Fila para saque, falta de cédulas e inflação em alta: a rotina dos turistas na Argentina

Inflação alcançou 60% e é a mais alta no país em mais de 30 anos. Os efeitos dessa crise ficam evidentes até para quem está na Argentina a passeio
 (Bianca Alvarenga/Exame)
(Bianca Alvarenga/Exame)
Bianca Alvarenga
Bianca Alvarenga

Publicado em 24/07/2022 às 15:12.

Última atualização em 27/07/2022 às 14:34.

"Pagamento em dólar, real ou peso". Quem viaja para a Argentina sabe que essa é uma das frases mais comuns de se ouvir em passeios pela cidade e, principalmente, durante as compras. E não é por acaso que os argentinos classificam as moedas nessa ordem, ao perguntar como o cliente vai pagar. A preferência por dólares é soberana no país.

A razão disso é um extenso histórico de hiperinflação e de medidas de confisco de depósitos o amargo episódio do "corralito", em 2001 é o mais lembrado. Tais eventos legaram aos argentinos a cultura de guardar dinheiro fora do sistema financeiro.

Há mais dólares escondidos em casas argentinas do que nas reservas do Banco Central do país. Estima-se que os cidadãos locais tenham mais de 300 bilhões de dólares guardados em cofres e embaixo de colchões, frente a um volume de reservas internacionais de pouco mais de 40 bilhões de dólares – volume que está secando mais e mais, diante da crise econômica que o país enfrenta. 

Com as reservas no "volume morto", o governo argentino tem tentado frear a saída de dólares do país (e dos bancos), ao mesmo tempo em que tenta estimular a entrada de moeda estrangeira em solo argentino.

Na semana passada, o ministro do Turismo do país, Matias Lammens, anunciou a criação de um câmbio especial para turistas, chamado MEP. Até então, os visitantes que precisavam trocar seus dólares por pesos de forma oficial encontravam um câmbio cujo valor era 50% menor que o praticado em casas de câmbio não-oficiais, ou por plataformas que usam o dólar paralelo (chamado de "dólar blue") como referência.

Isso, obviamente, fazia com que muitos turistas fizessem câmbio fora dos bancos argentinos, o que alimentava ainda mais o volume de reservas fora do sistema financeiro do governo.

"A Argentina precisa dos dólares trazidos pelos visitantes. Estamos trabalhando para que os turistas efetivamente liquidem esses dólares no mercado formal de câmbio", disse Lammens.

As novas regras permitem que o turista troque até 5 mil dólares por mês em bancos e casas de câmbio oficiais, usando a cotação do MEP. Será necessário apenas preencher uma declaração juramentada, atestando que esse limite não foi ultrapassado.

Sem dúvidas, a medida é benéfica para os visitantes, uma vez que será possível contar com um câmbio oficial mais favorável, sem os riscos de trocar dinheiro no mercado paralelo. Mas a solução é apenas um paliativo para a complexa situação que a economia argentina enfrenta.

Filas para saques, preços em constante ajuste

A crise cambial do país se arrasta há, pelo menos, 20 anos. Embora os argentinos estejam habituados a lidar com as pressões de preço, a inflação oficial de atualmente é a mais alta em três décadas. Até o final do ano, o índice de preços deve alcançar os 90%.

Momentos como o atual levam os argentinos a buscar refúgio no dólar, o que inflama ainda mais a desvalorização do peso e alimenta a inflação. E os sinais desse círculo vicioso podem ser vistos, inclusive, por quem está no país a passeio.

Em Buenos Aires, há longas filas para o pagamento de contas e saques de recursos, falta de cédulas nos bancos e lojas remarcando preços diariamente.

O vendedor de uma banca de vinhos dentro do mercado de San Telmo (região de comércios da capital argentina) avisava os clientes que os preços das prateleiras não estão atualizados, e que é necessário aplicar um acréscimo de 20% no valor de todos os produtos.

Com a moeda perdendo valor a cada dia, os argentinos correm aos bancos para pagar contas e fazer envios para amigos e parentes, inclusive os que vivem fora do país. Agências do banco Western Union em Buenos Aires tinham filas capazes de dobrar o quarteirão, com espera de mais de duas horas.

Embora a maior parte dos clientes aguardando na fila seja de turistas sacando as remessas feitas de fora do país, ou de estrangeiros enviando dinheiro para o exterior, uma segunda fileira formada na lateral da entrada tinha dezenas de argentinos esperando para pagar suas contas na boca do caixa.

Com notas maiores em falta, serviços e produtos são pagos com maços de cédulas de 100 pesos (Bianca Alvarenga/Exame)

Cédulas em falta

O uso de serviços digitais e até de cartão de crédito ainda é bastante limitado na Argentina, justamente porque a cultura do dinheiro em espécie é soberana. A corrida pelas cédulas, no entanto, tem causado problemas pontuais de fornecimento pelos bancos.

No início do mês, em meio à conturbada saída do ministro Martín Guzmán do comando da Economia, alguns bancos passaram por uma escassez de notas. Na segunda-feira que sucedeu a renúncia de Guzmán do Ministério, dia 2 de julho, uma agência avisava aos clientes que mesmo os saques maiores só poderiam ser feitos em cédulas de 100 pesos (algo como 2 reais, na conversão para a moeda brasileira no câmbio paralelo).

Quem não pôde deixar o saque para depois saiu carregando maços de notas. Mas o que para os turistas parece estranho, ou até antiquado, para os argentinos é apenas parte da rotina normal. Enquanto as máquinas de cartão são uma raridade, boa parte dos estabelecimentos comerciais conta com uma máquina de contagem de cédulas, para facilitar o processo de pagamento.

O aumento de 25% no número de brasileiros em visita ao país, desde outubro, quando as fronteiras argentinas reabriram, é prova de que nenhum desses inconvenientes é capaz de estragar os planos de viagem dos turistas. No entanto, a experiência é uma lembrança de como uma economia estável é ponto essencial para pavimentar o desenvolvimento sustentável do sistema financeiro e das ferramentas digitais.

Para os brasileiros, a visita à Argentina é também uma reflexão de que o primeiro degrau para a existência do Pix, dos bancos digitais e de toda facilidade financeira no nosso mercado foi o controle da inflação na década de 1990, e que cada vez que flertamos com o descontrole dos preços, o Brasil fica um passo mais próximo do passado.

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