no país.

Além da praticidade da tecnologia, a possibilidade de driblar as restrições cambiais do país para ter acesso ao dólar também é apontada como uma razão para o aumento da adoção das criptos na Argentina. De acordo com Teixeira, mais de 60% do volume de negociações da Ripio na Argentina é de criptomoedas estáveis cujo valor acompanha o dólar.

“As restrições do governo quando se trata da compra de dólares pela população vieram com a intenção de fortalecer o Peso, entretanto, os argentinos encontraram nas criptomoedas, principalmente nas stablecoins colaterizadas ao dólar, a possibilidade de se fazer uma proteção cambial e inflacionária muito eficiente, representando mais de 60% do volume de cripto negociado na Argentina”, contou Henrique Teixeira, em entrevista à EXAME.

Julián e Henrique acreditam que o cenário econômico argentino e os benefícios da tecnologia podem colaborar cada vez mais para a disseminação das criptomoedas no país.

De acordo com dados da Bitso, a corretora teve um aumento de transações em cripto de 118% entre 2020 e 2021 na Argentina, e já enxerga uma aceleração ainda mais evidente em 2022. “Notamos que as criptomoedas estão se tornando cada vez mais úteis no dia a dia das pessoas, para transações ou pagamentos”, afirmou Julián Colombo.

No Brasil, apesar de assumir um viés diferente, a adoção das criptomoedas também segue em velocidade surpreendente. Recentemente, grandes empresas como Nubank, 99Pay, Mercado Pago disponibilizaram a compra e venda de criptomoedas em suas plataformas, atingindo milhões de clientes. Além disso, o BTG Pactual construiu a sua própria plataforma, a Mynt, que será disponibilizada em agosto.

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